Religião, O Outro Lado do Meu Ego

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Parte 2

Vemos nesse video um ateu (PC Siqueira) falando o que acontece com certos tipos de religiosos, o religioso que acredita nas palavras cuspidas dos pastores que mais parecem vendedores. Há certa explicação para ele fazer esse video, e é porque ele foi ofendido ao falar sobre Deus em um de seus videos, e isso me fez voltar a pensar nesse assunto que pra mim já é bem antigo, o porque as pessoas acreditam em Deus, e porque sempre se ofendem e defendem vorazmente contra qualquer questionamento ou ofensiva para a moralidade emprestada dos líderes religiosos.

O que nosso amigo PC Siqueira e muitas pessoas que lêem esse blog provavelmente devem sentir quando encontram pessoas assim, super defensivas e confusas, não é raiva e sim uma frustação, pois raiva se sente quando estamos errados para a maioria das pessoas, o que acontece muito com esse tipo de pessoa religiosa, que baseia sua moralidade não em experiências/conclusões pessoais, mas sim de má interpretações e mensagens super-confiantes de pessoas superficiais.

Existem algumas pessoas como Richard Dawkins (o considerado líder ateu mundial) que mostra sua ofensiva de modo inteligênte porém não sábio, por ter muito ego, ofender e constranger as pessoas, e seu único argumento ser a teoria ainda não completa da evolução de Darwin, o que para muitos pode funcionar, mas com certeza essa não é a melhor abordagem que se pode ter do assunto, não se pode ridicularizar a crença dos outros, existem pessoas que acreditam que “precisam” de um Deus se não o mundo não faz sentido, ou seja, pra eles “Deus é sempre a resposta para nossa ignorância”, o que de fato por milhares de anos demos explicações divínas a coisas físicas.

Muitas pessoas usam Deus como preenchimento de seu vazio interior dado devido a ignorância e falta de sabedoria, e são essas pessoas que não admitem que se fala mal de Deus ou duvide, pois o grilhão do medo e da ignorância não se despreenderá facilmente enquanto não houver uma chave para separá-lo e dar uma nova direção que tenha volume para preencher o vázio, para deixar de ser um vazio e ser algo do ser do indivíduo.

E quando eu falo no título desse post que religião é outro lado do ego, estou equivocado, pois religião não é somente algo de relação bem estreita com o ego, mas está sim muito mais para o Superego, que seria a parte moral da mente humana e representa os valores da sociedade.

O superego tem três objetivos:

  1. inibir (através de punição ou sentimento de culpa) qualquer impulso contrário às regras e ideais por ele ditados
  2. forçar o ego a se comportar de maneira moral (mesmo que irracional) e
  3. conduzir o indivíduo à perfeição – em gestos, pensamentos e palavras.

Veja a tamanha semelhança com o tipo de religião que se vê por aí hoje em dia.

Leia também o Post: Como Fazer Alguém Virar Ateu?

21 Comments

  1. Olá!

    Por mais que o Superego represente um fundo moral no sujeito, acho que falar em três “objetivos” do Superego é meio complicado. O superego é um termo freudiano que diz respeito a uma parte da subjetividade que acolhe as identificações da criança de suas figuras paternas, criando a partir delas tanto um “ideal de ego” quanto um “ego ideal”.

    Tanto quanto o Id, o lado mais pulsional do inconsciente, ele exige a satisfação de seus desejos, instalando um conflito interior.

    O ideal que o superego defende é construído muitas vezes a partir da moral social, mas esse não é seu fundamento maior, mas sim as proibições parentais e até a própria imagem dos pais, tidos como figuras ideiais de ser.

    Dizer que ele busca conduzir o homem à perfeição parece querer dizer (e não digo que foi essa sua intenção) que o Superego defende algo metafísico, o que não tem relação com o conceito freudiano.

    Assim, se pode-se falar de um objetivo do Superego, esse seria somente a satisfação de seus desejos, que representaria uma vontade interna de identificação com as figuras parentais.

    Desculpe se pareço impertinente em meus comentários, mas é que sempre achei importante a discussão desses temas, que são de meu interesse também. Como nunca vi uma resposta sua sobre sua opinião com relação aos meus comentários, continuo postando rsrsrs.

    Muito obrigado pelo espaço aqui cedido.

    • Devo primeiro agradecer você pela atenção, e gosto de seus comentários, pois já me é percebido que você estudou mais psicologia do que eu, aliás eu costumo estudo mais casos terapêuticos do que psicologia em si.
      E quando peguei a definição de super-ego, achei que cabia para o que eu queria falar, e na parte ressaltada por você sobre a perfeição, creio eu que seria a paerfeição do objetivo da pessoa, não uma perfeição universal, que seria fazer o que você quer fazer do jeito que você quer fazer.
      Não tinha lido a definição freudiana para superego, aliás a primeira definição já que ele criou o termo, mas creio eu que não apenas essa visão sobre o termo, afinal todos sabemos que freud apontava muitas coisas aos pais.
      Mas para que entendamos o quis dizer, troque apenas o termo superego no texto pelas definições, que ao meu ver não são tão profundas como você mesmo fala, mas acho que conseguem apoiar o meu texto.

      Mais uma vez obrigado pelos comentário
      abraços.

      • É, eu acho que, na essência, o que você quis dizer sobre o superego não está errado, mas é que pareceu que o conceito foi elevado a uma categoria meio que sobre-humana. O superego é a interiorização das figuras parentais, é nele que reside o ideal do ego, uma imagem que o ego utiliza como norma para suas condutas… Mas, como diz Freud, o que alimenta o superego é o Id, ou seja, as forças pulsionais… assim, há uma satisfação do sujeito para alcançar os “desejos” do superego. Na verdade, o Ego é um coitado tentando satisfazer todas essas exigências rsrs.

  2. Mako, para vc que é um buscador, aconselho a leitura a seguir. http://www.espirito.org.br/portal/download/pdf/agonia-das-religioes.pdf

    Um livro interessante de um intelectual espirita. Apesar de ser dos anos 80, possui uma base lógica muito boa.
    Mesmo tendo a posição espirita como guia, o livro aborda questões interessantes do papel social e cultural das religiões que compoem o nosso mundo.

    Vale a pena a leitura!

  3. Sobre Dawkins: “e seu único argumento ser a teoria ainda não completa da evolução de Darwin”
    PUTA MULEQUE BURRO!!! PRA QUE FALAR O QUE NÃO SABE?????? CALA A BOCA PORRA!!!
    O que você sabe sobre a teoria de Darwin, seu lixo?! Só vejo ignorância em cima de ignorância nesse blog. Esse Vitor aí foi é muito bonzinho com suas ignorâncias. Tinha é que descer o pau. Parece que esse Mako não aprende nunca!!!

    Tá evidente que esse trouxa não leu nem Dawkins nem Darwin – muito menos Freud. Mas ainda sim quer sair falando merda. Não possui nenhum domínio do conteúdo, mas quer dar seu pitaco de bosta.

    Sobre a religião fazer parte da psiquê: leia “O futuro de uma ilusão” do Freud, e veja o que diz o conceituador do ego e do superego sobre o assunto. Veja se ele defeca pela boca como você, dizendo que a religião faz parte da psiquê humana. Na melhor das hipóteses ele mencionará um “impulso religioso”, uma carência em relação a não aceitar a morte e uma “necessidade” de pensamentos positivos – que sempre poderão ser vencidos pela razão: “Não há instância alguma acima da razão.” A religião, segundo ele, seria “a neurose obsessiva universal da humanidade”, dependente de sentimentos infantis não resolvidos, sendo seus dogmas os responsáveis pela “atrofia intelectual da maior parte dos seres humanos”.

    Você evidentemente nem chegou perto do livro de Dawkins. Olha essa frase que escrota: “e seu único argumento ser a teoria ainda não completa da evolução de Darwin”.
    Vou copiar um simples trecho do prefácio de “Deus, um delírio” para desmenti-lo (na verdade caberia colocar toda a imensa argumentação de Dawkins sobre o assunto, mas nesse caso compensaria ler o livro todo – mas que é um ignorância descabida essa afirmação de que o único argumento é a teoria de Darwin, isso não gera dúvidas):
    “E, embora a seleção natural por si só se limite a explicar o mundo das coisas vivas, ela nos conscientiza para a probabilidade de que haja “guindastes” explicativos comparáveis que possam nos ajudar a entender o próprio cosmos. O poder de guindastes como a seleção natural é a segunda das minhas quatro conscientizações.”

    Pensei em colocar os trechos de “Deus, um delírio” que explicam a teoria de darwiniana sobre a origem das espécies através da seleção natural (que simplesmente não possui nenhuma lacuna a ser preenchida [darwin na época não sabia sobre genética, mas essa lacuna foi preenchida há muitos anos, no começo do século XX] – a teoria funciona plenamente, explicando e permitindo predizer os fenômenos naturais sem o menor engano). Sugiro este livro do renomado Douglas Futuyma, disponibilizado gratuitamente na internet: http://www.sbg.org.br/ebook/Novo/ebook_evolucao.pdf
    Lá ele demonstra tudo, descrevendo e detalhando o conteúdo básico de evolução e suas aplicações INEQUÍVOCAS (repito, não têm lacuna a ser preenchida – cabe ressaltar que uns trouxas confundem história evolutiva com a teoria da evolução; a primeira se refere à história em si, quem evoluiu de quem, etc; a segunda é a explicação para o fato da evolução/transformação – que é inconteste e é um fato totalmente comprovado. Talvez a única coisa que se discuta realmente é sobre a história evolutiva, mas não sobre os aspectos mais gerais, e sim sobre os detalhes de relações de parentesco).
    Aliás, Dawkins escreveu o livro “O maior espetáculo da Terra: as evidências da evolução”, no qual colocou e explicou toda a teoria darwiniana, detalhando as provas definitivas (que não são novidades, embora ele cite exemplos recentes) do fato da evolução.

    Sobre: “não se pode ridicularizar a crença dos outros, existem pessoas que acreditam que “precisam” de um Deus se não o mundo não faz sentido”
    Que tal ouvir o que o próprio Dawkins tem a dizer sobre o assunto?

    Extraído também do prefácio de “Deus, um delírio” (no decorrer do livro ele é ainda mais claro, específico e explicativo em relação a isto):

    SOU ATEU, MAS AS PESSOAS PRECISAM DA RELIGIÃO.

    “O que você vai colocar no lugar dela? Como você vai consolar quem perde um ente querido? Como vai suprir a carência?”
    Quanta condescendência! “Você e eu, é claro, somos inteligentes e cultos demais para precisar de religião. Mas as pessoas comuns, a patuléia, o proletariado orwelliano, os semi-idiotas deltas e ípsilons huxleanos, eles precisam da religião.” Isso me faz lembrar de uma ocasião em que estava dando uma palestra numa conferência sobre a compreensão pública da ciência, e investi brevemente contra “baixar o nível”. Na sessão de perguntas e respostas do final, uma pessoa da platéia ficou de pé e sugeriu que “baixar o nível” poderia ser necessário para “trazer as minorias e as mulheres para a ciência”. Seu tom de voz mostrava que ela realmente acreditava que estava sendo liberal e progressista. Só fico imaginando o que as mulheres e as “minorias” da platéia acharam. Voltando à necessidade de consolo da humanidade, ela existe, é claro, mas não há alguma infantilidade na crença de que o universo nos deve um consolo, como de direito? A afirmação de Isaac Asimov sobre a infantilidade da pseudociência é igualmente aplicável à religião: “Vasculhe cada exemplar da pseudociência e você encontrará um cobertorzinho de estimação, um dedo para chupar, uma saia para segurar”. É impressionante, além do mais, a quantidade de gente que não consegue entender que “X é um consolo” não significa “X é verdade”. Uma crítica análoga a essa trata da necessidade de um “propósito” na vida. Citando um crítico canadense:

    Os ateus podem estar certos sobre Deus. Vai saber. Mas, com Deus ou sem Deus, fica claro que há algo na alma humana que demanda a crença de que a vida tem um objetivo que transcende o plano material. Era de imaginar que um empiricista do tipo mais-racional-que-vós como Dawkins reconhecesse esse aspecto imutável da natureza humana […] Será que Dawkins acha mesmo que este mundo seria um lugar mais humano se todos nós procurássemos a verdade e o consolo em Deus, um delírio e não na Bíblia?

    Na verdade sim, já que você mencionou “humano”, sim, acho, mas devo repetir, mais uma vez, que o potencial de consolo de uma crença não eleva seu valor de verdade. É claro que não posso negar a necessidade de consolo emocional, e não tenho como defender que a visão de mundo adotada neste livro ofereça um consolo mais que apenas moderado para, por exemplo, quem perdeu um ente querido. Mas, se o consolo que a religião parece oferecer se fundamenta na premissa neurologicamente implausibilíssima de que sobrevivemos à morte de nosso cérebro, você está mesmo disposto a defendê-lo? De qualquer maneira, acho que nunca encontrei ninguém que não concorde que, nas cerimônias fúnebres, as partes não religiosas (homenagens, poemas ou músicas favoritas do falecido) são mais tocantes que as orações.
    Depois de ler Deus, um delírio, o dr. David Ashton, um médico britânico, escreveu-me contando da morte inesperada, no Natal de 2006, de seu adorado filho Luke, de dezessete anos. Pouco antes, os dois haviam conversado elogiando a entidade sem fins lucrativos que estou montando para incentivar a razão e a ciência. No enterro de Luke, na ilha de Man, seu pai sugeriu à congregação que, se alguém quisesse fazer algum tipo de contribuição em memória do filho, deveria enviá-la a minha fundação, como Luke gostaria. Os trinta cheques recebidos somaram mais de 2 mil libras, incluindo mais de seiscentas libras arrecadadas num evento no público local. O garoto era obviamente muito querido. Quando li o livreto da cerimônia fúnebre, chorei, literalmente, embora não conhecesse Luke, e pedi permissão para reproduzi-lo no RichardDawkins.net. Um gaitista solitário tocou o lamento local “Ellen Vallin”. Dois amigos fizeram discursos de homenagem, e o dr. Ashton recitou o belo poema “Fern Hill” [“Monte das samambaias”] (“Era eu jovem e tranqüilo, debaixo das macieiras”* — que evoca tão dolorosamente a juventude perdida). E então, e tenho de respirar fundo para contar, ele leu as primeiras linhas de meu Desvendando o arco-íris, linhas que havia tempos eu tinha separado para o meu próprio enterro.

    “Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto de pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos…”

    Nós, uns poucos privilegiados que ganharam na loteria do nascimento, contrariando todas as probabilidades, como nos atrevemos a choramingar por causa do retorno inevitável àquele estado anterior, do qual a enorme maioria jamais nem saiu? É óbvio que há exceções, mas suspeito que para muitas pessoas o principal motivo de se agarrarem à religião não seja o fato de ela oferecer consolo, e sim o de elas terem sido iludidas por nosso sistema educacional e não se darem conta de que podem não acreditar. Decerto é assim para a maioria das pessoas que acham que são criacionistas. Simplesmente não ensinaram direito a elas a impressionante alternativa de Darwin. É provável que o mesmo aconteça com o mito depreciativo de que as pessoas “precisam” da religião. Numa conferência recente, em 2006, um antropólogo (e exemplar perfeito do tipo eu-sou-ateu-mas) citou a resposta de Golda Meir quando questionada se acreditava em Deus: “Acredito no povo judaico, e o povo judaico acredita em Deus”. Nosso antropólogo usou sua própria versão: “Acredito nas pessoas, e as pessoas acreditam em Deus”. Prefiro dizer que acredito nas pessoas, e as pessoas, quando incentivadas a pensar por si sós sobre toda a informação disponível hoje em dia, com muita freqüência acabam não acreditando em Deus, e vivem uma vida realizada — uma vida livre de verdade.

    • Olha, sua resposta é muito boa, só acho que não precisava de todo aquele tom depreciador do início. Na minha opinião, esse tipo de atitude inicial pode comprometer afetivamente o as pessoas vão ler depois, quando você argumenta tão bem sobre essa questão.

