Religião e Genética: Cadê a voz dos homossexuais?

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Peço desculpa a todos desde já, pois esse texto será longo. Estou nervoso com essa questão, e resolvi desabafar aqui com vocês.

Por esses dias assistimos pela internet uma intensa batalha de idéias, teorias e, sobretudo, de falácias. O pastor Silas Malafaia Realizou uma entrevista no programa “De Frente com Gabi”, onde rebate a reportagem da Forbes, que avaliou sua fortuna em 300 milhões de reais, mas a maior polêmica foi suas opiniões sobre a homossexualidade.

Para o pastor, que se utiliza de argumentos científicos para dar sensação de verdade à suas palavras (me parece que o argumento religioso não faz mais tanto sucesso na explicação de como as coisas são ou devem ser, e que a ciência agora cumpre esse papel no imaginário das pessoas…), a homossexualidade é um comportamento determinado pelo ambiente. Ele cita um estudo internacional, ou seja, fora do contexto de nosso país, e atribui às porcentagens relatadas um peso de verdade plena. 46% dos homossexuais sofreram abuso sexual na infância e a adolescência. Com base nesse dado, ele usa sua lógica para dizer que o resto, 54%, é homossexual por escolha.

Após essa reportagem, apareceu um geneticista doutorando, Eli Vieira, que busca dados em pesquisas afirmando as bases genéticas da homossexualidade, mostrando por exemplo estudos entre gêmeos monozigóticos (nascidos de um mesmo óvulo e mesmo espermatozóide, clones um do outro) e dizigóticos (nascidos de óvulos e espermatozóides diferentes). Há maior correlação de comportamento homossexual entre os monozigóticos que entre dizigóticos, o que mostra as bases gentéticas da homossexualidade.

Após a grande repercussão desse video, Silas Resolveu dar sua tréplica, cheia de acusações e violência para com o geneticistas, o que ao meu ver quase oculta de nosso raciocínio o que ele pretendia dizer, sobre os argumentos que deu para refutar a opinião do geneticista.

Até agora, o que eu vi foi uma disputa vazia de egos, de pessoas que usam da ciência de forma errada, ou seja, como fontes de verdade inquestionável, tratando de uma questão sobre a vida e o comportamento de pessoas que nem ao menos foram consultadas sobre o tema. Claro que cada um pode das sua opinião sobre qualquer coisa, e falar sobre a homossexualidade é muito comum em diversos grupos. Interessante que a religião estava de fora dessa argumentação, mas isso não significou a ausência de implicações éticas em cada uma das palavras levantadas.

Antes de dar minha opinião a vocês, vou me apresentar, como cada um deles realizou em seus videos: Meu nome é Vitor Hugo, sou graduado em Psicologia, sou doutorando e tenho mestrado na área. Ah, também sou homossexual. E não, tenho a felicidade de nunca ter sofrido qualquer tipo de abuso sexual.

Silas Malafaia diz em seu vídeo  “Quem pode dizer se alguém nasce gay ou não? Não é a psicologia, é a genética.”. A questão toda circulou sobre uma ideia comum entre aqueles que condenam o comportamento homossexual como pecado, e os ativistas da diversidade sexual. Porque? Se a pessoa nasce gay, ela não tem culpa de ser o que é, não tem escolha, tal como o negro, o deficiente, entre outros grupos que também sofrem de discriminação. E se ela nasce gay, então Deus criou no homem essa possibilidade, o que deixa os religiosos sem ter como explicar o porque de condenar esse comportamento. Então, para eles, o melhor é dizer que a homossexualidade é um comportamento voluntário, sem bases genéticas, pois aí tudo isso seria fruto do livre-arbítrio, e portanto poderia ser colocado como pecado.

Não é a toa que a psicologia ficou de fora dessa discussão. E isso porque ela fala do comportamento, de como o homem se comporta, como ele age na interação entre genética e ambiente. Tal como os homossexuais, a Psicologia foi ignorada como algo que não pode contribuir para a questão.

A Psicologia não está interessada somente em compreender de onde surge o comportamento homossexual. Mais do que isso, ela busca compreender o homem como um todo, em suas relações. E o que ela mostra, em sua experiência, sobre a questão da homossexualidade? Eu diria, primeiro, que ela é uma ilusão.

Uma ilusão. Tanto o pastor quanto o geneticista confundem orientação sexual com sexo genético, sexualidade com procriação. Somos humanos, e não fazemos sexo somente para nos reproduzir. Aliás, muitos foram os avanços na área da anticoncepção. O homem busca prazer, realizar seus desejos. Não vou mostrar aqui artigos, e ficar provando com verdades científicas o que digo. A replicabilidade das experiências se restringe a uma área pequena da psicologia, e sua maior parte foge desse modelo de pesquisa, que é tido para muitas pessoas como o único modo de alcançar a verdade. Vocês podem ler textos da Teoria queer, da Psicanálise. Recomendo o livro de Cláudio Picazio, “Sexo Secreto”. Ele não é internacional, não é diretor do projeto Genoma, mas ainda realiza uma pesquisa séria, com base na experiência viva com essa comunidade LGBTT.

