0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Email -- Filament.io 0 Flares ×

Escultura hiperrealista Man under cardigan, de Ron Muek

Estou continuando aqui o artigo anterios sobre depressão (ver aqui). A sociedade atual consegue lidar com o deprimido? Olhe nas televisões, nos espetáculos, na enchente de piadinhas sem graça do Facebook. Será que as pessoas conseguem conviver com alguém que vê tudo em tons de cinza, sem gosto, que não consegue olhar para as belezas da vida?

Não há paciência para a depressão. A tristeza do outro é sentida como algo que contamina, e então as pessoas se afastam. Ou, quando ficam perto, fazem de tudo para animá-la, mostrar que não há razão em sua tristeza. Mas depressão não é uma simples tristeza, e uma forma de percepção de mundo diferente. Como Freud falou da hibernação, o estado de desamparo absoluto e sem nome leva a pessoa a uma retirada de interesse do mundo: sem vontade de sair, de vontade de sexo, sem vontade de lutar e até de viver… Como convencer alguém de que as coisas da vida são boas se tudo o que ela vê diante de seus olhos são ruínas, internas e externas?

Ora, além disso, o portador de depressão busca um estado placentário, um retorno impossível à quietude do útero. quer sua cama, quer ficar sem nenhum estímulo a sua volta, quer eliminar os pensamentos ruins. Como pode fazer isso nessa sociedade particularmente barulhenta, com out-doors, jingles e uma torrente de informações e de opiniões.

Se a tristeza do depressivo não é compreendida nem aceita, ela não pode ser superada. Como é uma tristeza sem nome, ela precisa ser tratada de corpo e alma (assim o interessante resultado das terapias alternativas, que atingem o corpo). Forçar sua saída é enterrá-lo mais fundo. Tem que ter acolhimento e paciência.

Também não é o caso de abandoná-lo em sua tristeza. É importante mostrar calmamente seu apoio, sua compreensão, mas aos poucos estimular sua melhora, fazê-lo se mover no seu próprio ritmo lento.

Nossa sociedade atual prioriza o indivíduo produtivo, que passa 24 horas de seu dia fazendo coisas úteis, produzindo e consumindo, alimentando o sistema capitalista. a pessoa com depressão está desligada disso, mas sente essa exigência do mundo. Muitas vezes vi o sentimento de culpa pois a pessoa não conseguia trabalhar como trabalhava, cuidar da família, cumprir suas responsabilidades. Nossa sociedade eliminou a possibilidade de se afastar do mundo, de se recolher e de elaborar sua perda, sua dor. Por isso hoje a procura por terapias mais rápidas aumentou, não há disponibilidade de tempo para si mesmo.

Dar-se um tempo, fisicamente e psicologicamente, se desligar um pouco das exigências do mundo, e poder sentir realmente suas dores, e ter nesse momento alguém que o acompanhe: assim se cria a dignidade de sofrer. Não há  vacina para a depressão, mas há sim a cura, e esta está não só nos remédios, nas terapias, mas em uma mudança social que valorize  vida.