      Não sei por que, em meio de outros comentários, você citou o meu, devido ao histórico de discussões desse blog, to começando a criar uma teoria de conspiração sobre isso (hehehehe, brincadeira). Não fui bonzinho. Nunca li Dawkins, não tenho aprofundamento na teria darwiniana, nem costumo discutir religião. Assim, prefiro não comentar.

      Como vejo, você tem posicionamentos muito interessantes, e poderia muito bem contribuir divulgando o que pensa.

      Sobre a teoria da evolução, da qual você disse ser “que é inconteste e é um fato totalmente comprovado”. Bom, não gosto muito de afirmações tão contundentes, mas não vou me contrapor diretamente. Somente gostaria de salientar que o fato da teoria de Darwin ser completa e amplamente aceita, ela ainda possui teorias rivais, que a questionam não em detalhes, mas em seu caráter profundo.

      A exemplo, temos o Uexkull, que criou o termo alemão “Unwelt”, para demonstrar que o ser vivo não é totalmente passivo ao meio externo, que de acordo com ele é o responsável direto pela seleção. Ele mostra como o comportamento dos animais, desde os mais “simples” aos mais “complexos”, cria o meio ambiente com o qual se interage, seleciona os estímulos que lhe fazem efeito. É uma discussão interessante (que não tem relação nenhuma com essa discussão sobre religião).

      Sobre religião, aprendi em filosofia quer reduzir a explicação de fenômenos de uma instância por uma causalidade de outra instância leva a incompreensão do fenômeno mesmo. Por exemplo, é claro que é no cérebro que se situam as formações psíquicas, mas não é pelo funcionamento neuronal que se pode compreender o funcionamento psíquico.

      Assim, eu considero, com base nesse argumento, que é crítico de como a maior parte da ciência atual interpreta os fenômenos, que subjulgar a religião à uma explicação biológica ou psíquica é retirá-la de sua dimensão própria, a da cultura e dos fenômenos sociais… Pode-se até falar em uma estrutura individual enquanto abertura a uma dimensão religiosa, mas isso não possibilita a compreensão da religião.

      Mas isso também é uma questão de epistemologia, e abre a questões maiores.

      Abraço a todos.

  4. Sou um leitor crítico e assíduo do site. Também sou um cara sério, tenso e organziado. E não me sinto a vontade com brincadeiras nem com discussões infudadas. Discussões devem ser embasadas seriamente, e não infundadas.

    “Bom, não gosto muito de afirmações tão contundentes, mas não vou me contrapor diretamente.” – Isso é problema seu. Gostando ou não, ela vai continuar sendo um fato científico.

    “Somente gostaria de salientar que o fato da teoria de Darwin ser completa e amplamente aceita, ela ainda possui teorias rivais, que a questionam não em detalhes, mas em seu caráter profundo.” – Se ela é completa e amplamente aceita, não há porque existir teorias rivais (e realmente não há). E quanto ‘detalhes” e “profundo”, deixo S. J. Gould (1989, Wonderful Life) falar: “A beleza da natureza está nos detalhes; a mensagem, nas generalidades.” Só para mostrar sua falta de lógica – ao menos daquela que estou, ou estava – acostumado a lidar.

    “A exemplo, temos o Uexkull, que criou o termo alemão “Unwelt”, para demonstrar que o ser vivo não é totalmente passivo ao meio externo, que de acordo com ele é o responsável direto pela seleção.” – Uexkull foi um vitalista dos anos de 1880 que inventava (com os outros de sua laia) que “um organismo é um organismo é um organismo”, e que antes de o ser, é um essência de organismo (inclusive, podiam falar que era cosia de deus, de um arquétipo original – ou coisas até mais obscuras). Em suma, só inventou loucuras e, por isso, foi condenado ao papel de ridículo em se tratando de abordagens históricas a respeito da evolução. Se é para citar um real e forte oposição a Darwin, devia citar a complexa e fascinante visão de D’Arcy W. Thompsom (e me refiro ao seu On Growth and Form, de 1913). De qualquer forma, a visão de Thompsom foi a última grande e séria contestação do Darwinismo como conhecemos hoje, e permanece como uma visão artística, matemática, dos planos corpóreos de protistas (seres unicelulares e com núcleos) e animais. Se queres inventar oposições, que use AM elhor dela – ainda que isso só traga o ridículo a uma discussão científica séria nos dias de hoje! De qualquer forma, as duas teorias (de Thompson e Uexkull) foram descartadas (pela sua falta de lógica e pela não-correspondência com os fatos observados) quase tão logo quando foram postuladas – mas Uexkull foi o mais rápida e totalmente em relação a questão.

    É uma discussão interessante (que não tem relação nenhuma com essa discussão sobre religião). – Seria uma discussão interessante se tivesse a lido no contexto de 1880, o final da era das loucuras biológicas – afinal, até antes de Darwin era precisso inventar para dar um corpo único a toda diversidade biológica; e inventaram tudo quanto é coisa. (Seria interessante, ainda que ridículo e ignorante, se invocasse também a teoria de Fitzgerald (em 1894), sobre variações no éter serem responsáveis pela gravidade. Se é pra ficar postulando rivais que não existem mais, vamos invocar isso também!)

    Preciso desabafar: Por que vocês só inventam essas asneiras em relação a biologia evolutiva? Estranho como não ficam ai tendo malaria mental a respeito de teorias físicas, químicas, mesmo quando a rivalidade entre elas realmente exista. Por exemplo, porque não tentam descartar a teoria da relatividade com base na velocidade variável da luz? Seria porque é mais fácil encher linguiça com evolução do que com cálculos em física?

  5. “Sobre religião, aprendi em filosofia quer reduzir a explicação de fenômenos de uma instância por uma causalidade de outra instância leva a incompreensão do fenômeno mesmo.”

    Então cê tá dizendo que o fenômeno “garfo” deve ser compreendido segundo a “garfologia” (a instância que estuda o fenômeno dos garfos em si), e que dizer que o garfo serve para comer alimentos, sendo apenas uma ferramenta para tal serviço, leva à imcompreensão do fenômeno garfo ? ? ? ? ! ! !

    Parece-me infeliz e de muito mal gosto tal colocação…

  6. Óbvio que garfos possuem formas diferentes, variáveis de acordo com quem utiliza e de acordo com sua função específica (ou com o povo que o utiliza, variando muito em estética). Por exemplo, será pequeno e fraco no caso de comer sobremesas; será, porém, resistente e “grande” no caso do prato principal. Pode possuir 2, 3 talvez 4 pontas. Porém, curiosamente as instâncias que explicarão tais peculiaridades fenomenológicas são derivadas de instâncias que não a “garfologia”…

    Enfim, o fato é que o fenômenos garfo é basicamente explicado por sua causa e função: comer não usando as mãos diretamente (pra não se sujar; pra não sujar a comida; etc.). Que ele possui peculiaridades referentes ao seu uso, não há o que se negar. Mas dizer que uma outra instância que explica a causa, se considerada, leva à imcompreensão, é uma blasfêmia.

    Poder-se-ia dizer muito bem que a religião é uma neurose decorrente de carências psicológicas. O que não quer dizer que isso explica o por que de a cor da igreja ter que ser azul ou o manto do sacerdote ser laranja. Para isto poderia-se apelar à antropologia, provavelmente notando que é comum ao povo da região W usar roupas laranjas – possivelmetne em decorrência da facilidade da obtenção da tintura, seja por fonte de um vegetal específico, seja por conta de sangue de animal local). E tem a velha citação: se triângulos tivessem um deus, ele teria três lados. As projeções pessoais explicam o fenômeno, se não em toda, em praticamente toda a sua totalidade.

    Saber a causa e as motivações iniciais do fenômeno religioso não explicam todos os detalhes, mas certamente explicam muitos detalhes – e jamais levariam à imcompreensão do mesmo.

  7. Além do mais, eu acho que esse negócio de se falar em instâncias é pura miopia intelectual. Acho que o conhecimento é um só, e a gente só separa em áreas para facilitar compreensão.
    Certamente existe grande diferença entre filosofia e ciência (entre formas de obtenção de conhecimentos); mas de modo geral, o conhecimento é um só.

  8. Sou sério e cisudo, mas tenho certa dose de gaudio. Seu comentario, jandira, se é que posso te chamar assim, merece respostas.

    A ciência deve ser comparada a uma empresa industrial que se ocupa da fabricação de valores novos; uma “visão de vida” folosófica, em contrapartida, é apenas um balanço muito rudimentar que podemos estabelecer, de tempos em tempos, com base em nossos conhecimentos atuais, sobretudo para determinar os pontos onde nossos próximos esforços deverão nos levar. Mas o estabelecimento contínuo de balanços perturbaria a produção, absorvendo energias que poderiam ser mais bem empregadas.
    Os sistemas filosóficos são como as religiões; são obras de arte, ficções. Contêm, indiscutivelmente, um grande número de ideias de valor e não cabe depreciá-las. Mas pertencem a uma categoria distinta da ciência; entendemos por ciência a soma total dessas leis que devemos, depois de expungidas, tanto quanto possível, das produções imaginárias do princípio de prazer (psicanálise), considerar provisoriamente como estabelecidas na realidade. Existe somente uma ciência, mas há tantos sistemas filosóficos e tantas religiões quantas as tendências intelectuais, afetivas e emocionais que a humanidade apresenta.

