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Se o Dinheiro não existisse – Alan Watts

Allan Watts

http://pt.wikipedia.org/wiki/Alan_Watts

 

Vídeo incrível e potencialmente muito polêmico. Como muitos apontam: é fácil dizer isso quando não se está com fome, ou desde que ninguém dependa de você para ficar vivo. Sim, é obviamente verdade. Podemos ir além desta observaçao agora?

A minha sensação fundamental quando vi este vídeo foi: Como eu queria que alguém me tivesse dito isso, com essa clareza, quando eu tinha pouca idade, nenhuma responsabilidade e a vida toda pela frente.

Então, antes mesmo de compartilhar com outras pessoas, antes mesmo de publicar a respeito, sabe o que eu fiz?

Eu mostrei esse vídeo ao meu filho. Que tem ainda pouca idade (13 anos) e muito tempo pela frente. E eu sinceramente, muito sinceramente, espero que ele viva a vida dele lembrando-se deste video.

A cada dia. TODOS os dias.

 

O Materialismo está Morto.

 

(C) Paulo Ferreira, 2012. Todos os direitos reservados.
(Autorizada a publicação, desde que citada a fonte.)

 

Foi Nietzsche, em A Gaia Ciência e depois em seu Assim Falou Zaratustra, de 1883, que cunhou a famosa frase “deus está morto”. Foi mal compreendido, como é tão comum a todos que trazem idéias novas ou as registram em frases emblemáticas como ele fez. Para qualquer um que entenda minimamente o pensamento de Nietzsche, claro está que ele se referia ao deus “pequeno, vingativo e excessivamente humano” ou seja, aquele deus criado pelos homens à imagem e semelhança do homem. Um arquétipo de deus medieval, declarado morto desde o século dezenove – morto para o pensamento, para a relevância, morto para o mundo pensante.

Bem sabemos que mesmo este arquétipo vencido continua ocupando espaço em muitas cabeças mundo afora, mais de um século depois disso tudo. Porque este mundo é muitos mundos, porque a fome de pão e a fome de conhecimento foi sempre o estado no qual se preferiu manter grande parte do povo em nas eras governadas por poucos, aqueles que se aproveitam da fome e da ignorância para manter cativos os homens.

Mas vemos que hoje, no século XXI, este arquétipo morto não fala mais às novas gerações. Estas não se identificam com ele minimamente, não concebem em que cela escura da alma alguém poderia acreditar em tal deus humano e falido. E isso é por demais evidente para merecer muita discussão a respeito – mesmo considerando que há ainda hoje filhos famintos de pão e de luz, vivendo na ignorância professada por seus ancestrais.

Mas há hoje uma nova morte sendo anunciada, insistentemente, ainda parcialmente (e muito intencionalmente) ao largo da devida atenção da grande mídia comercial: A morte do materialismo.

Esta crença na matéria como única realidade; talvez a mais estranha dentre tantas crenças bizarras as quais o homem foi sempre tão pródigo em produzir; ganhou um impulso imenso com a desesperança criada no século marcado por duas guerras mundiais.

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Homem em Guerra

Publico aqui uma crônica que escrevi originalmente em 2009 e foi selecionada e publicada no livro do Prêmio Porto Seguro de Literatura – categoria crônicas.

Homem em guerra.

 

O homem dessa primeira década do século XXI é um homem em guerra. O estado de guerra mudou com o passar dos tempos. Até o início do século XX, era uma coisa física, real, aberta. Na segunda metade do século XX, tornou-se uma guerra de ameaças entre nações, a guerra fria. E no final do século XX e começo do século XXI, tornou-se uma guerra interna, de cada homem consigo mesmo.

Vivemos em guerra contra nossas limitações. As do corpo ou as da mente. Lutamos contra nossos limites, físicos, mentais ou espirituais. Vivemos em guerra por sermos hoje mais materialistas que nunca, e mais individualistas que nunca. Toda a tecnologia e as novidades da área de beleza e saúde nos convenceram que podemos ser jovens para sempre, belos para sempre. E se não somos suficientemente belos, temos mais que possibilidade: temos dever, obrigação de nos melhorarmos.

O homem atual não sabe o que é paz. Embora não viva a guerra aberta nos campos nem a guerra fria entre nações, vive a guerra interior da qual não pode escapar. Aceitar-se, compreender-se significa uma rendição inaceitável nesse modelo perfeccionista e consumista. Não fazer cirurgia plástica, ou não fazer a enésima especialização na carreira, torna-se imoralidade.

Descanso é algo mal-visto. Descanso é algo que somente os muito ricos e muito belos deveriam ter. E mesmo esses não têm. Sentem-se igualmente em guerra com eles mesmos, não se aceitam, querem o aperfeiçoamento constante, contínuo, a riqueza crescente.
Não importa o tamanho da montanha de dinheiro que tenham hoje. Se amanhã não tiverem ainda mais, sentir-se-ão fracassados, perdedores. Hoje, quase todos vivem exaustos.

Hoje, muitas pessoas, num dia de trabalho, não dizem que vão almoçar. Dizem que vão apenas “comer qualquer coisa” ou “pegar um lanchinho”. As pessoas têm vergonha do tempo que passariam alimentando-se com calma, almoçando e conversando enquanto o fazem. Um almoço que leve mais de 30 minutos e não seja dedicado aos negócios é praticamente uma vergonha. Aqueles que o fazem, às vezes não se permitem admitir que o fazem, por medo das críticas. Envergonham-se do bem-estar. Aqueles que porventura num dia específico estejam mais tranqüilos, ou menos atarefados, procuram esconder isso dos demais. Porque há muito medo da inveja alheia, e ao mesmo tempo, medo de passar a vergonha de não estar alinhado com o máximo esforço pela totalidade do tempo.

Não ter olheiras, insônia, preocupações infinitas e não estar exaurido significa, para muitos, ter de esconder isso para não se envergonharem de si mesmos.

Não se permitem tempo para usufruir o que tem. Não se permitem o mínimo tempo para reflexão. Não conhecem o significado da palavra paz. Não conhecem mais o significado do conceito interior de paz.

Olhe nos olhos de um homem contemporâneo. Eles nunca param. Precisam buscar incessantemente tudo aquilo que estão perdendo. Nosso tempo febril não permite piscar. Fechar os olhos ou desligar o celular. Todos já os mantém ligado mesmo nos teatros e cinemas. Como suportar o risco de perder algo? O que quer que seja; perder é insustentável para nós, hoje.

Mas estranhamente algumas perdas são toleráveis ao homem contemporâneo: a perda da nossa humanidade, da nossa falibilidade, do nosso sagrado direito à imperfeição e à necessidade de descanso. Acima de tudo, toleramos perder a paz interior. Pior ainda, ver que tantos consigam orgulhar-se disso.

© 2009 Paulo Ferreira. Todos os direitos reservados.