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Inquisição Católica

Estava assistindo agora ao filme “O código da Vinci”, do livro de Dan Brown. Me surpreendo com a forma pela qual ele consegue prender a atenção das pessoas: no início de cada livro, ele nos avisa que várias das informações ali expressas são reais, principalmente alguns fatos históricos, instituições e seitas religiosas. Ele se baseia em dados reais, principalmente em curiosidades, e através delas amarra uma trama fictícia. Chega um ponto em que não conseguimos mais distinguir o que é real e comprovado e o que é ficção.

Não tenho base para argumentar se as teses apresentadas sobre o Priorado de Sião e sobre o casamento de Jesus com Maria Madalena são reais ou não. O que me interessa nesse filme é a importância dada a este fato.

De acordo com o livro, toda a fé da Igreja católica está nas constatações inabaláveis da divindade de Jesus Cristo.

Ora, o livro quer vender uma trama que mexe com nosso imaginário e com o fato de que há conspirações secretas que sabem de coisas que mudariam nossas vidas. Por trás do que o filme coloca, essa “mentira” decidida no Concílio de Nicéia (onde teriam decidido entre os cristão quais evangelhos irão compor a Bíblia, a divindade de Jesus, etc), foi o que justificou toda a matança cristã da idade média, a caça às bruxas, entre outros fatos negros de nossa história.

Seria a crença a justificativa das ações de uma instituição? Seriam as “mentiras” da Igreja Católica aquilo que a levou a cometer atrocidades?

Aí está o ponto em que eu discordo do que o livro nos propõe. O que se percebe na história da humanidade é que toda instituição poderosa recorre a uma forma de poder, seja influência ou mesmo de tortura e matança.

Sartre nos elucida de forma brilhante a dialética da formação de grupos, e que pode, até certo limite, nos permitir compreender como as instituições tornam-se ditatoriais:

 – Os humanos, vivendo em sua individualidade, sem um real contato e troca com o outro, vivem em uma forma de grupo chamada de serialidade, como um conjunto de pessoas esperando um ônibus no ponto. Não se conhecem, não conversam, cada um vive sua vida.

 – Vamos supor que alguém começa a ouvir uma música, e outra pessoa, que toca algum instrumento, começa a falar de música com ele. De repente, cinco pessoas estão conversando e trocando suas experiências sobre os instrumentos que tocam e o estilo de música que curtem. Eles começam a ter uma idéia de criar uma banda, e passam a se encontrar e a planejar o trabalho da banda, os ensaios, etc. A isso Sartre chama de “grupo em fusão”. Há troca intensa entre todos e muita criatividade.

– Com o tempo, começam a surgir as diferenças. Um dos integrantes, por exemplo, começa a chegar atrasado para os ensaios, pois tem outros compromissos. Isso começa a atrapalhar a banda. Aí eles fazem um conjunto de regras, para controlar o funcionamento da banda. A partir daí, ela deixa de ser um grupo e vai se tornando uma instituição. O que acontece é que os integrantes da banda, que gostaram muito do que estavam tentando criar, passam a querer proteger a criatividade a qualquer custo, e impedir qualquer mudança. Entretanto, a mudança é o motor da criatividade, e quando é impedida, ela começa a diminuir e a desaparecer.

 – Começa então o que Sartre chama de “Fraternidade Terror”. Os membros, com base nas regras, começam a controlarem uns aos outros. Esse controle, “em nome da banda”, vai com o tempo tornando as relações mais “profissionais” que “pessoais”… e esse grupo de pessoas voltam a viver em serialidade, controladas por uma burocracia que mata a fusão criativa.

Percebem aonde se pode chegar com isso? Imaginem que os grupos de religiosos e políticos não fazem músicas, mas defendem o que sentem ser como a realidade do mundo. Assim, institucionalizados, não vão somente impor suas regras ao grupo, mas vão tentar ampliá-las a todos… O grupo terror passa a competir com outras crenças, e sentem que todos devem fazer parte de sua verdade.

O que quero mostrar com isso é que o fato de Cristo ser ou não divino pouco influencia no número de mortes e no quanto a religião controlou o pensamento ocidental. Mas é da dinâmica dos grupos mesmo essa tendência agressiva ao controle. Assim, qualquer reunião de pessoas, com uma idéia em comum, exerce certa violência contra outras idéias. Mesmo quando somente atuam no debate, de forma saudável.

Não há grupos bons nem ruins, mas sim há formas diferentes de acumulação de poder, e essas formas dependem de todos os que se vincularam a ele. Assim, não poderíamos dizer que somente Hitler é um monstro, mas ele era um ícone, um símbolo de um sistema ditatorial de imposição de poder, de tentativa de controle. O poder se estrutura desde o alto escalão militar até a burguesia alemã que discriminava judeus.

Não que eles sejam todos impunes, mas quero dizer que não podemos personalizar demasiadamente as abominações que são frutos de todo um grupo dominante, seja ele religioso, seja ele político-ideológico.

Sei que dei muitos rodeios nesse texto. Comecei defendendo que o fato de Jesus ser divino ou não pouco explica o que a Igreja Católica fez no passado. Sua crença foi o produto de uma burocratização, da composição de regras, o que é comum em todo agrupamento que se formaliza e se torna uma instituição. É esse poder grupal que devemos olhar, estudar… Será que há possuidores da verdade, e os que a ocultam? Ou há grupos, cada qual com uma verdade, que se digladiam e devoram um ao outro por mais poder?

Sei que tentamos ir para além dos dogmas… mas então, o que haverá depois deles?