  9. Extraído de “Deus, um delíro” – Dawkins ponderando sobre a origem da religião.

    O IMPERATIVO DARWINISTA Todo mundo tem uma teoria preferida para a origem da religião e para explicar por que todas as culturas humanas a possuem. Ela oferece consolo e reconforto. Ela estimula o sentimento de união. Ela satisfaz nosso desejo de entender por que existimos. Chegarei a esse tipo de explicação em um minuto, mas quero começar com uma pergunta anterior, que tem precedência pelos motivos que veremos: o questionamento do darwiniano sobre a seleção natural. Sabendo que somos produtos da evolução darwiniana, devemos perguntar que pressão ou pressões exercidas pela seleção natural favoreceram o impulso à religião. A pergunta ganha urgência com as considerações darwinianas sobre a economia. A religião é tão dispendiosa, tão extravagante; e a seleção darwinia-na normalmente visa e elimina o desperdício. A natureza é um contador avarento, apegada aos trocados, de olho no relógio, que pune a mínima extravagância. Incansável e incessantemente, como Darwin explicou, “a seleção natural está examinando a cada dia e a cada hora, no mundo todo, cada variação, mesmo a menor delas; rejeitando as ruins, preservando e
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    acumulando tudo que é bom; trabalhando silenciosa e insensível, sempre que tem oportunidade, no aperfeiçoamento de cada ser orgânico”. Se um animal selvagem realiza habitualmente uma atividade inútil, a seleção natural favorecerá os indivíduos rivais que dedicam tempo e energia à sobrevivência e à reprodução. A natureza não pode se dar ao luxo da frivolidade de jeux d’esprit. O utilitarismo impiedoso vigora, mesmo quando parece que não. À primeira vista, a cauda do pavão é um jeu d’esprit par ex-cellence. Ela certamente não ajuda em nada na sobrevivência de seu dono. Mas beneficia, sim, os genes que o distinguem de outros rivais menos espetaculares. A cauda é uma propaganda, que garante seu lugar na economia da natureza atraindo as fêmeas. A mesma coisa vale para o trabalho e o tempo que um pássaro ca-ramancheiro* macho dedica a seu caramanchão: uma espécie de cauda exterior, feita de grama, gravetos, frutos coloridos, flores e, quando disponíveis, contas, quinquilharias e tampas de garrafa. Ou, para escolher um exemplo que não envolva a autopropaganda, existe a “formicação”: o antigo hábito de pássaros, como as gralhas, de “tomar banho” num formigueiro ou de esfregar formigas nas penas. Ninguém tem certeza de qual é o benefício da formicação — talvez algum tipo de higiene, tirando os parasitas das penas; há várias outras hipóteses, mas nenhuma delas é sustentada por evidências. A incerteza a respeito dos detalhes, porém, não impede os darwinistas de presumir, com grande convicção, que a formicação deve “servir” para alguma coisa. Nesse caso o senso comum pode concordar, mas a lógica dos darwinistas tem uma razão especial para achar que, se os pássaros não fizessem isso, suas perspectivas estatísticas de sucesso genético seriam prejudicadas, mesmo sem saber ainda qual o caminho exato desse prejuízo. A conclusão provém das premissas gémeas de que a se-leção natural pune o desperdício de tempo e de energia, e de que os pássaros são observados consistentemente dedicando tempo e energia à formicação. Se existe um manifesto desse princípio “adaptacionista” resumido em uma frase, ele foi feito — certamente em termos exagerados e um tanto extremados — pelo destacado geneticista de Harvard Richard Lewontin: * “Bower bird”. (N. T.) 216
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    “Esse é o ponto com o qual acho que todos os evolucionistas concordam, que é virtualmente impossível fazer um trabalho melhor que o que um organismo faz em seu próprio ambiente”.75 Se a formicação não fosse útil para a sobrevivência e a reprodução, a seleção natural teria há muito tempo favorecido os indivíduos que não a praticam. Um darwinista pode ficar tentado a dizer a mesma coisa sobre a religião; daí a necessidade desta discussão. Para um evolucionista, os rituais religiosos “destacam-se como pavões numa clareira ensolarada” (palavras de Dan Dennett). O comportamento religioso é uma excrescência que é o equivalente humano da formicação ou da construção de caramanchões. Demanda tempo, demanda energia e freqüentemente tem ornamentos tão extravagantes quanto a plumagem da ave-do-paraíso. A religião pode colocar em risco a vida do indivíduo devoto, assim como a de outras pessoas. Milhares de pessoas já foram torturadas por sua lealdade a uma religião, perseguidas por fanáticos por causa de uma fé alternativa que em muitos casos é quase indistinguível. A religião devora recursos, às vezes em escala maciça. Uma catedral medieval era capaz de consumir cem centúrias de homens em sua construção, e jamais foi usada como habitação, ou para qualquer propósito declaradamente útil. Não era uma espécie de cauda de pavão arquitetônica? Se sim, quem era o alvo da propaganda? A música sacra e os quadros religiosos monopolizaram em grande parte o talento medieval e renascentista. Gente devota morreu por seus deuses e matou por eles; chicoteou as costas até sangrar, jurou o celibato de vida inteira ou o silêncio solitário, tudo a serviço da religião. Para que tudo isso? Qual é o benefício da religião? Por “benefício”, o darwinista normalmente quer dizer alguma vantagem para a sobrevivência dos genes do indivíduo. O que está faltando nisso tudo é a importante informação de que o benefício darwiniano não se restringe aos genes de um organismo específico. Há três alvos possíveis e excludentes de benefício. Um vem da teoria da seleção de grupo, e chegarei a ela. O segundo vem da teoria que defendi em The extended phenotype: o indivíduo que você observa pode estar agindo sob a influência manipula-dora de outro indivíduo, talvez um parasita. Dan Dennett nos lembra que o resfriado comum existe em
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    todos os povos humanos quase da mesma maneira que a religião, mas ninguém ia querer sugerir que o resfriado possa nos ser benéfico. Conhecem-se muitos exemplos de animais que são manipulados para se comportar de uma forma que beneficie a transmissão de um parasita para seu próximo hospedeiro. Resumi essa questão em meu “teorema central do fenótipo estendido”: “O comportamento de um animal tende a maximizar a sobrevivência dos genes ‘para’ aquele comportamento, estejam ou não esses genes no corpo do animal específico que o executa”. Em terceiro lugar, o “teorema central” pode substituir “genes” pelo termo mais genérico “replicadores”. O fato de a religião ser onipresente provavelmente significa que ela funcionou em benefício de alguma coisa, que pode não ser nós mesmos ou nossos genes. Pode ter sido em benefício apenas das próprias idéias religiosas, já que elas agem de uma maneira meio que parecida com os genes, como replicadoras. Lidarei com isso adiante, sob o título “Pisa devagar, pois pisas nos meus memes”. Enquanto isso, prosseguirei com interpretações mais tradicionais do darwinismo, nas quais se assume que o “benefício” é à sobrevivência individual e à reprodução. Povos caçadores-coletores como as tribos aborígines australianas vivem mais ou menos como nossos ancestrais. Kim Sterelny, filósofo da ciência neozelandês-australiano, destaca um contraste dramático na vida deles. Por um lado, os aborígines são excelentes sobreviventes sob condições que levem suas habilidades práticas ao limite. Mas, continua Sterelny, embora nossa espécie seja inteligente, temos uma inteligência perversa. Os mesmos povos que são tão sábios em relação ao mundo natural e a como sobreviver nele ao mesmo tempo enchem a cabeça de crenças que são evidentemente falsas e para as quais a palavra “inúteis” é generosa demais. Sterelny conhece bem os povos aborígines de Papua Nova Guiné. Eles sobrevivem sob condições árduas, em que é difícil obter comida, à base de um “entendimento de precisão lendária a respeito de seu ambiente biológico. Mas eles combinam esse entendimento com obsessões destrutivas sobre o período menstrual feminino e sobre bruxarias. Muitas das culturas locais são atormentadas pelo medo da bruxaria e da magia, e pela violên-cia que acompanha esses medos”. Sterelny desafia-nos a explicar “como
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    podemos ser ao mesmo tempo tão espertos e tão burros”.76 Embora os detalhes variem pelo mundo, nenhuma cultura conhecida deixa de ter alguma versão dos rituais dispendiosos e trabalhosos, das fantasias antifactuais e contraproducentes da religião. Alguns indivíduos cultos podem ter abandonado a religião, mas todos foram criados dentro de uma cultura religiosa e tiveram de tomar a decisão consciente de romper com ela. A velha piada da Irlanda do Norte — “Tudo bem, mas você é ateu protestante ou ateu católico?” — é temperada por uma verdade amarga. O comportamento religioso pode ser chamado de comportamento universal, do mesmo modo como o comportamento heterossexual. As duas generalizações permitem exceções indivi-duais, mas todas essas exceções compreendem, até bem demais, a norma com a qual tiveram de romper. Características universais de uma espécie exigem uma explicação darwinista. Obviamente não há nenhuma dificuldade para explicar a vantagem darwinista do comportamento sexual. Trata-se de fazer bebês, mesmo naquelas ocasiões em que a contracepção ou a homossexualidade parecem negá-la. Mas e o comportamento religioso? Por que os seres humanos jejuam, ajoelham-se, fazem genuflexões, autoflagelam-se, inclinam-se maniacamente para um muro, participam de cruzadas ou tomam parte em práticas dispendiosas que podem consumir a vida e, em casos extremos, eliminá-la? VANTAGENS DIRETAS DA RELIGIÃO Há algumas poucas evidências de que a crença religiosa protege as pessoas de doenças relacionadas ao estresse. As evidências não são fortes, mas não seria de surpreender se elas fossem verdadeiras, pelo mesmo motivo que as curas movidas pela fé podem funcionar em alguns casos. Quem dera não fosse necessário acrescentar que tais efeitos benéficos de maneira nenhuma reforçam o valor de verdade das alegações da religião. Nas palavras de George Bernard Shaw, “o fato de um crente ser mais feliz que um cético não quer dizer muito mais que o fato de um homem bêbado ser mais feliz que um sóbrio”. Parte do que um médico pode dar ao paciente é consolo e conforto. Isso não deve ser considerado uma aberração. Meu médico não pratica a cura
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    pela fé postando as mãos sobre mim. Mas muitas vezes me vi instantaneamente “curado” de algum mal menor por uma voz reconfortante, vinda de um rosto inteligente em cima de um estetoscópio. O efeito placebo está bem documentado e nem é tão misterioso assim. Pílulas sem efeito, sem nenhuma ação farmacológica, comprovadamente beneficiam a saúde. É por isso que os ensaios clínicos duplos-cegos de remédios precisam usar placebos como controle. É por isso que os remédios homeopáticos parecem funcionar, mesmo que sejam tão diluídos a ponto de ter a mesma quantidade de ingrediente ativo que o placebo controle — zero molécula. Aliás, um subproduto infeliz da invasão do território dos médicos por advogados é que os médicos hoje têm medo de prescrever placebos na prática normal. Ou a burocracia pode obrigá-los a identificar o placebo em anotações por escrito às quais o paciente tem acesso, o que evidentemente frustra o objetivo. Os homeopatas podem estar conseguindo um sucesso relativo porque, ao contrário dos médicos ortodoxos, ainda têm permissão para administrar placebos — sob outro nome. Eles também têm mais tempo para se dedicar a conversar e simplesmente ser carinhosos com o paciente. No início de sua longa história, além disso, a reputação da homeopatia foi reforçada inadvertidamente pelo fato de que seus remédios não faziam nada — ao contrário das práticas médicas ortodoxas, como as sangrias, que faziam era mal. Será a religião um placebo que prolonga a vida reduzindo o estresse? Ê provável, embora a teoria tenha de enfrentar um batalhão de céticos, que chamam a atenção para as muitas circunstâncias em que a religião mais causa que alivia o estresse. É difícil acreditar, por exemplo, que a saúde saia ganhando com o estado semipermanente de culpa mórbida de que sofre um católico dotado da dose normal de fragilidade humana e de uma dose de inteligência abaixo da normal. Talvez seja injusto falar só dos católicos. A comediante americana Cathy Ladman observa que “todas as religiões são a mesma coisa: a religião é basicamente culpa, com feriados diferentes”. Em todo caso, acho que a teoria do placebo não é suficiente para justificar o fenómeno de penetração tão global que é a religião. Não acredito que o motivo de termos religião seja o fato de ela ter reduzido os níveis de estresse de nossos ancestrais. Não é uma
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    teoria boa o suficiente para dar conta do serviço, embora possa ter tido um papel subsidiário. A religião é um fenômeno de grandes dimensões e precisa de uma teoria de grandes dimensões para explicá-la. Outras teorias nem tocam na questão das explicações darwinianas. Estou falando de sugestões como “a religião satisfaz nossa curiosidade sobre o universo e sobre nosso lugar nele”, ou “a religião oferece consolo”. Pode haver alguma verdade psicológica nisso, como veremos no capítulo 10, mas nenhuma delas é uma explicação darwiniana. Steven Pinker falou bem sobre a teoria do consolo, em Como a mente funciona: “Ela só provoca a pergunta sobre por que uma mente evoluiria para encontrar conforto em crenças que ela sabe claramente ser falsas. Uma pessoa que está com frio não encontra nenhum consolo em acreditar que está no quente; uma pessoa que está cara a cara com o leão não se tranquiliza com a convicção de que se trata de um coelho”. No mínimo, a teoria do consolo precisa ser traduzida para termos darwi-nianos, e isso é mais difícil do que você pode imaginar. Explicações psicológicas para o fenômeno de que as pessoas acham algumas crenças gratificantes ou não gratificantes são explicações aproximadas, e não finais. Os darwinistas usam muito essa distinção entre aproximado e final. A explicação aproximada para a explosão no cilindro de um motor de combustão interna remete à vela de ignição. A explicação final diz respeito ao propósito para o qual a explosão foi projetada: para impelir um pistão do cilindro, girando assim o virabrequim. A causa aproximada da religião pode ser a hipera-tividade de determinada área do cérebro. Não explorarei a idéia neurológica de que haja um “centro divino” no cérebro porque não estou preocupado aqui com questões aproximadas. Isso não significa depreciá-las. Recomendo o livro How we believe: The search for God in an age of science para uma discussão sucinta, que inclui a sugestão, feita por Michael Persinger, entre outros, de que experiências religiosas visuais estão ligadas à epilepsia do lobo temporal. Mas minha preocupação neste capítulo é com as explicações darwinianas finais. Se os neurocientistas encontrarem um “centro divino” no cérebro, cientistas darwinianos como eu ainda vão querer entender a pressão
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    da seleção natural que favoreceu sua evolução. Por que nossos ancestrais que tinham uma tendência genética para desenvolver um centro divino sobreviveram e tiveram mais netos que seus rivais que não tinham essa tendência? A pergunta darwiniana final não é uma pergunta melhor, nem uma pergunta mais profunda, nem uma pergunta mais científica que a questão neurológica aproximada. Mas é dela que estou falando aqui. Os darwinianos também não se satisfazem com explicações políticas, como “a religião é um instrumento utilizado pela classe dominante para subjugar as classes inferiores”. É verdade que os escravos negros da América eram consolados com promessas sobre outra vida, o que aliviava sua insatisfação com a atual e portanto beneficiava seus proprietários. A questão sobre se as religiões são deliberadamente projetadas por sacerdotes ou domi-nantes cínicos é interessante, e os historiadores devem abordá-la. Mas ela não é, em si, uma questão darwiniana. O darwinista ainda quer saber por que as pessoas são vulneráveis aos encantos da religião e portanto abertas à exploração por parte de padres, políticos e reis. Um manipulador cínico pode usar o desejo sexual como instrumento de poder político, mas ainda precisamos da explicação darwiniana de como isso funciona. No caso do desejo sexual, a resposta é simples: nosso cérebro está programado para gostar de sexo porque o sexo, no estado natural, produz bebês. Ou um manipulador político pode usar a tortura para obter seus fins. Mais uma vez, o darwinista precisa fornecer a explicação para o motivo de a tortura ser eficiente; por que nós faremos quase qualquer coisa para evitar a dor intensa. Novamente parece óbvio, a ponto de chegar à banalidade, mas o darwiniano ainda precisa dizer com todas as letras: a seleção natural estabeleceu a percepção da dor como senha para danos corporais que representem risco à vida, e nos programou para evitá-la. Os raros indivíduos que não conseguem sentir dor, ou que não ligam para ela, normalmente morrem jovens, devido a lesões que o restante de nós teria tomado medidas para evitar. Seja ele cinicamente explorado ou se manifeste espontaneamente, qual é a explicação final para o anseio por deuses?
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    SELEÇÃO DE GRUPO Algumas supostas explicações finais se revelam — ou são confessadamente — teorias de “seleção de grupo”. A seleção de grupo é a controvertida idéia de que a seleção darwiniana escolhe entre espécies ou outros grupos de indivíduos. O arqueólogo Colin Renfrew, de Cambridge, sugere que o cristianismo sobreviveu devido a uma forma de seleção de grupo, porque alimentava a idéia de lealdade e de amor dentro do grupo, e isso ajudou os grupos religiosos a sobreviver em detrimento de grupos menos religiosos. O apóstolo americano da seleção de grupo D. S. Wilson desenvolveu, de forma independente, uma sugestão se-melhante, mais meticulosa, em Darwin’s cathedral. Veja um exemplo inventado, para mostrar como seria a teoria da seleção de grupo para a religião. Uma tribo com um “deus das batalhas” muito beligerante ganha guerras contra tribos rivais cujos deuses pregam a paz e a harmonia, ou tribos sem deus nenhum. Combatentes que acreditam piamente que a morte como mártir os mandará direto para o paraíso lutam com bravura, e abrem mão de sua vida de bom grado. Por isso as tribos desse tipo de religião têm mais probabilidade de sobreviver a guerras in-tertribais, roubar o gado da tribo conquistada e tomar suas mulheres como concubinas. Tribos bem-sucedidas como essas dão origem a tribos-filhas, que por sua vez propagam mais tribos-filhas, todas adorando o mesmo deus tribal. A idéia de que um grupo dê origem a grupos-filhos, como uma colmeia que gera enxames, não é implausível, aliás. O antropólogo Napoleon Chagnon mapeou exatamente esse tipo de fissão de vilarejos em seu celebrado estudo sobre o “Povo Feroz”, os ianomâmis da floresta sul-americana.77 Chagnon não é um defensor da seleção de grupo, nem eu. Existem objeções formidáveis a ela. Partidário na controvérsia, preciso tomar cuidado para não me empolgar demais e acabar me desviando do rumo deste livro. Alguns biólogos traem uma confusão entre a verdadeira seleção de grupo, como no meu exemplo hipotético do deus das batalhas, e uma outra coisa que eles chamam de seleção de grupo mas que, numa inspeção mais cuidadosa, se revela ou seleção de parentes ou altruísmo recíproco (veja o capítulo 6). Aqueles que como nós desqualificam a seleção de grupo admitem que em
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    princípio ela pode acontecer. A questão é se ela chega a representar uma força significativa na evolução. Contraposta à seleção em níveis inferiores — como quando a seleção de grupo é apresentada como explicação para o auto-sacrifício do indivíduo —, a seleção de nível inferior tende a ser mais forte. Em nossa tribo hipotética, imagine um único guerreiro egoísta em meio a um exército dominado por aspirantes a mártir ansiosos por morrer pela tribo e conquistar uma recompensa nos céus. Ele terá uma probabilidade apenas um pouco menor de estar do lado vencedor, em conseqüência da hesitação na batalha para salvar sua própria pele. O martírio de seus companheiros o beneficiará mais que beneficia qualquer um deles na média, porque eles estarão mortos. Ele tem mais chance de se reproduzir que eles, e seus genes, por se recusar a ser martirizados, têm mais chance de ser reproduzidos na geração seguinte. Portanto a tendência para o martírio diminuirá nas gerações futuras. Esse é um exemplo simplista, mas ilustra um problema perene da seleção de grupo. As teorias de seleção de grupo sobre o auto-sacrifício individual são sempre vulneráveis a subversões internas. Mortes individuais e reproduções acontecem numa escala de tempo mais rápida e com maior frequência que extinções e fissões de grupos. É possível projetar modelos matemáticos que mostrem condições especiais sob as quais a seleção de grupo possa ter poder evolutivo. Essas condições especiais costumam ter um caráter pouco realista, mas pode-se argumentar que as religiões, em agrupamentos tribais humanos, alimentam condições especiais que são justamente pouco realistas. Trata-se de uma linha teórica interessante, mas não a explorarei aqui, exceto por admitir que o próprio Darwin, embora fosse normalmente um feroz defensor da seleção no nível do organismo individual, chegou bem perto do selecionismo de grupo em sua discussão sobre tribos humanas:
    Se duas tribos de homens primitivos, vivendo no mesmo local, entrassem em competição, se uma tribo incluísse (com as outras circunstâncias sendo equivalentes) um número maior de membros corajosos, fiéis e solidários, sempre dispostos a alertar uns aos outros do perigo, a ajudar e defender uns aos outros, essa tribo sem dúvida seria mais bem-sucedida e conquistaria a outra […] Pessoas egoístas e contenciosas não se unem, e sem coerência não se realiza nada. Uma tribo que possuísse as qualidades acima em grau elevado se
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    disseminaria e seria vitoriosa em relação a outras tribos; mas, ao longo do tempo, ela seria, a julgar por toda a história, por sua vez superada por alguma outra tribo, ainda mais qualificada.78 Para satisfazer qualquer biólogo especializado que possa estar lendo isto, devo acrescentar que a idéia de Darwin não era estritamente a seleção de grupo, no sentido de grupos bem-sucedidos reproduzindo-se em grupos-filhos cuja frequência pudesse ser contabilizada numa metapopulação de grupos. Darwin visualizou tribos com membros altruisticamente colaborativos es-palhando-se e tornando-se mais numerosos, em termos de número de indivíduos. O modelo de Darwin parece-se mais com a disseminação do esquilo cinzento na Grã-Bretanha, em detrimento do vermelho: substituição ecológica, e não verdadeira seleção de grupo.

