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Mascara Tribal

Não sou um estudioso de Jung, porém o deveria. Creio que há muitas coisas interessante para a psicologia, filosofia, e para a vida cotidiana também. Jung se aproxima da psicanálise, creio, com a ressonância entre eles no estudo dos mitos e símbolos. Lembrem-se que Freud era um colecionador de peças antigas e um conhecedor de mitos, tanto que muitos de seus conceitos são nomeados com a inspiração da mitologia greco-romana: Édipo, Eros, Tânatos, Narcisismo…

 Mas, se por um lado Freud falou basicamente de um inconsciente pessoal, enraizado também nas heranças genéticas, Jung o extrapolou para um inconsciente coletivo, abaixo desse: há um tecido de sentidos, de símbolos universais, que atuam e influenciam nossa vida e o sentido que damos a ela. Esses são os arquétipos, que se encarnam em diversas figuras.

Lembro-me agora do único sonho junguiano que tive. Não que haja sonhos mais apropriados para cada tipo de pensamento, mas que, conforme vamos estudando psicanálise, nas linhas de cada autor, durante a universidade, ocorre um fenômeno interessante, é como se nossos sonhos ficassem mais facilmente traduzidos pela teoria que estamos vendo no momento. Mas não sei como explicar isso totalmente.

 Bom, voltando ao sonho: foi rápido, e ao acordar. Despertei pela estranheza do sonho. Era época de eleições municipais, com aquelas propagandas chatas e rápidas dos vereadores, que só tinham tempo de falarem seu número. Meu sonho foi o seguinte. Imaginem um fundo preto, e uma iluminação tipo com holofotes, debaixo para cima, dando um clima mais sombrio. Havia em destaque uma máscara, dessas tribais, do tipo como uma oval na vertical, mas com as pontas finas. Essas máscaras de tribos havaianas, que vemos nos desenhos animados. Aparecia uma legenda abaixo, como nas propagandas dos vereadores, e que era repetida pela máscara, em uma voz obscura e tenebrosa, bem forte: “Votem Ourska Persona”!

 Estranho não hehehehe… bom, vamos a interpretação que fiz, junto com minha professora na época. Há um dicionário de símbolos, que muito ajuda às análises junguianas. Nele encontramos a palavra “KA”, que se refere a uma força anterior, antiga, que rege nossas vidas, um conceito egípcio. Não me lembro direito do que estava escrito, mas era algo assim. Minha professora desmembrou o nome “Ourska” em “Ours-ka”, ours em inglês significa “nosso”. Assim, poderíamos estar falando de “nosso ka”, de uma força coletiva que nos move.

 Já persona, é um conceito de Jung famoso. Se refere àquela parte de nossa personalidade que se mostra para os outros, nossa máscara social, que oculta nosso self. Interessante minha máscara ser uma máscara tribal, e seu primeiro nome ser justo uma forma de arquétipo, pois ela mostra aquilo que pretendia ocultar…

 Bom, o que se vê com Jung é que, enquanto sujeitos, temos raízes profundas, que nos sustentam. Essas raízes nos mantém atados a um solo comum a todos, a Natureza simbólica. Há quem coloque esses arquétipos em um mundo espiritual, em uma unidade espiritual, em outro mundo. Mas eu acho que, conforme vamos mudando nossa sensibilidade para as coisas, vemos que esse horizonte de símbolos comuns está aqui mesmo, entre nós, naquilo que fazemos e no que somos. O mundo em que vivemos já nos fornece materiais para a imaginação, e nos fornece determinados símbolos: a terra, mãe, que nos sustenta e alimenta, o fogo, quente mas assutador, necessário mas perigoso, a água, refrescante, nos acolhe, o ar, tão efêmero e invisível mas tão presente… Assim, penso, antes de procurar um mundo além do nosso, precisamos ver que no nosso mundo mesmo há muita coisa inexplorada. O oculto é o que está diante dos nossos olhos, não é assim que dizem?