Sendo a sexualidade maior que a reprodução, ela atinge variadas formas. Não é a toa que a sigla é LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transsexuais e Travestis). Cada um deles é diferente, tem sua própria estruturação de personalidade. Vejam essa figura, que retirei do blog Lolhehehe:

 

Essa imagem ilustra bem como que a sexualidade se compõem de eixos diferentes. Cada eixo diz respeito a uma forma de expressão da sexualidade, e que se expressa em diferentes graus, entre dois pólos. O estritamente biológico diz respeito a somente uma delas, ao sexo biológico, na determinação do macho e da fêmea. Os outros, são uma mescla de fatores biológicos e culturais. Vale levantar aqui o argumento de Eli Vieira de que o inatismo não existe mais na teoria genética. Essa ideia de que o gene determina diretamente o comportamento, o que está ligada a hipótese de um “gene gay”. Assim, pode-se crer na existência de uma base genética, mas isso não é fator explicativo do homossexualismo. Ah, vocês viram na figura que a homossexualidade é um dos pólos da orientação sexual.

Bem quando eu disse que a homosexualidade é uma ilusão, eu me referia a essa ideia binária de que há o hetero e o homo, e ponto. Há uma escala variada de graus de orientação sexual, e essa orientação se compõe com os outros eixos, criando assim uma relação complexa de nossa sexualidade. Por exemplo, pelo gráfico, podemos prever a existência de um transexual gay ou hétero, ou seja, alguém pode mudar de sexo, mas ela não necessariamente é gay por causa disso. Eu conheci uma transexual masculina (um homem que se tornou mulher). Antes, ele era casado com uma mulher. Após a operação, ele queria continuar com ela. Não sentia atração por homens, apesar de se sentir como uma mulher. Muitos diriam: “Mas se ele gosta de mulher, porque não continuar sendo homem?”. Aí é que está, ser mulher ou homem não está diretamente relacionado a gostar de mulher ou de homem. Ele sentia ser uma mulher, e ainda lésbica. Simples assim.

Até agora falei com vocês como Psicólogo. E como tal, vi que a sexualidade está para além de genes e da vontade. Agora falo como Homossexual. Não me interessa realmente se nasci assim ou se aprendi a ser assim. Tive uma estrutura familiar boa, estudei bastante, trabalho. Deixei há muito de ser religioso, apesar de ter em minha mente a ideia de uma divindade, que ainda não consegui compreender como se manifesta em minha vida. a discussão que assisti, com grande infelicidade, não acrescentou nada, nem a mim, nem à sociedade. Ser gay ou não, até hoje, nunca casou nenhum mal social, tirando os medos imaginários de muitos religiosos e preconceituosos, que vêem nessa população um câncer social, como aconteceu com os negros, com os judeus, os loucos, e vários outros.

Meu estilo de vida, escolhido voluntariamente ou não, não infringe regras, leis, nem fere ninguém. Se alguém se sente mal ao ver um casal gay, desculpe, mas se a vida dos outros faz mal a você o problema é seu. Se ninguém te ofendeu ou feriu diretamente, nada de mais aconteceu.

Ah claro, a militância LGBTT incomoda os religiosos. Claro, toda militância por mudanças sociais de uma minoria incomoda a maioria, que não quer mudar. Entretanto, tenho um recadinho a Silas Malafaia, evangélico: sua religião só foi tornada possível pela militancia de uma minoria, comandada por Lutero. a maioria, católica, condenava cruelmente os protestantes. sua vitória foi  pela diversidade de pensamento religioso. a da militância LGBTT, o é pela diversidade sexual. Ou seja, quanto mais o tempo passa, surgem novas minorias e novas inquisições…

 

 

3 Comments

  1. Com relação ao homossexualismo, prefiro não opinar. Não sei o porquê e nem como isso acontece. Acredito que a natureza criou, após milhares de anos, a reprodução sexuada. Para isso precisa-se de um macho e uma fêmea. Agora, quando se fala de ser humano, tudo muda, visto que a reprodução não é mais fator de sobrevivência. Há quem não queira se reproduzir, ter filhos. Ou seja, as necessidades da natureza de perpetuação da espécie, da neccessidade de ter proles, está passando por mudanças por motivos mil. Para mim, isso é um mistério, tanto no campo biológico quanto no campo psicológico, pois parece se encontrar num campo pouco conhecido e compreendido pela ciência.
    Valeu!

    • Boa tarde Guto, muito obrigado pela postagem. Quando se fala em sexualidade humana, realmente não dá para reduzi-la a questão biológica. O que se vê é que o comportamento sexual é algo complexo, bio-psico-social-cultural-espiritual e por aí vai… Creio que a dúvida sobre a homossexualidade (não se fala mais em homossexualismo) só permanece quando toma-se como modelo de verdade sobre o sexo a questão da reprodução. Sexo é bem mais que reprodução no homem. Segundo o filósofo Merleau-Ponty, mesmo nos animais a reprodução, apesar de ser o foco, não resume a questão do sexo. A sexualidade envolve outras questões, senão não haveria em várias espécies complexos comportamentos de corte. Falar de sexualidade, no caso do homem, não tem como modelo a reprodução… esse é o discurso religioso. A grande maioria faz sexo por prazer, e se puder evitar a procriação o faz de bom grado. Mesmo no heterossexual há comportamentos sexuais não reprodutivos. Mesmo a masturbação não visa reprodução… assim, temos que parar de colocar o biológico como sinônimo de reprodução… tem muito mais coisa aí!

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