  10. RELIGIÃO COMO SUBPRODUTO DE OUTRA COISA De qualquer maneira, quero deixar de lado agora a seleção de grupo e me voltar para minha própria visão do valor da religião como sobrevivência darwiniana. Faço parte do número cada vez maior de biólogos que enxergam a religião como subproduto de outra coisa. Mais genericamente, acredito que nós, que especulamos sobre o valor darwiniano de sobrevivência, precisamos “pensar em termos de subproduto”. Quando perguntamos o valor de sobrevivência de alguma coisa, podemos estar fazendo a pergunta errada. Talvez a característica em que estamos interessados (a religião, nesse caso) não tenha um valor direto de sobrevivência por si só, mas seja um subproduto de outra coisa que tenha. Gosto de apresentar a idéia do subproduto com uma analogia de minha área, a do comportamento animal. As mariposas voam para dentro da chama da vela, e a coisa não parece acidental. Elas fazem de tudo para se entregar ao fogo como numa oferenda. Poderíamos rotular o comportamento como “auto-imolação” e, sob esse nome provocativo, questionar como pode ser possível que a seleção natural possa tê-lo favorecido. Minha tese é que precisamos reelaborar a pergunta antes que possamos tentar obter uma resposta inteligente. Não se trata de suicídio. A aparência de suicídio é um efeito colateral inadvertido de outra coisa.
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    Um subproduto de… quê? Bem, vai aqui uma possibilidade, que servirá como explicação. A luz artificial é uma inovação recente no mundo noturno. Até recentemente, as únicas luzes noturnas à vista eram a Lua e as estrelas. Elas estão no infinito óptico, portanto os raios que vêm delas são paralelos. Isso as torna adequadas ao uso como bússolas. Sabe-se que os insetos usam os objetos celestes como o Sol e a Lua para navegar com precisão em linha reta, e podem usar a mesma bússola, com o sinal invertido, para voltar para casa depois de uma excursão. O sistema nervoso do inseto é especialista em estabelecer uma regra geral temporária do tipo: “Navegue num curso tal que os raios de luz atinjam seu olho ao ângulo de trinta graus”. Como os insetos têm olhos compostos (com tubos retos ou guias de luz irradiando-se do centro do olho, como os espinhos de um porco-espinho), isso pode equivaler na prática a uma coisa tão simples quanto manter a luz em um tubo ou omatídio. Mas a bússola de luz depende fundamentalmente de o obje-to celeste estar no infinito óptico. Se não estiver, os raios não são paralelos, e sim divergem, como os raios de uma roda. Um sistema nervoso que aplicar a regra geral dos trinta graus (ou qualquer ângulo agudo) a uma vela próxima, como se ela fosse a lua no infinito óptico, vai levar a mariposa, numa trajetória em espi-ral, para dentro da chama. Desenhe você mesmo, usando qualquer ângulo agudo como o de trinta graus, e você produzirá uma elegante espiral logarítmica para dentro da chama. Embora fatal nessa circunstância específica, a regra geral da mariposa ainda é, na média, boa porque, para uma mariposa, a visão de velas é mais rara que a da lua. Não prestamos atenção nas centenas de mariposas que navegam silenciosas, com eficácia, orientadas pela lua ou por uma estrela reluzente, ou mesmo pelo brilho de uma cidade distante. Só vemos as mariposas voando para a nossa vela, e fazemos a pergunta errada: por que todas essas mariposas estão cometendo suicídio? Deveríamos, em vez disso, perguntar por que elas têm sistemas nervosos que se orientam mantendo um ângulo fixo em relação aos raios de luz, uma tática que só notamos quando dá errado. Quando a pergunta é reformulada, o mistério evapora. Jamais foi correto
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    chamar aquilo de suicídio. Trata-se de um subproduto indesejado de uma bússola normalmente útil. Aplique agora a lição do subproduto ao comportamento religioso dos seres humanos. Observamos grandes números de pessoas — em muitas áreas correspondendo a 100% — que possuem crenças que contradizem diretamente os fatos científicos demonstráveis e também religiões rivais seguidas por outras tantas pessoas. As pessoas não apenas possuem uma certeza apaixonada dessas crenças mas também dedicam tempo e recursos para atividades dispendiosas decorrentes delas. Morrem por elas, ou matam por elas. Assombramo-nos com isso, exatamente do mesmo modo como nos assombramos com o “comportamento de auto-imolação” das mariposas. Estupefatos, perguntamos por quê. Mas minha tese é que podemos estar fazendo a pergunta errada. O comportamento religioso pode ser um subproduto indesejado e infeliz de uma propensão psicológica subliminar que, em outras circunstâncias, é, ou foi um dia, útil. Por essa visão, a propensão que foi alvo da seleção natural em nossos ancestrais não foi a religião per se; teve algum outro benefício, e só de forma incidental é que se manifesta como comportamento religioso. Só entenderemos o comportamento religioso quando o tivermos rebatizado. Se, então, a religião é subproduto de uma outra coisa, o que é essa outra coisa? Qual é o equivalente ao hábito da mariposa de navegar por bússolas orientadas pela luz celeste? Qual é o traço vantajoso primitivo que algumas vezes atinge o alvo errado e gera a religião? Oferecerei uma sugestão a título de ilustração, mas devo ressaltar que se trata somente de um exemplo do tipo de coisa que quero dizer, e abordarei sugestões paralelas feitas por outras pessoas. Tenho muito mais entusiasmo pelo princípio geral de que a pergunta deve ser feita do jeito certo, e se necessário reformulada, que por qualquer resposta específica. Minha hipótese específica é sobre crianças. Mais que qualquer outra espécie, sobrevivemos pela experiência acumulada pelas gerações anteriores, e essa experiência precisa ser transferida às crianças em nome de sua proteção e seu bem-estar. Teoricamente, as crianças podem aprender pela experiência
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    pessoal a não chegar perto da beira de um precipício, a não comer fruti-nhas vermelhas desconhecidas, a não nadar em águas infestadas de crocodilos. Mas, para dizer o mínimo, haverá uma vantagem seletiva para cérebros de crianças dotados da seguinte regra geral: acredite, sem questionamentos, no que seus adultos lhe dizem. Obedeça a seus pais; obedeça aos anciãos da tribo, especialmente quando eles adotam um tom solene e ameaçador. Confie nos anciãos sem questionamentos. Essa é uma regra normalmente valiosa para uma criança. Mas, assim como com as mariposas, ela pode dar errado. Nunca esqueci um sermão apavorante, proferido na capela da minha escola quando eu era pequeno. Apavorante em retrospecto, quero dizer: naquela época, meu cérebro de criança o aceitou dentro do espírito que o orador pretendia. Ele nos contou uma história sobre um pelotão de soldados, treinando ao lado de uma linha de trem. Num momento crucial, o sargento que comandava o treinamento se distraiu e não deu a ordem para que eles parassem. Os soldados estavam tão treinados a obedecer a ordens sem questionar que continuaram marchando, bem na di-reção do trem que vinha vindo. Hoje, é claro, não acredito na história, e espero que o orador também não acreditasse. Mas acreditei quando tinha nove anos, porque a ouvi de um adulto que tinha autoridade sobre mim. E, acreditasse ou não, o orador ordenou que nós, crianças, admirássemos e nos espelhássemos na obediência escrava e sem questionamentos dos soldados a uma ordem, por mais absurda, dada por uma figura de autoridade. Tomando a mim mesmo por base, acredito que realmente admiramos a atitude. Como adulto, acho quase impossível crer que, criança, eu tenha me questionado se teria a coragem de cumprir o dever marchando para debaixo do trem. Mas o que interessa é que é assim que me lembro das minhas sensações. O sermão ob-viamente me deixou profundas impressões, pois me lembrei dele e o repeti aqui. Para ser justo, não acho que o orador tenha achado que estava transmitindo uma mensagem religiosa. Era provavelmente mais militar que religiosa, no espírito do poema “Carga da Brigada Ligeira”, de Tennyson, que ele pode perfeitamente ter citado:
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    “Avante a Brigada Ligeira!” Havia um homem com medo? Não, embora os soldados soubessem Que alguém tinha feito besteira: Não lhes competia responder, Não lhes competia perguntar por quê, Só lhes competia agir e morrer: Para dentro do vale da Morte Cavalgaram os seiscentos* (Uma das primeiras e mais inaudíveis gravações da voz humanas feitas na história foi a do próprio lorde Tennyson lendo esse poema, e a impressão da declamação oca dentro de um longo e escuro túnel das profundezas do passado é assustadoramente apropriada.) Do ponto de vista do alto-comando, seria loucura deixar ao discernimento de cada soldado se ele deve ou não obedecer a ordens. Nações cujos soldados de infantaria agem por iniciativa própria, em vez de seguir ordens, tendem a perder guerras. Do ponto de vista da nação, essa continua sendo uma boa regra geral, mesmo que às vezes leve a desastres isolados. Soldados são treinados para parecer o máximo possível com autómatos, ou computadores. Computadores fazem o que lhes mandam fazer. Obedecem como escravos a qualquer instrução que seja dada em sua linguagem de programação. É assim que eles fazem coisas úteis como processar textos e calcular planilhas. Mas, como subproduto inevitável, eles são igualmente robóticos para obedecer a instruções ruins. Não têm como saber se uma instrução terá um efeito positivo ou negativo. Simplesmente obedecem, como os soldados devem fazer. É sua obediência sem questionamentos que torna os computadores úteis, e exatamente a mesma coisa os torna ines-capavelmente vulneráveis à infecção por vírus e vermes de pro-gramação. Um programa projetado malevolamente para dizer “Copie-me e envie-me para cada endereço que encontrar neste disco rígido” será simplesmente obedecido, e depois obedecido de novo por outros computadores ao longo da * ‘”Forward the Light Brigade!’/ Was there a man dismayed?/ Not though the soldiers knew/ Some one had blundered:/ Theirs not to make reply,/ Theirs not to reason why,/ Theirs but to do and die:/ Into the valley of Death / Rode the six hundred.” (N. T.)
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    linha em que for enviado, numa expansão exponencial. É difícil, talvez impossível, projetar um computador que tenha a utilidade de ser obediente e ao mesmo tempo imune à infecção. Se fiz bem meu trabalho de amaciamento, você já terá concluído meu argumento sobre os cérebros infantis e a religião. A seleção natural constrói o cérebro das crianças com a tendência de acreditar em tudo que seus pais ou líderes tribais lhes disserem. Tais confiança e obediência são valiosas para a sobrevivência: o análogo a navegar orientando-se pela lua, no caso da mariposa. Mas o lado ruim da obediência insuspeita é a credulidade escrava. O subproduto inevitável é a vulnerabilidade à infecção por vírus mentais. Por ótimos motivos ligados à sobrevivência darwiniana, o cérebro das crianças precisa confiar nos pais, e nos sábios em quem os pais as orientam a confiar. Uma conseqüência automá-tica é que aquele que confia não tem como distinguir os bons conselhos dos maus. A criança não tem como saber que “Não nade no Limpopo infestado de crocodilos” é um bom conselho, mas que “Você deve sacrificar um cabrito na época da lua cheia, senão as chuvas não virão” é no mínimo um desperdício de tempo e de cabritos. As duas advertências soam igualmente confiáveis. As duas vêm de uma fonte respeitável e são feitas com uma honestidade solene que pede respeito e exige obediência. O mesmo acontece com proposições sobre o mundo, sobre o cosmos, sobre moralidade e sobre a natureza humana. E, muito provavel-mente, quando a criança crescer e tiver seus próprios filhos, ela vai naturalmente transmitir boa parte para os filhos — absurdos ou não-absurdos — usando a mesma gravidade contagiosa. Nesse modelo devemos esperar que, em regiões geográficas diferentes, crenças arbitrárias diferentes, nenhuma com fundamento factual, seriam transmitidas, para que se acredite nelas com a mesma convicção com que se acredita em exemplos úteis da sabedoria tradicional, como a crença de que o esterco faz bem para as plantações. Deveríamos também esperar que as superstições e outras crenças não factuais evoluíssem localmente — mudassem de geração para geração — por movimentos aleatórios ou por alguma espécie de análogo da seleção darwiniana, apresentando, no final, um padrão de divergência significativa em relação a ancestrais comuns. As línguas separam-se de uma
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    progenitora comum se houver tempo suficiente de separação geográfica (já retornarei a este ponto). O mesmo parece acontecer com crenças e injunções arbitrárias e sem fundamento transmitidas às gerações — crenças que talvez tenham ganhado impulso graças à útil programabilidade do cérebro infantil. Líderes religiosos conhecem bem a vulnerabilidade do cérebro infantil e a importância de começar cedo com o doutrina-mento. O lema jesuíta “Dê-me uma criança pelos seus primeiros sete anos de vida e eu devolverei um homem” não é menos preciso (ou sinistro) por ser batido. Mais recentemente, James Dobson, fundador do infame movimento “Foco na Família”,* é igualmente íntimo do princípio: “Aqueles que controlam o que se ensina aos jovens e o que eles vivem — o que vêem, ouvem, pensam e acreditam — determinarão o curso futuro da nação”.79 Lembre-se, porém, de que minha sugestão específica sobre a útil credulidade da mente infantil é apenas um exemplo do tipo de coisa que pode ser análogo à navegação das mariposas pela lua ou pelas estrelas. O etólogo Robert Hinde, em Why gods persist, e os antropólogos Pascal Boyer, em Religion explained, e Scott Atran, em In gods we trust, promoveram de forma independente entre si a idéia geral de que a religião é um subproduto de dispo-sições psicológicas normais — muitos subprodutos, devo dizer, pois os antropólogos estão preocupados especialmente em ressaltar a diversidade das religiões do mundo, além do que elas têm em comum. As conclusões de antropólogos só nos soam estranhas porque não nos são familiares. Todas as crenças religiosas soam estranhas para as pessoas que não foram criadas dentro delas. Boyer pesquisou o povo fang, de Camarões, que acredita que as bruxas têm um órgão interno extra, parecido com um animal, que sai voando à noite e arruina as plantações das pessoas ou envenena seu sangue. Também se diz que essas bruxas às vezes se reúnem para enormes banquetes, em que devoram suas vítimas e planejam ataques futuros. Muitos vão lhe dizer que um amigo de um amigo viu mesmo bruxas voando sobre o vilarejo à noite, montadas numa folha de bananeira e lançando raios mágicos contra vítimas inocentes. * Achei divertido quando vi um adesivo de carro no Colorado dizendo “Vá se focar na sua maldita família”, mas agora ele me parece menos engraçado. Talvez algumas crianças tenham de ser protegidas do doutrinamento de seus próprios pais (veja o capítulo 9).
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    Boyer prossegue contando uma anedota pessoal: Estava mencionando essa e outras coisas exóticas num jantar numa faculdade de Cambridge quando um de nossos convidados, um teólogo proeminente de Cambridge virou-se para mim e disse: “É isso que torna a antropologia tão fascinante e também tão di-fícil. Você tem de explicar como as pessoas podem acreditar em tamanhos absurdos”. Fiquei pasmo. A conversa já tinha mudado quando encontrei uma resposta pertinente — tinha a ver com chaleiras e bules. Pressupondo que o teólogo de Cambridge fosse um cristão normal, ele provavelmente acreditava numa combinação das seguintes coisas: • No tempo dos ancestrais, um homem nasceu de uma mãe virgem, sem nenhum pai biológico envolvido. • O mesmo homem sem pai clamou a um amigo chamado Lázaro, que estava morto havia tempo bastante para cheirar mal, e Lázaro imediatamente voltou à vida. • O próprio homem sem pai voltou à vida depois de ficar três dias morto e enterrado. • Quarenta dias depois, o homem sem pai subiu ao topo de uma montanha e depois desapareceu no céu. • Se você murmurar coisas dentro da sua cabeça, o homem sem pai, e seu “pai” (que também é ele mesmo), ouvirá seus pensamentos e pode tomar providências em relação a elas. Ele é capaz de ouvir simultaneamente os pensamentos de todas as pessoas do mundo. • Se você faz alguma coisa ruim, ou alguma coisa boa, o mesmo homem sem pai tudo vê, mesmo que ninguém mais veja. Você pode ser recompensado ou punido, inclusive depois de sua morte. • A mãe virgem do homem sem pai nunca morreu, mas “foi transportada” corporeamente para o céu. • Pão e vinho, se abençoados por um padre (que precisa ter testículos), “transformam-se” no corpo e no sangue do homem sem pai. O que um antropólogo objetivo que desse de cara com esse conjunto de
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    crenças numa excursão de pesquisa em Cambridge pensaria delas? PREPARADOS PSICOLOGICAMENTE PARA A RELIGIÃO A idéia sobre os subprodutos psicológicos floresce naturalmente no importante e crescente campo da psicologia evolutiva.80 Os psicólogos evolucionistas sugerem que, assim como o olho é um órgão que evoluiu para a visão, e a asa um órgão que evoluiu para voar, o cérebro é uma coleção de órgãos (ou “módulos”) para lidar com um conjunto de necessidades especializadas de processamento de dados. Há um módulo para lidar com as relações familiares, um módulo para lidar com trocas recíprocas, um módulo para lidar com a empatia, e assim por diante. A religião pode ser encarada como um subproduto do “erro” de vários desses módulos, por exemplo os módulos para a formação de teorias sobre outras mentes, para a formação de coalizões e para a discriminação a favor de indivíduos de dentro do grupo, em detrimento de estranhos. Qualquer um desses poderia funcionar como o equivalente humano para a navegação celeste das mariposas, vulneráveis ao “erro” do mesmo modo que sugeri para a credulidade infantil. O psicólogo Paul Bloom, outro defensor da visão da “religião como subproduto”, ressalta que as crianças têm uma tendência natural para uma teoria dualista da mente. A religião, para ele, é um subproduto desse dualismo instintivo. Nós, seres humanos, sugere ele, especialmente as crianças, somos dualistas por natureza. Um dualista reconhece a distinção fundamental entre matéria e mente. Um monista, ao contrário, acredita que a mente é a manifestação da matéria — o material do cérebro ou talvez de um computador — e não pode existir sem ela. Um dualista acredita que a mente é algum tipo de espírito fluido que habita o corpo e portanto poderia, teoricamente, deixar o corpo e existir em algum outro lugar. Os dualistas prontamente interpretam as doenças mentais como “possessão por demônios”, sendo que esses demônios são espíritos cuja residência no corpo é temporária, de modo que eles podem ser “expulsos”. Os dualistas personificam objetos físicos inanimados na primeira oportunidade, enxergando espíritos e demônios até em cachoeiras e nuvens. O romance Vice versa, de F. Anstey, de 1882, faz sentido para um dualista,
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    mas deve ser estritamente incompreensível para um monista retinto como eu. O sr. Bultitude e seu filho descobrem misteriosamente que trocaram de corpo. O pai, para diversão do filho, é obrigado a ir à escola no corpo do filho; e o filho, no corpo do pai, quase arruina os negócios paternos com suas decisões imaturas. Uma trama semelhante foi usada por P. G. Wodehouse em Laughinggas [Gás hilariante], em que o conde de Havershot e uma estrela de filmes infantis são submetidos ao anestésico no mesmo momento, em cadeiras de dentista vizinhas, e acordam um no corpo do outro. Mais uma vez, a trama só faz sentido para um dualista. Tem de existir alguma coisa que corresponda ao lorde Havershot e que não faça parte do corpo dele, porque, do contrário, como ele poderia acordar no corpo de um ator mirim? Assim como a maioria dos cientistas, não sou dualista, mas sou plenamente capaz de gostar de Vice versa e Laughinggas. Paul Bloom diria que isso acontece porque, embora eu tenha aprendido a ser um monista intelectual, sou um animal humano, e portanto evoluí como um dualista por instinto. A idéia de que existe um eu escondido atrás de meus olhos e capaz, pelo menos na ficção, de migrar para a cabeça de outra pessoa está profundamente enraizada em mim e em todos os outros seres humanos, sejam quais forem nossas pretensões intelectuais ao monismo. Bloom sustenta sua afirmação com evidências experimentais de que as crianças têm uma tendência ainda maior que os adultos a ser dualistas, especialmente crianças bem pequenas. Isso sugere que a tendência ao dualismo está dentro do cérebro e, segundo Bloom, produz uma predisposição natural para a adoção de idéias religiosas. Bloom também sugere que temos uma predisposição inata para ser criacionistas. A seleção natural “não faz sentido intuitivamente”. As crianças são especialmente propensas a dar um propósito a tudo, como afirma a psicóloga Deborah Keleman em seu artigo “São as crianças ‘teístas intuitivas’?”.81 Nuvens servem “para chover”. Pedras pontudas servem “para os animais poderem se coçar nelas”. A designação de um propósito para tudo é denominada teleologia. As crianças são teleológicas por natureza, e muitas nunca abandonam a característica. O dualismo inato e a teologia inata nos predispõem, sob as condições
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    certas, à religião, assim como a reação à bússola de luz de minhas mariposas as predispunha ao “suicídio” inadvertido. Nosso dualismo inato nos prepara para acreditar numa “alma” que habita o corpo, em vez de ser parte integrante do corpo. É fácil imaginar um espírito imaterial assim indo para algum outro lugar depois da morte do corpo. Também é fácil imaginar a existência de uma divindade que seja puro espírito, não uma propriedade que emerge da matéria complexa, mas que existe independentemente da matéria. Mais óbvio ainda, a teleologia infantil nos deixa prontos para a religião. Se tudo tem um propósito, qual é esse propósito? O de Deus, é claro. Mas qual é o equivalente da utilidade da bússola de luz das mariposas? Por que a seleção natural pode ter favorecido o dualismo e a teleologia no cérebro de nossos ancestrais e de seus filhos? Por enquanto, meu relato sobre a teoria dos “dualistas inatos” propôs simplesmente que os seres humanos são dualistas e teleólogos por natureza. Mas qual seria a vantagem darwiniana? Prever o comportamento de entidades de nosso mundo é importante para nossa sobrevivência, e seria de esperar que a seleção natural tivesse moldado nosso cérebro para fazê-lo com eficácia e rapidez. Será que o dualismo e a teleologia nos são úteis para essa capacidade? Talvez compreendamos melhor essa hipótese à luz daquilo que Daniel Dennett chamou de postura intencional. Dennett oferece uma classificação tripla útil para as “posturas” que adotamos quando tentamos entender e portanto prever o comportamento de entidades como animais, máquinas ou uns aos outros.82 São elas a postura física, a postura de projeto e a postura intencional. A postura física sempre funciona em tese, porque tudo acaba obedecendo às leis da física. Mas compreender as coisas usando a postura física pode demorar demais. Até que tenhamos nos sentado e calculado todas as interações das partes móveis de um objeto complicado, nossa previsão sobre seu comportamento provavelmente vai estar atrasada. Para um objeto que realmente tenha sido projetado, como uma máquina de lavar roupa ou um arco para lançar flechas, a postura de projeto é um atalho económico. Podemos adivinhar como o objeto vai se comportar passando por cima da física e apelando direta-mente ao design. Dennett diz: Quase todo mundo é capaz de prever quando o alarme de um relógio vai tocar, com base
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    na mais simples inspeção de seu exterior. Ninguém sabe nem quer saber se ele é movido a corda, a bateria, a energia solar, feito com roldanas de metal e mancai de pedra preciosa ou de chips de silício — simplesmente se assume que ele foi projetado para que o alarme toque quando está marcado para tocar. Os seres vivos não foram projetados, mas a seleção natural darwiniana nos permite adotar uma versão da postura de design para eles. Obtemos um atalho para entender o coração se assumimos que ele foi “projetado” para bombear o sangue. Karl von Frisch foi levado a investigar a visão colorida das abelhas (dian-te da opinião ortodoxa de que elas não distinguiam cores) porque assumiu que as cores vivas das flores foram “projetadas” para atraí-las. As aspas foram projetadas para espantar criacionistas desonestos que senão poderiam reclamar o grande zoólogo austríaco para o seu time. Nem é preciso dizer que ele foi perfeitamente capaz de traduzir a postura de projeto para os termos darwinianos adequados. A postura intencional é outro atalho, e dá um passo além da postura de projeto. Assume-se que uma entidade não só foi projetada para um fim mas que também é, ou contém, um agente com intenções que orientam suas ações. Quando você vê um tigre, é melhor não demorar muito para prever o provável comportamento dele. Deixe para lá a física de suas moléculas, deixe para lá o design de membros, garras e dentes. Aquele felino quer comê-lo, e vai empregar seus membros, patas e dentes de formas flexíveis e habilidosas para concretizar sua intenção. O meio mais rápido de adivinhar o comportamento dele é esquecer a física e a fisiologia e passar à busca pela intenção. Note que, assim como a postura de projeto funciona mesmo para coisas que não foram realmente projetadas, assim como para as que foram, a postura intencional funciona para coisas que não têm intenções conscientes deliberadas, assim como para coisas que têm. Parece-me inteiramente plausível que a postura intencional tenha valor de sobrevivência como mecanismo cerebral que acelera a tomada de decisões em circunstâncias perigosas e em situações sociais cruciais. Não fica tão imediatamente claro que o dualismo é um concomitante necessário da postura intencional. Não explorarei a questão aqui, mas acredito ser possível
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    desenvolver a tese de que algum tipo de teoria de outras mentes, passível de ser descrita como dualista, tende a ser subjacente à postura intencional — especialmente em situações sociais complicadas, e ainda mais especialmente onde a intencionalidade de ordem mais elevada está em jogo. Dennett fala da intencionalidade de terceira ordem (o homem achou que a mulher sabia que ele gostava dela), de quarta ordem (a mulher percebeu que o homem achava que ela sabia que ele gostava dela) e até de quinta ordem (o xamã adivinhou que a mulher percebeu que o homem achava que ela sabia que ele gostava dela). Ordens muito elevadas de intencionalidade são reservadas provavelmente à ficção, como satirizou o hilariante romance de Michael Frayn The tin men [Homens de lata]: “Observando Nunopoulos, Rick soube que ele tinha quase certeza de que Anna sentia um fervoroso desprezo pelo fato de Fiddling-child não ter percebido o que ela sentia por Fiddlingchild, e ela sabia também que Nina sabia que ela sabia que Nunopoujos sabia […]”. Mas o fato de que somos capazes de rir com tamanho contorcionismo ficcional da inferência em outras mentes prova-velmente nos revela algo de importante sobre a forma como nossa cabeça foi naturalmente selecionada para funcionar no mundo real. Em suas ordens menos elevadas, pelo menos, a postura intencional, assim como a postura de projeto, economiza um tempo que pode ser vital à sobrevivência. Em conseqüência, a seleção natural moldou os cérebros a empregar a postura intencional como atalho. Somos biologicamente programados para imputar intenções a entidades cujo comportamento nos interessa. Mais uma vez, Paul Bloom cita evidências experimentais de que as crianças são especialmente propensas a adotar a postura intencional. Quando bebés vêem um objeto que aparentemente segue um outro objeto (por exemplo numa tela de computador), eles assumem que estão testemunhando uma caçada ativa por parte de um agente intencional, e demonstram esse fato manifestando surpresa quando o suposto agente abandona a perseguição. A postura de projeto e a postura intencional são mecanismos cerebrais úteis, importantes para acelerar a previsão de comportamentos de entidades que
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    influenciam na sobrevivência, como predadores ou parceiros em potencial. Mas, assim como outros mecanismos cerebrais, essas posturas podem dar errado. As crianças, e os povos primitivos, imputam intenções ao clima, a ondas e correntes, a pedras que caem. Todos nós tendemos a fazer a mesma coisa com máquinas, especialmente quando elas nos deixam na mão. Muitos vão se lembrar com carinho do dia em que o carro de Basil Fawlty* quebrou no meio de sua missão vital para salvar a Noite Gourmet do desastre. Ele foi justo e avisou, contando até três, e então saiu do carro, pegou um galho e atacou o carro sem dó nem piedade. A maioria de nós já sentiu isso, pelo menos por um instante, se não por um carro, por um computador. Justin Barrett cunhou a sigla HADD, para dispositivo hiperativo de detecção de agente.** Detectamos de forma hiperativa agentes onde eles não existem, e isso faz com que suspeitemos de maldade ou bondade quando na verdade só há indiferença na natureza. Eu me pego alimentando um ressentimento feroz contra coisas inanimadas e inocentes como a corrente da minha bicicleta. Uma notícia recente deu conta de que um homem tropeçou num cadarço desamarrado no Museu Fitzwilliam, em Cambridge, caiu e quebrou três vasos da dinastia Qing de valor incalculável: “Ele caiu no meio dos vasos e eles se quebraram em milhões de pedacinhos. Ele ainda estava lá, sentado e assustado, quando os funcionários apareceram. Todo mundo ficou em silêncio, como que em choque. O homem ficava apontando para o cadarço, dizendo: ‘Aí está ele; esse é o culpado'”.83 Outras explicações da religião como subproduto foram propostas por Hinde, Shermer, Boyer, Atran, Bloom, Dennett, Kele-man, entre outros. Uma possibilidade especialmente intrigante mencionada por Dennett é que a irracionalidade da religião é um subproduto de um mecanismo interno específico de irracionalidade do cérebro: nossa tendência, que presumivelmente tem vantagens genéticas, a nos apaixonarmos. A antropóloga Helen Fisher, em Por que amamos, exprimiu lindamente a insanidade do amor romântico, e quão exagerado ele é se comparado ao que seria estritamente necessário. Observe comigo. Do ponto de vista de um * Personagem interpretado por John Cleese no popular seriado inglês Fawlty Towers. ** HADD: hyperactive agent detection device. (N. T.)
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    homem, por exemplo, é improvável que qualquer mulher que ele conheça seja cem vezes mais desejável que suas concorrentes, mas é assim que ele a descreverá quando “apaixonado”. Mais que a devoção monógama fanática a que somos suscetíveis, uma espécie de “poliamor” seria mais racional. (O poliamor é a crença de que é possível amar vários integrantes do sexo oposto simultaneamente, assim como se pode amar mais de um vinho, um compositor, um livro ou um esporte.) Aceitamos sem problemas que somos capazes de amar mais de um filho, mais de um progenitor, mais de um irmão, mais de um professor, mais de um amigo ou mais de um animal de estimação. Pensando assim, a exclusividade total que esperamos do amor conjugal não é esquisita? Mas é o que esperamos, e é o que tentamos obter. Deve haver um motivo. Helen Fisher e outros especialistas mostraram que estar apaixonado vem acompanhado de estados singulares do cérebro, incluindo a presença de compostos químicos ativos no sistema nervoso (na prática drogas naturais) que são altamente específicos e característicos do estado. Psicólogos evolucionistas concordam com ela que o coup defoudre irracional pode ser um mecanismo para garantir a lealdade a um co-progenitor, que dure o tempo suficiente para criar o filho juntos. Do ponto de vista darwinia-no, é sem dúvida importante escolher um bom parceiro, por vários motivos. Mas, uma vez feita a escolha — mesmo que seja ruim — e concebida a criança, é mais importante manter-se fiel à escolha haja o que houver, pelo menos até que a criança seja desmamada. Poderia a religião ser um subproduto dos mecanismos de irracionalidade que foram originalmente colocados no cérebro pela seleção para o ato da paixão? A fé religiosa certamente possui em parte o mesmo caráter da paixão (e ambas têm muitos dos atributos de estar sob o efeito de uma droga viciante).* O neuropsiquiatra John Smythies adverte que existem diferenças significativas entre as áreas do cérebro ativadas pelos dois tipos de mania. Mesmo assim, ele também observa algumas semelhanças: * Veja minha exposição sobre o perigoso narcótico óleo de Gerin: R. Dawkins, “Gerin Ou”, Free Inquiry 24:1, 2003, pp. 9-11.
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    Uma faceta dos muitos rostos da religião é o amor intenso focado em uma persona sobrenatural, isto é, Deus, além da reverência a ícones dessa persona. A vida humana é guiada em grande parte por nossos genes egoístas e por processos de reforço. A religião proporciona muito reforço positivo: sentimentos ternos e reconfortantes de ser amado e protegido num mundo perigoso, a perda do medo da morte, ajuda das alturas em resposta à oração em momentos difíceis etc. Da mesma forma, o amor romântico por outra pessoa real (normalmente do sexo oposto) exibe a mesma intensa concentração no outro e reforços positivos relacionados. Esses sentimentos podem ser deflagrados por ícones do outro, como cartas, fotos e até, como nos tempos vitorianos, mechas de cabelo. O estado apaixonado tem muitos acompanhamentos fisiológicos, como suspirar como uma fornalha.84 Fiz a comparação entre a paixão e a religião em 1993, quando observei que os sintomas de um indivíduo infectado pela religião “podem remeter surpreendentemente àqueles mais freqüentemente associados ao amor sexual. Trata-se de uma força extremamente poderosa no cérebro, e não é de surpreender que alguns vírus tenham evoluído para explorá-la” (“vírus” aqui é uma metáfora para as religiões: meu artigo chamava-se “Vírus da mente”).* A famosa visão orgásmica de santa Teresa de Ávila é notória demais para precisar de mais uma citação. De maneira mais séria, e num plano de sensualidade menos crua, o filósofo Anthony Kenny dá um depoimento tocante sobre o puro deleite que aguarda aqueles que conseguem acreditar no mistério da transubstanciação. Depois de descrever sua ordenação como padre católico, com o poder, pela imposição das mãos, de celebrar missas, ele afirma que lembra perfeitamente a exaltação dos primeiros meses nos quais tive o poder de dizer a missa. Eu, que normalmente era preguiçoso e demorava para me levantar, pulava cedinho da cama, totalmente acordado e cheio de animação pelo ato importante que tinha o privilégio de realizar […] Tocar o corpo de Cristo, a proximidade do padre com Jesus, era o que mais me encantava. Eu encarava a hóstia, depois das palavras da consagração, como um amante olhando nos olhos de sua amada […] Aqueles primeiros dias como padre continuam marcados em minha memória como dias de realização e de felicidade trémula; algo de precioso, e frágil demais para durar, como um caso de amor abreviado pela realidade de um casamento incompatível. * “Viruses of the mind”. (N. T.) 246
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    O equivalente da reação ao compasso de luz da mariposa é o hábito aparentemente irracional mas útil de se apaixonar por um, e apenas um, integrante do sexo oposto. O subproduto do erro — equivalente a voar para a chama da vela — é se apaixonar por Javé (ou pela Virgem Maria, ou por um pão ázimo, ou por Alá) e realizar atos irracionais motivados por esse amor. O biólogo Lewis Wolpert, em Six impossible things before breakfast [Seis coisas impossíveis antes do café-da-manhã], dá uma sugestão que pode ser vista como uma generalização da irracionalidade construtiva. A tese dele é que a forte convicção da irracionalidade é uma proteção contra a inconstância da mente: “se crenças que salvam vidas não fossem mantidas com veemência, isso seria desvantajoso na evolução humana primitiva. Seria uma grave desvantagem, por exemplo, quando se caçava ou se criavam ferramentas, ficar mudando de idéia a toda hora”. A implicação do argumento de Wolpert é que, pelo menos sob algu-mas circunstâncias, é melhor persistir numa crença irracional que vacilar, mesmo que novas evidências ou raciocínios favoreçam uma mudança. É fácil encarar o argumento da “paixão” como um caso especial, e é igualmente fácil encarar a “persistência irracional” de Wolpert como mais uma predisposição psicológica útil que pode explicar aspectos importantes do comportamento religioso irracional: mais um subproduto. Em seu livro Social evolution, Robert Trivers ampliou sua teoria evolutiva do auto-engano de 1976. O auto-engano é esconder a verdade da mente consciente para escondê-la dos outros. Em nossa própria espécie reconhecemos que olhares evasivos, mãos suadas e voz rouca podem indicar o estresse que acompanha o conhecimento consciente de uma tentativa de enganação. Ao se tornar inconsciente de sua enganação, o enganador esconde esses sinais do observador. Ele ou ela pode mentir sem o nervosismo que acompanha a mentira. O antropólogo Lionel Tiger diz algo semelhante em Optimism: The biology of hope [Otimismo: a biologia da esperança]. A conexão com o tipo de irracionalidade construtiva que vimos discutindo aparece no parágrafo de Trivers sobre a “defesa perceptiva”: Há uma tendência dos seres humanos de ver conscientemente o que gostariam de ver. Eles literalmente têm dificuldade em ver coisas com conotações negativas, enquanto
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    enxergam com cada vez mais facilidade itens que sejam positivos. Por exemplo, palavras que evocam ansiedade, seja devido ao histórico pessoal de um indivíduo ou devido à manipulação experimental, exigem maior iluminação para ser percebidas. A relevância disso para o modo de pensar religioso nem precisa de explicação. A teoria geral da religião como subproduto acidental — um efeito colateral de uma coisa útil — é a que pretendo defender. Os detalhes são variados, complicados e questionáveis. Em nome da ilustração, continuarei usando minha teoria da “criança crédula” como representante das teorias do “subproduto” em geral. Essa teoria — de que o cérebro da criança é, com bons motivos, vulnerável à infecção por “vírus” mentais — vai soar incompleta para alguns leitores. A mente pode ser vulnerável, mas por que ela deveria ser infectada por esse vírus e não por outro? Seriam alguns vírus especialmente aptos a infectar mentes vulneráveis? Por que a “infecção” se manifesta como religião e não como… sei lá o quê? Em parte o que quero dizer é que não importa que estilo específico de absurdo infecte o cérebro da criança. Uma vez infectada, a criança crescerá e infectará a geração seguinte com o mesmo absurdo, aconteça o que acontecer. Uma pesquisa antropológica como o Ramo de ouro de Frazer nos impressiona com a diversidade das crenças irracionais humanas. Uma vez entrincheiradas numa cultura, elas persistem, evoluem e divergem entre si, de uma maneira que remete à evolução biológica. Prazer identifica, porém, determinados princípios gerais, como por exemplo a “magia homeopática”, pela qual feitiços e encantamentos emprestam algum aspecto simbólico do objeto real que pretendem influenciar. Um exemplo de conseqüências trágicas é a crença de que o pó do chifre do rinoceronte tem propriedades afrodisíacas. Por mais estúpida que seja, a lenda vem da suposta semelhança entre o chifre e um pênis viril. O fato de a “magia homeopática” ser tão disseminada sugere que os absurdos que infectam cérebros vulneráveis não sejam absurdos totalmente aleatórios e arbitrários. É tentador explorar a analogia biológica até o ponto de questionar se não há em ação alguma coisa correspondente à seleção natural. Algumas idéias são
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    mais dissemináveis que outras, por causa de seu apelo ou mérito intrínseco, ou pela compatibilidade com disposições psicológicas preexistentes, e poderia isso responder pela natureza e pelas propriedades das religiões como as conhecemos, de um jeito parecido com o modo como usamos a seleção natural para responder pelos organismos vivos? É importante entender que “mérito” aqui significa apenas a capacidade de sobreviver e de se espalhar. Não significa um juízo de valor positivo — coisa de que podemos nos orgulhar. Mesmo num modelo evolucionário, não é preciso haver seleção natural. Os biólogos reconhecem que um gene pode se espalhar por uma população não por ser um gene bom, mas simplesmente por ser um gene sortudo. Chamamos isso de deriva genética. Sua importância em comparação à da seleção natural é controversa. Mas hoje ela é amplamente aceita, na forma da chamada teoria neutra da genética molecular. Se um gene sofre mutacão e se transforma numa versão diferente de si mesmo que tem um efeito idêntico, a diferença é neutra, e a seleção não pode favorecer um ou outro. Mesmo assim, pelo que os estatísticos chamam de erro de amostragem ao longo de gerações, a nova forma mutante pode acabar substituindo a forma original no universo de genes. Trata-se de uma mudança evolutiva real no nível molecular (mesmo que nenhuma mudança seja observada no mundo dos organismos completos). É uma mudança evolutiva neutra que não deve nada à vantagem seletiva. O equivalente cultural da deriva genética é uma opção convincente, que não podemos ignorar quando pensamos na evolução da religião. A linguagem evolui de forma quase biológica, e a direção que a evolução toma não parece ter sido predefinida, de um modo bem parecido com a deriva aleatória. Ela é transmitida por um análogo cultural da genética, mudando lentamente através dos séculos, até que no final várias linhas tenham divergido, chegando ao ponto da ininteligibilidade mútua. É possível que parte da evolução da língua seja guiada por uma espécie de seleção natural, mas esse argumento não parece muito convincente. Explicarei em seguida que já se propôs uma idéia como essa para movimentos importantes nas línguas, como a Grande Mutação Vocálica, que aconteceu no inglês entre os séculos XV e XVIII. Mas não é necessária uma hipótese assim para explicar a maior parte do que observamos. Parece
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    provável que a linguagem evolua normalmente pelo equivalente cultural da deriva genética aleatória. Em partes diferentes da Europa, o latim derivou e transformou-se em espanhol, português, italiano, francês, romeno e nos vários dialetos desses idiomas. Não é, para dizer o mínimo, óbvio que essas mudanças evolutivas refletiram vantagens locais ou “pressões seletivas”. Acredito que as religiões, assim como as línguas, evoluem com a dose certa de aleatoriedade, a partir de um início arbitrário o bastante para gerar a incrível — e às vezes perigosa — riqueza na diversidade que observamos. Ao mesmo tempo, é possível que uma forma de seleção natural, associada à uniformidade fundamental da psicologia humana, garanta que religiões diversas tenham características significativas em comum. Muitas religiões, por exemplo, ensinam a doutrina objetivamente implau-sível mas subjetivamente atraente de que nossa personalidade sobrevive à morte do corpo. A idéia da imortalidade em si sobrevive e dissemina-se porque se alimenta do desejo. E o desejo conta, porque a psicologia humana tem uma tendência quase universal a permitir que a crença seja marcada pelas aspirações (“Teu desejo era pai, Harry, de tua idéia”, como disse Henrique IV, parte II, a seu filho).* Aparentemente não há dúvida de que muitos dos atributos da religião são bem adequados a colaborar para a sobrevivência dela, e para a sobrevivência desses atributos, no caldo da cultura humana. Surge agora a dúvida sobre se essa adequação é obtida pelo “design inteligente” ou por seleção natural. As duas respostas provavelmente estão certas. Pelo lado do design, os líderes religiosos são plenamente capazes de verbalizar os truques que colaboram para a sobrevivência da religião. Martinho Lutero sabia bem que a razão é a arquiinimiga da religião, e freqüentemente advertia sobre seus perigos: “A razão é o maior inimigo que a fé possui; ela nunca aparece para contribuir com as coisas espirituais, mas com frequência entra em confronto com a Palavra divina, tratando com desdém tudo o que emana de Deus”.85 De novo: “Quem quiser ser cristão deve arrancar os olhos da razão”. E de novo: “A razão deve ser destruída em todos os cristãos”. Lutero não teria tido dificuldade em projetar inteligentemente aspectos não inteligentes de uma * Não é brincadeira minha: 1066 and ali that.
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    religião para ajudá-la a sobre viver. Mas isso não significa necessariamente que ele, ou qualquer outra pessoa, realmente os tenha projetado. Eles podem ter evoluído por uma forma (não genética) de seleção natural, e Lute-ro não seria o designer, mas um observador sagaz de sua eficácia. Embora a seleção darwiniana convencional de genes possa ter favorecido predisposições psicológicas que produzam a religião como subproduto, é improvável que ela tenha forjado os detalhes. Já indiquei que, se pretendemos aplicar alguma forma de teoria seletiva a esses detalhes, temos de olhar não para genes, mas para seus equivalentes culturais. São as religiões feitas da mesma matéria que os memes?

  11. PISA DEVAGAR, POIS PISAS NOS MEUS MEMES A verdade, em se tratando de religião, é simplesmente a opinião que sobreviveu. Oscar Wilde Este capítulo começou com a observação de que, como a seleção natural darwiniana abomina o desperdício, toda característica onipresente de uma espécie — como a religião — tem de ter conferido alguma vantagem, ou não teria sobrevivido. Mas indiquei que a vantagem não precisa redundar na sobrevivência ou no sucesso reprodutivo do indivíduo. Como vimos, a vantagem para os genes do vírus do resfriado é explicação suficiente para a onipresença dessa queixa tão desagradável entre nossa espécie.* E nem é necessário haver genes que sejam beneficiados. Qualquer replicador já serve. Os genes são só os exemplos mais óbvios de replicadores. * Especialmente meu país, segundo a lenda de estereotipação nacional: “Voici I’anglais avec son sang froid habituel’ (“Aqui está o inglês com seu maldito resfriado de sempre” [“Here is the Englishman with his habitual bloody cold”]). A frase vem de Fractured French, de F. S. Pearson, junto com outras pérolas como “coup degrâce” (cortador de grama [lawnmower]).
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    Outros candidatos são vírus de computador e memes — E nem é necessário haver genes que sejam beneficiados. Qualquer replicador já serve. Os genes são só os exemplos mais óbvios de replicadores. Outros candidatos são vírus de computador e memes — unidades de herança cultural e o tema deste trecho. Se quisermos entender os memes, primeiro temos que analisar de forma um pouco mais detida exatamente como a seleção natural funciona. Em sua forma mais geral, a seleção natural precisa escolher entre replicadores alternativos entre si. Um replicador é uma informação codificada que faz cópias exatas de si mesma, junto com cópias inexatas ocasionais, ou “mutações”. A pergunta importante aqui é a darwiniana. As variedades de replicadores que calham de ser eficientes em se autocopiar tornam-se mais numerosas em detrimento de replicadores alternativos que não se copiam tão bem. Isso é, em sua forma mais rudimentar, a seleção natural. O replicador arquetípico é o gene, um pedaço de DNA que é duplicado, quase sempre com extrema precisão, ao longo de um número indefinido de gerações. A pergunta central para a teoria dos memes é se existem unidades de imitação cultural que funcionem como replicadores verdadeiros, como os genes. Não estou dizendo que os memes necessariamente são análogos próximos dos genes, mas que quanto mais parecidos com genes eles forem, melhor a teoria dos memes funcionará; e o objetivo deste trecho é perguntar se a teoria dos memes funcionaria no caso específico da religião. No mundo dos genes, as falhas ocasionais na replicação (mutações) fazem com que o universo genético contenha variantes alternativas para qualquer gene — “alelos” —, que podem portanto ser encaradas como concorrentes entre si. Concorrendo pelo quê? Pelo encaixe cromossômico, ou “locus”, que pertence àquele conjunto de alelos. E como eles competem? Não pelo combate direto de molécula para molécula, mas através de representantes. Seus representantes são seus “traços fenotípicos” — coisas como o comprimento da perna ou a cor do pêlo: manifestações de genes encarnadas na forma de anatomia, fisiologia, bioquímica ou comportamento. O destino de um gene costuma estar associado aos corpos em que ele se encaixa de forma bem-sucedida. Como ele influencia esses corpos, isso afeta suas chances de
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    sobrevivência no universo de genes. Conforme as gerações avançam, os genes aumentam ou diminuem em frequência no universo genético de acordo com o desempenho de seus representantes fenotípicos. Poderia o mesmo acontecer com os memes? Um aspecto no qual eles não são como genes é que não são nada que corresponda de maneira óbvia a cromossomos, ou loci, ou alelos ou recombi-nação sexual. O universo de memes é menos estruturado e menos organizado que o universo de genes. Mesmo assim, não é uma tolice completa falar de um universo de memes, em que memes específicos possam ter uma “frequência” que pode mudar em conseqüência de interações competitivas com memes alternativos. Houve quem fizesse objeções às explicações meméticas, com base em vários argumentos que normalmente se originam no fato de que os memes não são totalmente como os genes. A natureza física exata de um gene é conhecida hoje (é uma sequência de DNA), enquanto a dos memes não é, e memeticistas diferentes se confundem uns aos outros passando de um meio físico para outro. Os memes existem apenas nos cérebros? Ou cada cópia em papel ou eletrônica de, digamos, um versinho popular também tem o direito de ser chamada de meme? Além disso, os genes replicam-se com uma fidelidade muito alta, e, se é que os memes se replicam, eles não o fazem com menor precisão? Esses supostos problemas dos memes são exagerados. A ob-jeção mais importante é a alegação de que os memes são copiados com fidelidade insuficiente para funcionar como replicadores darwinianos. A suspeita é que, se a “taxa de mutação” em cada geração for elevada, o meme vai sofrer mutações até deixar de existir, antes que a seleção darwiniana possa ter um impacto em sua frequência no universo de memes. Mas o problema é ilusório. Pense num mestre carpinteiro, ou num artesão pré-histórico de instrumentos de pedra, demonstrando uma habilidade específica para um jovem aprendiz. Se o aprendiz reproduzisse fielmente cada movimento da mão do mestre, seria realmente de esperar que o meme mutasse até se tornar irreconhecível em apenas algumas “gerações” de transmissão mestre-aprendiz. Mas é claro que o aprendiz não reproduz fielmente cada movimento da mão. Seria ridículo se fosse
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    assim. Em vez disso, ele observa o objetivo que o mestre está tentando alcançar e o imita. Insira o prego até que a cabeça esteja plana, não importam quantas marteladas sejam necessárias, e elas podem ser de número diferente do usado pelo mestre. É esse tipo de regra que pode passar imutada por um número indefinido de “gerações” de imitação, independentemente do fato de que os detalhes de sua execução variem de indivíduo para indivíduo e de caso para caso. Pontos no tricô, nós em cordas ou redes de pescar, dobraduras de origami, truques úteis na carpintaria ou na cerâmica: tudo isso pode ser reduzido a elementos distintos que realmente têm a oportunidade de ser transmitidos por um número indefinido de gerações de imitação, sem alteração. Os detalhes podem flutuar de forma idiossincrática, mas a essência é transmitida imutada, e é só isso o necessário para que a analogia dos memes com os genes funcione. Em meu prefácio a The meme machine, de Susan Blackmore, desenvolvi o exemplo de um procedimento de origami para fazer uma miniatura de um barco chinês. É uma receita bastante complicada, envolvendo 32 dobraduras ou operações semelhantes. O resultado final (o barco chinês em si) é um objeto agradável, assim como três estágios intermediários na “embriologia”, o “cata-marã”, a “caixa de duas tampas” e o “porta-retratos”. A performance até me faz lembrar das dobras e invaginações por que passam as membranas de um embrião conforme ele passa de blástula para gástrula e para nêurula. Aprendi a fazer o barco chinês quando era pequeno com meu pai, que, mais ou menos na mesma idade, tinha adquirido a habilidade em seu internato. Uma febre de dobraduras de barco chinês, iniciada pela supervisora, havia se espalhado pela escola no tempo dele como uma epidemia de sarampo, e depois se esvaneceu, também como uma epidemia de sarampo. Vinte e seis anos depois, quando aquela supervisora já não trabalhava mais lá havia muito tempo, fui à mesma escola. Reintroduzi a febre e ela novamente se espalhou, como outra epidemia de sarampo, e novamente se esvaneceu. O fato de que uma habilidade tão ensinável possa se espalhar como uma epidemia diz-nos algo importante sobre a alta fidelidade das transmissões meméticas. Podemos estar certos de que os barcos feitos pela geração de alunos da geração de meu pai, nos anos 1920, não eram em seus aspectos gerais diferentes dos feitos
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    pela minha geração, nos anos 1950. Podemos investigar o fenómeno de forma mais sistemática no seguinte experimento: uma variante da brincadeira infantil do telefone sem fio. Pegue duzentas pessoas que nunca fizeram um barco chinês e as organize em vinte equipes de dez pessoas cada uma. Reúna os líderes das vinte equipes em volta de uma mesa e ensine-os, pela demonstração, a fazer um barco chinês. Peça a cada um que ensine a uma segunda pessoa em sua equipe, sozinha, de novo por demonstração, a fazer o barco chinês. Cada pessoa da segunda “geração” ensina então a terceira pessoa de sua própria equipe, e assim por diante, até que o décimo membro de cada equipe tenha sido alcançado. Guarde todos os barcos feitos no processo e os etiquete por equipe e número de geração para subseqüente inspeção. Ainda não fiz o experimento (gostaria de fazer), mas tenho uma previsão bastante convicta do resultado. Minha previsão é que nem todas as vinte equipes conseguirão transmitir a habilidade intacta ao longo da linha de seus dez integrantes, mas que um número significativo delas conseguirá. Em algumas equipes haverá erros: talvez um elo mais fraco da cadeia esqueça algum passo vital da operação, e todo mundo dali para baixo receba o erro e obviamente fracasse. Talvez a equipe 4 chegue até o “catamarã”, mas não consiga seguir adiante. Talvez o oitavo integrante da equipe 13 produza um “mutante” em algum ponto entre a “caixa de duas tampas” e o “porta-retratos”, e o nono e o décimo integrantes de sua equipe copiem então a versão mutada. Sobre as equipes em que a habilidade é transferida de forma bem-sucedida para a décima geração, faço mais uma previsão. Se você classificar os barcos em ordem de “geração”, não observará uma deterioração sistemática de qualidade com o número de gerações. Se, por outro lado, você realizasse um experimento idêntico em todos os aspectos, exceto pelo fato de que a habilidade a ser transferida não fosse um origami, e sim copiar um desenho de um barco, haveria definitivamente uma deterioração sistemática na precisão com que o desenho da geração 1 “sobreviveu” até a geração 10. Na versão desenho do experimento, todos os desenhos da décima geração teriam alguma leve semelhança com o desenho da primeira geração. E,
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    dentro de cada equipe, a semelhança se deterioraria de forma mais ou menos constante conforme se avançasse de geração para geração. Na versão origami do experimento, pelo contrário, os erros seriam de “tudo ou nada”: seriam mutações “digitais”. Ou a equipe não cometeria erros e o barco da décima geração não seria nem pior nem melhor, na média, que o produzido pela quinta ou pela primeira geração; ou haveria uma “mutação” em alguma geração específica e todos os esforços dali por diante seriam fracassos completos, muitas vezes reproduzindo fielmente a mutação. Qual é a diferença crucial entre as duas habilidades? É que a habilidade do origami consiste numa série de ações separadas sendo que nenhuma delas é difícil de realizar por si só. A maioria das operações é de coisas como “Dobre os dois lados até o meio”. Um integrante particular de uma equipe pode executar o passo errado, mas ficará claro para o próximo membro da equipe o que ele estava tentando fazer. Os passos do origami são “autonormalizantes”. É isso que os faz “digitais”. É como meu mestre carpinteiro, cuja intenção de deixar a cabeça do prego plana em relação à madeira é óbvia para seu aprendiz, independentemente do detalhe das marteladas. O passo da receita do origami é realizado do jeito certo ou do jeito errado. Já a habilidade do desenho é uma habilidade de analogia. Todo mundo pode tentar, mas algumas pessoas copiam um desenho com mais precisão que outras, e ninguém o copia perfeitamente. A precisão da cópia depende também da quantidade de tempo e cuidado dedicada a ela, e essas quantidades variam constantemente. Alguns integrantes das equipes, além disso, vão enfeitar ou “melhorar”, em vez de copiar estritamente, o modelo anterior. As palavras — pelo menos quando são entendidas — também são autonormalizantes, no mesmo sentido das operações de origami. Na brincadeira do telefone sem fio, a primeira criança ouve uma história, ou uma frase, e tem de transmiti-la para a próxima criança, e assim por diante. Se a frase tiver menos de sete palavras, na língua nativa de todas as crianças, há uma boa chance de que ela sobreviva, imutada, por dez gerações. Se for numa língua estrangeira desconhecida, de forma que as crianças sejam obrigadas mais a imitar foneticamente que dizer palavra por palavra, a mensagem não
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    sobrevive. O padrão de declínio através das gerações é o mesmo que para um desenho, e ela ficará distorcida. Quando a mensagem faz sentido na língua da criança, e não contém palavras pouco familiares como “fenótipo” ou “alelo”, ela sobrevive. Em vez de imitar os sons foneticamente, cada criança reconhece cada palavra como integrante de um vocabulário finito e seleciona a mesma palavra, embora muito provavelmente pronunciada com um sotaque diferente, quando a transmite para a próxima criança. A língua escrita também é autonorma-lizante porque os rabiscos no papel, não importa quanto difiram nos detalhes, são todos tirados de um alfabeto finito de (por exemplo) 26 letras. O fato de os memes poderem às vezes apresentar uma fidelidade muito alta, devido a processos autonormalizantes como esses, basta para responder a algumas das objeções mais comuns levantadas para a analogia meme/gene. De qualquer maneira, o principal propósito da teoria dos memes, neste estágio tão inicial de seu desenvolvimento, não é fornecer uma teoria abrangente da cultura, equivalente à genética de Watson-Crick. Meu propósito original ao pregar os memes foi, na verdade, combater a impressão de que o gene é o único jogo darwiniano em ação — uma impressão que O gene egoísta corria o risco de transmitir. Peter Richerson e Robert Boyd enfatizam essa questão no título de seu importante e cuidadoso livro Not by genes alone [Nem só com genes], embora eles apresentem razões para não adotar a palavra “meme”, preferindo “variantes culturais”. Genes, memes and hu-man history, de Stephen Shennan, inspirou-se parcialmente num excelente livro anterior de Boyd e Richerson, Culture and the evolutionary process. Entre outros livros que tratam dos memes estão The electric meme, de Robert Aunger, The selfish meme, de Kate Distin, e Vírus of the mind: The new science of the meme, de Richard Brodie. Mas foi Susan Blackmore, em The meme machine, que levou a teoria memética mais longe. Ela visualiza um mundo cheio de cérebros (ou outros receptáculos ou condutores, como computadores ou frequências de rádio) e memes lutando para ocupá-los. Assim como genes num universo de genes, os memes que prevalecem são aqueles que conseguem se copiar bem. Isso pode acontecer porque eles exercem uma atração direta, devido à imortalidade que o meme tem para algumas pessoas. Ou pode ser porque eles florescem na
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    presença de outros memes que já se tornaram numerosos no universo de memes. Isso cria complexos de memes, ou “memeplexos”. Como costuma acontecer com os memes, entenderemos melhor se voltarmos à origem genética da analogia. Para fins didáticos, tratei os genes como se eles fossem unidades isoladas, agindo de maneira independente. Mas é claro que eles não são independentes entre si, e esse fato se torna evidente de duas maneiras. Em primeiro lugar, os genes estão linearmente arranjados ao longo de cromossomos, e portanto tendem a viajar através de gerações na companhia de outros genes específicos que ocupam loci cromossômicos vizinhos. Nós, especialistas, chamamos esse tipo de ligação de ligação, e não falarei mais sobre isso porque os memes não têm cromossomos, alelos ou recom-binação sexual. O outro aspecto pelo qual os genes não são independentes é bem diferente da ligação genética, e aqui há, sim, uma boa analogia memética. Ele diz respeito à embriologia, que — o fato costuma ser alvo de mal-entendidos — é completamente diferente da genética. Os corpos não são unidos como quebra-cabeças de peças fenotípicas, cada uma oferecida por um gene diferente. Não existe um mapeamento de um para um entre os genes e unidades de anatomia ou de comportamento. Os genes “colaboram” com centenas de outros genes na programação dos processos de desenvolvimento que culminam num corpo, da mesma maneira que as palavras de uma receita colaboram no processo de preparação que culmina num prato. Cada palavra da receita não corresponde a um determinado pedacinho do prato. Os genes, portanto, co-operam em cartéis para construir corpos, e esse é um dos princípios importantes da embriologia. É tentador dizer que a seleção natural favorece cartéis de genes numa espécie de seleção natural de grupo entre cartéis alternativos. Trata-se de uma confusão. O que realmente acontece é que os outros genes do universo de genes constituem uma parte importante do ambiente em que cada gene é selecionado, em detrimento de seus alelos. Como cada gene é selecionado para ser bem-sucedido na presença dos outros — que também estão sendo selecionados da mesma forma —, surgem os cartéis de genes colaborativos. Temos aqui uma coisa mais parecida com um livre mercado que com uma economia planejada. Há um
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    açougueiro e um padeiro, mas talvez haja uma lacuna no mercado para um fabricante de velas. A mão invisível da seleção natural preenche a lacuna. Isso é diferente de se ter um planejador central que favoreça a tróica açougueiro + padeiro + fabricante de velas. A idéia sobre os cartéis colaborativos criados pela mão invisível vai se revelar central para nossa compreensão dos memes religiosos e de como eles funcionam. Tipos diferentes de cartéis de genes surgem em universos genéticos diferentes. Universos genéticos de carnívoros têm genes que programam a detecção de presas nos órgãos dos sentidos, garras para capturar presas, dentes para dilacerar carne, enzimas para digerir carne, tudo sintonizado para cooperar entre si. Ao mesmo tempo, em universos genéticos de herbívoros, conjuntos diferentes de genes mutuamente compatíveis são favorecidos por sua cooperação uns com os outros. Já conhecemos a idéia de que um gene é favorecido pela compatibilidade de seu fenótipo com o ambiente externo da espécie: deserto, floresta ou qualquer que seja ele. O ponto que estou defendendo é que ele também é favorecido por sua compatibilidade com os outros genes de seu universo genético específico. Um gene de carnívro não sobreviveria num universo genético de herbívoros, e vice-versa. Do ponto de vista do gene, o universo genético da espécie — o conjunto de genes misturados e remisturados pela reprodução sexual — constitui o ambiente genético em que cada gene é selecionado por sua capacidade de cooperar. Embora os universos de memes sejam menos regimentados e estruturados que os universos de genes, ainda podemos falar do universo memético como parte importante do “ambiente” de cada meme no memeplexo. Um memeplexo é um conjunto de memes que, embora não sejam necessariamente bons sobreviventes isoladamente, são bons sobreviventes na presença dos outros membros do memeplexo. Na seção anterior, duvidei que os detalhes da evolução das línguas sejam favorecidos por qualquer tipo de seleção natural. Deduzi que a evolução das línguas é, em vez disso, governada pela deriva aleatória. É concebível que determinadas vogais ou consoantes sejam transmitidas melhor que outras em terrenos montanhosos, e portanto possam se tornar características, digamos, de dialetos suíços, tibetanos ou
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    andinos, enquanto outros sons sejam adequados ao sussurro das densas florestas e sejam portanto característicos de línguas pigméias ou amazônicas. Mas o exemplo que citei para a seleção natural da língua — a teoria de que a Grande Mutação Vocálica possa ter uma explicação racional — não pertence a esse tipo. Ele tem mais a ver com memes que se encaixem em memeplexos mutuamente compatíveis. Uma vogal mudou primeiro, por razões desconhecidas — talvez uma moda de imitar um indivíduo admirado e poderoso, como a suposta origem do ceceio do espanhol. Não interessa como começou a Grande Mutação Vocálica: de acordo com essa teoria, uma vez que a primeira vogal tenha mudado, outras vogais tiveram de mudar seguindo sua trilha, para reduzir a ambiguidade, e assim por diante, numa cascata. Nesse segundo estágio do processo, os memes eram selecionados em relação ao contexto de universos meméticos já existentes, construindo um novo memeplexo de memes mutuamente compatíveis. Estamos finalmente equipados para passar para a teoria memética da religião. Algumas idéias religiosas, assim como alguns genes, podem sobreviver devido ao mérito absoluto. Esses memes sobreviveriam em qualquer universo memético, independentemente dos outros memes que os cercassem. (Devo repetir o ponto vitalmente importante de que “mérito” nesse sentido significa apenas “capacidade de sobreviver no universo”. Não carrega nenhum outro juízo de valor.) Algumas idéias religiosas sobrevivem porque são compatíveis com outros memes que já são numerosos no universo de memes — como parte de um memeplexo. Leia a seguir uma lista parcial de memes religiosos que podem ter valor de sobrevivência no universo memético, seja devido a um “mérito” absoluto, seja devido à compatibilidade com um memeplexo preexistente: • Você sobreviverá à sua própria morte. • Se você morrer como mártir, vai para uma parte do paraíso es-pecialmente maravilhosa, onde se regalará com 72 virgens (reserve um pouco de pena para as pobres virgens). • Hereges, blasfemos e apóstatas devem ser mortos (ou punidos, por exemplo pelo ostracismo em relação a suas famílias).
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    • A crença em Deus é uma virtude suprema. Se você perceber que sua crença está vacilando, trabalhe duro para restaurá-la, e implore a Deus para ajudá-lo a combater a descrença. (Em minha discussão sobre a aposta de Pascal mencionei a estranha pressuposição de que a única coisa que Deus realmente quer de nós é a fé. Naquele momento tratei o fato como uma anomalia. Agora temos uma explicação para ele.) • A fé (crença sem evidência) é uma virtude. Quanto mais suas crenças desafiarem as evidências, mais virtuoso você será. Fiéis virtuosos que conseguem acreditar em alguma coisa muito estranha, insustentável, em franca oposição às evidências e à razão, são especialmente recompensados. • Todo mundo, mesmo quem não possui crenças religiosas, deve respeitá-las com um respeito mais automático e mais sem questionamentos que o aceitável para qualquer outro tipo de crença (falamos disso no capítulo 1). • Existem coisas estranhas (como a Trindade, a transubstanciação, a encarnação) que não nos cabe compreender. Nem tente entendê-las, porque a tentativa pode destruí-las. Aprenda a se satisfazer chamando-as de mistérios. Lembre-se das virulentas condenações da razão feitas por Martinho Lutero, citadas na página 251, e pense em quão protetoras da sobrevivência dos memes elas seriam. • A música, a arte e as Escrituras são marcas auto-replicantes de idéias religiosas.* * Escolas e gêneros de arte diferentes podem ser analisados como memeplexos alternativos, já que os artistas copiam idéias e motivos de artistas anteriores, e os novos motivos só sobrevivem mesclados a outros. Na verdade, a própria disciplina académica da história da arte, com seu rastreamento sofisticado de iconografias e simbolismos, pode ser encarada como um estudo elaborado sobre a memeplexidade. Os detalhes terão sido favorecidos ou desfavorecidos pela presença de integrantes preexistentes do universo de memes, e entre eles freqüentemente haverá memes religiosos.
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    Alguns dos pontos da lista acima provavelmente possuem um valor de sobrevivência absoluto e floresceriam em qualquer memeplexo. Mas, assim como os genes, alguns memes só sobrevivem no contexto certo de outros memes, o que leva à construção de memeplexos alternativos entre si. Duas religiões diferentes podem ser encaradas como dois memeplexos alternativos. Talvez o islã seja análogo a um complexo genético de carnívoros, e o budismo, a um de herbívoros. As idéias de uma religião não são “melhores” que as da outra em nenhum sentido absoluto, assim como os genes de carnívoros não são “melhores” que os de herbívoros. Os memes religiosos desse tipo não têm necessariamente nenhuma aptidão especial para sobreviver; mesmo assim, são bons no sentido de que florescem na presença de memes de outra religião. Por esse modelo, o catolicismo romano e o islã, digamos, não foram necessariamente projetados por pessoas isoladas, mas evoluíram separadamente como coleções excludentes de memes que florescem na presença de outros membros do mesmo memeplexo. Religiões organizadas são organizadas por pessoas: por padres e bispos, rabinos, imãs e aiatolás. Mas, para reiterar o ponto que defendi sobre Martinho Lutero, isso não significa que elas tenham sido concebidas e projetadas por pessoas. Mesmo nos casos em que religiões vêm sendo exploradas e manipuladas em bene-fício de indivíduos poderosos, ainda subsiste a forte possibilidade de que o formato detalhado de cada religião tenha sido moldado em grande parte pela evolução inconsciente. Não pela seleção natural genética, que é lenta demais para responder pela rápida evolução e divergência das religiões. O papel da seleção natural genética nessa história é fornecer o cérebro, com suas predileções e suas tendenciosidades — a plataforma de hardware e o programa simples que compõem o cenário da seleção memética. Devido a esse cenário, para mim algum tipo de seleção natural memética parece oferecer uma explicação plausível para a evolução detalhada de religiões específicas. Nos estágios iniciais da evolução de uma religião, antes que ela se torne organizada, memes simples sobrevivem devido a seu apelo universal à psicologia humana. É aí que a teoria memética da religião e a teoria do subproduto psicológico se sobrepõem. Os estágios mais tardios, quando a religião se torna organizada, elaborada e arbitrariamente
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    diferente de outras religiões, são muito bem abordados pela teoria dos memeplexos — cartéis de memes mutuamente compatíveis. Isso não elimina o papel adicional da manipulação deliberada por padres e outros indivíduos. As religiões provavelmente são, pelo menos em parte, produto de um design inteligente, assim como escolas, modas e a arte. Uma religião que é quase em sua totalidade produto de design inteligente é a cientologia, mas suspeito que se trate de um caso excepcional. Outra candidata a religião puramente projetada é o mormonismo. Joseph Smith, seu ousado e enganador inventor, chegou ao cúmulo de escrever um livro sagrado totalmente novo, o Livro de Mórmon, inventando a partir do zero uma nova e fictícia história americana, escrita num inglês fictício do século XVII. O mormonismo, no entanto, evoluiu desde que foi criado no século XIX e hoje se transformou numa das religiões respeitáveis dos Estados Unidos — que, aliás, alega ser a que mais cresce, e já fala em apresentar um candidato à presidência. A maioria das religiões evolui. Qualquer que seja a teoria da evolução religiosa que adotemos, ela tem de ser capaz de explicar a incrível velocidade com que o processo da evolução religiosa, sob as condições certas, é capaz de levantar voo. Veja a seguir um estudo de caso. CULTOS A CARGA Em A vida de Brian, uma das muitas coisas que a equipe do Monty Python captou bem foi a extrema rapidez com que um novo culto religioso pode ter início. Ele pode surgir quase que da noite para o dia e a partir daí se incorporar numa cultura, onde assume um papel inquietadoramente dominante. Os “cultos à carga” da Melanésia e da Nova Guiné são os exemplos mais famosos na vida real. A história inteira de alguns desses cultos, do começo ao fim, está envolta em memória viva. Diferentemente do culto a Jesus, cujas origens não são atestadas de forma confiável, conseguimos ter o curso completo dos eventos diante dos olhos (e mesmo aí, como veremos, alguns detalhes se perderam). É fascinante imaginar que o culto ao cristianismo quase certamente começou de forma muito parecida, e espalhou-se inicialmente com a mesma alta velocidade. Minha principal autoridade para os cultos à carga é Quest in paradise
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    [Jornada no paraíso], de David Attenborough, que me foi gentilmente oferecido por ele. O padrão é o mesmo para todos eles, dos cultos mais antigos, no século XIX, aos mais famosos, que se desenvolveram depois da Segunda Guerra Mundial. Aparentemente, em todos os casos, os habitantes das ilhas ficaram impressionados com as fantásticas coisas que os imigrantes brancos possuíam, incluindo administradores, soldados e missionários. Eles foram talvez vítimas da Terceira Lei de (Arthur C.) Clarke, que citei no capítulo 2: “Qualquer tecnologia avançada o bastante é indistinguível da magia”. Os ilhéus perceberam que os brancos que usavam aquelas maravilhas nunca as fabricavam eles mesmos. Quando artigos precisavam de conserto, eram enviados para algum lugar, e artigos novos continuavam chegando na forma de “carga” em navios ou, mais tarde, aviões. Jamais se viu um homem branco consertando qualquer coisa, e eles não faziam nada que pudesse ser reconhecido como trabalho útil (sentar atrás de uma mesa manuseando papéis era obviamente algum tipo de devoção religiosa). Evidentemente, portanto, a “carga” tinha de ter origem sobrenatural. Como que para corroborar a pressuposição, os brancos faziam certas coisas que só podiam ser cerimônias ritualísticas: Eles construíam mastros altos com fios ligados a eles; ficavam sentados ouvindo pequenas caixas que brilhavam e emitiam barulhos curiosos e vozes abafadas; convenciam o povo local a usar roupas idênticas e o faziam marchar para lá e para cá — e seria quase impossível imaginar uma ocupação mais inútil que essa. E então o indígena percebe que a resposta para o mistério está na sua cara. Essas ações incompreensíveis são os rituais utilizados pelos brancos para convencer os deuses a enviar a carga. Se o indígena quiser a carga, também ele tem de fazer aquelas coisas. Impressiona o fato de que cultos à carga semelhantes tenham nascido de forma independente em ilhas que são enormemente distantes, tanto em termos geográficos como culturais. David Attenborough nos diz que antropólogos perceberam dois focos distintos na Nova Caledônia, quatro nas Salomão, quatro em Fiji, sete nas Novas Hébridas e mais de cinqüenta em Nova Guiné, a maioria delas bastante independente e sem ligação entre si. A maioria dessas religiões afirma que um messias específico trará a carga quando o dia do apocalipse chegar. O florescimento independente de tantos cultos independentes mas
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    semelhantes sugere algumas características unificadoras da psicologia humana em geral. Um culto famoso da ilha de Tanna, nas Novas Hébridas (conhecidas como Vanuatu desde 1980), ainda existe. Ele é centrado numa figura messiânica chamada John Frum. As referências a John Frum nos registros oficiais do governo remontam a no máximo 1940, mas, mesmo num mito tão recente, não se sabe ao certo se ele existiu realmente na forma de um homem de verdade. Uma lenda o descreveu como um homenzinho com voz esganiçada e cabelo descolorido, que usava um casaco com botões brilhantes. Ele fez estranhas profecias, e fez tudo o que podia para colocar as pessoas contra os missionários. No final ele acabou voltando para os ancestrais, depois de prometer um retorno triunfal, trazendo carga abundante. Sua visão apocalíptica incluía um “grande cataclismo; as montanhas desmoronariam e fi-cariam planas e os vales seriam preenchidos;* os velhos reconquistariam a juventude e a doença desapareceria; os brancos seriam expulsos da ilha para nunca mais voltar; e a carga chegaria em grande quantidade, para que todo mundo tivesse tudo o que quisesse”. De forma mais preocupante para o governo, John Frum também profetizou que, em sua segunda vinda, traria uma nova moeda, estampada com a imagem de um coco. As pessoas deveriam, portanto, se livrar de todo o seu dinheiro na moeda dos brancos. Em 1941, isso provocou uma onda de consumo furioso; as pessoas pararam de trabalhar e a economia da ilha sofreu graves prejuízos. Os administradores coloniais prenderam os líderes, mas não havia nada que pudessem fazer para exterminar o culto, e as igrejas das missões e as escolas ficaram desertas. Um pouco depois, surgiu uma nova doutrina que afirmava que John Frum era o rei da América. Providencialmente, soldados americanos chegaram às Novas Hébridas mais ou menos nessa época e, maravilha das maravilhas, havia entre eles negros que não eram pobres como os ilhéus, mas * Compare com Isaías 40, 4: “Todo vale será aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros”. Essa semelhança não indica necessariamente uma característica fundamental da psique humana, ou o “inconsciente coletivo” de Jung. As ilhas estavam havia muito infestadas de missionários.
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    tão ricamente dotados de carga quanto os soldados brancos. Uma louca empolgação tomou conta de Tanna. O dia do apocalipse era iminente. Parecia que todo mundo estava se preparando para a chegada de John Frum. Um dos líderes disse que John Frum chegaria dos Estados Unidos de avião, e centenas de homens começaram a abrir uma clareira no centro da ilha para que o avião tivesse uma pista onde pousar. A pista tinha uma torre de controle de bambu com “controladores de tráfego aéreo” que usavam fones de ouvido de mentira, feitos de madeira. Havia aviões de mentira na pista para servir de isca, projetados para atrair o avião de John Frum. Nos anos 1950, o jovem David Attenborough chegou de barco a Tanna, com um cinegrafista, Geoffrey Mulligan, para investigar o culto a John Frum. Eles encontraram muitas evidências da religião e acabaram sendo apresentados a seu sacerdote mais importante, um homem chamado Nambas. Nambas referia-se a seu messias com intimidade, como John, e afirmava conversar regularmente com ele, por “rádio”. Isso (“John do rádio”) consistia numa velha com um fio elétrico em volta da cintura e que entrava em transe, falando coisas ininteligíveis, que Nambas interpretava como as palavras de John Frum. Nambas alegava ter sabido com antecedência que Attenborough estava vindo para falar com ele, porque John Frum havia lhe contado pelo “rádio”. Attenborough pediu para ver o “rádio”, mas teve (compreensivel-mente) o pedido recusado. Ele mudou de assunto e perguntou se Nambas havia visto John Frum: Nambas fez que sim vigorosamente. “Mim viu muitas vezes.” “Como ele é?” Nambas apontou o dedo para mim. “Parece com você. Tem cara branca. É alto. Mora lá para a América do Sul.” Esse detalhe contradiz a lenda citada anteriormente, de que John Frum era um homenzinho baixo. É o que acontece com as lendas em evolução. Acredita-se que John Frum vá voltar no dia 15 de fevereiro, mas o ano é desconhecido. Todo ano, no dia 15 de fevereiro, seus seguidores se reúnem para uma cerimônia religiosa para recebê-lo. Por enquanto ele não voltou, mas eles não estão decepcionados. David Attenborough disse a um devoto do culto, chamado Sam:
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    “Mas, Sam, faz dezenove anos que John diz que a carga vai chegar. Ele promete e promete, mas a carga não vem. Dezenove anos não é tempo demais para esperar?” Sam parou de olhar para o chão e me fitou. “Se você pode esperar 2 mil anos pela chegada de Jesus Cristo e ele não vem, então posso esperar mais dezenove anos por John.” O livro de Robert Buckman Can we be good without God? [Podemos ser bons sem Deus?] cita a mesma réplica admirável de um discípulo de John Frum, dessa vez para um jornalista canadense uns quarenta anos depois do encontro de David Attenborough. A rainha e o príncipe Philip visitaram a área em 1974, e o príncipe foi subseqüentemente endeusado numa reprise do culto a John Frum (mais uma vez, perceba quão rapidamente os detalhes podem mudar na evolução da religião). O príncipe é um belo homem que teria impressionado em seu uniforme branco da Marinha e seu capacete emplumado, e talvez não seja de surpreender que ele, e não a rainha, tenha sido o escolhido, sem contar o fato de que a cultura dos ilhéus tornava difícil para eles aceitar uma divindade feminina. Não quero supervalorizar os cultos à carga do Pacífico Sul. Mas eles realmente oferecem um modelo contemporâneo fascinante do modo como as religiões nascem praticamente do nada. Em especial, eles sugerem quatro lições sobre as origens das religiões em geral, e vou descrevê-las brevemente aqui. A primeira é a impressionante velocidade com que um culto pode florescer. A segunda é a velocidade com que o processo de origem apaga seus rastros. John Frum, se existiu, existiu numa época de memória viva. Mesmo assim, com uma possibilidade tão recente, não se sabe ao certo se ele existiu mesmo. A terceira lição vem da emergência independente de cultos semelhantes em ilhas diferentes. O estudo sistemático dessas semelhanças pode nos dizer alguma coisa sobre a psicologia humana e sua suscetibilidade à religião. A quarta é que os cultos à carga são parecidos não só entre si, mas com religiões mais antigas. O cristianismo e outras religiões antigas que se disseminaram pelo mundo todo presumivelmente começaram como cultos locais como o a John Frum. Académicos como Geza Vermes, professor de estudos judaicos da Universidade de Oxford, já sugeriram que Jesus foi uma entre muitas outras figuras carismáticas que surgiram na Palestina mais ou menos em sua época, cercadas
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    de lendas semelhantes. A maioria dos cultos morreu. O único que sobreviveu, por essa visão, é o que encontramos hoje. E, com o passar dos séculos, ele foi sendo moldado pela evolução (seleção memética, se você gostar desse jeito de dizer; mas só se gostar) e transformado no sistema sofisticado — ou melhor, em conjuntos divergentes de sistemas descendentes — que domina grandes partes do mundo hoje em dia. A morte de figuras carismáticas modernas como Hailé Selassié, Elvis Presley e a princesa Diana proporciona oportunidades para estudar o rápido surgimento de cultos e sua evolução memética subseqüente. Isso é tudo o que quero dizer sobre as raízes da religião, tirando uma curta reprise no capítulo 10, quando discuto o fenômeno infantil do “amigo imaginário” ao tratar das “necessidades” psicológicas que a religião satisfaz. Freqüentemente se acredita que a moralidade tenha suas origens na religião, e no próximo capítulo quero questionar essa idéia. Argumentarei que a origem da moralidade pode ela mesma ser objeto de um questionamento darwiniano. Assim como perguntamos: Qual é o valor de sobrevivência darwiniano da religião?, podemos fazer a mesma pergunta a respeito da moralidade. A moralidade, na verdade, provavelmente precedeu a religião. Assim como fizemos com a religião, retomando a pergunta e reformulando-a, com a moralidade descobriremos que ela se encaixa melhor como subproduto de uma outra coisa.

  12. O assunto acima é bem complexo. Por isso um texto extenso e amplo é necessário para o trato justo da questão.

    E para finalizar, uma especificação ao exemplo do Culto a carga, uma religião estudada e conhecida desde o iníco, posso indicar:

    Um pequeno trecho do cocumentário sobre a questão:
    http://www.youtube.com/verify_age?next_url=http%3A//www.youtube.com/watch%3Fv%3DQrM2VHaFuZ0

    E também o texto específico disponível no
    http://www.ceticismoaberto.com/fortianismo/2123/o-ltimo-culto-carga

    Bons estudos!

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