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Desde a faculdade, uma questão que nos incomodava a respeito da natureza era se a bondade ou a maldade humana é somente uma questão social ou se está impregnada em sua estrutura biológica e/ou psicológica. Sobre isso, muitas vezes nos questionávamos se o ser humano poderia ser genuinamente altruísta. Veja por esse ângulo: eu faço o bem a outrem somente pelo amor que tenho pelo outro, ou pelo ganho pessoal que isso pode me trazer, nem que seja status, ou aquele sentimento de estar fazendo o certo. Se for devido a essas últimas opções, então o altruísmo não passa de um egoísmo adaptado à nossa realidade social.

Com o tempo, pudemos perceber que essas questões são capciosas e não levam a lugar algum. Como definir que a ajuda que ofereço é puro sacrifício pessoal ou apenas uma forma de auto-afirmação? Será que as ações não valem mais do que o que elas significam para nós? Importa se eu faço uma doação porque sinto a necessidade de ajudar ou se é para ganhar um like no Facebook?

Entretanto, a Psicanálise possui uma forma de compreender, dentro do desenvolvimento mental, como se desenvolve esse sentimento de altruísmo. Para isso, precisamos compreender um texto de Freud chamado “Dois princípios do funcionamento mental”. Segundo Freud, a mente humana, desde o nascimento, funciona de acordo com o Princípio do Prazer. Segundo esse princípio, a mente visa como regra principal obter o máximo de prazer com o mínimo de custo, e fugir de todo desprazer possível. Assim percebemos, por exemplo, aquela criança tida como “mimada”, que quer tudo o que tem vontade a hora que deseja. Esse estado da mente é original, esse é o egoísmo inerente ao funcionamento mental. Entretanto, essa forma de se comportar da criança sempre vai encontrar frustrações, pois a realidade nunca vai poder dar tudo o que ela quer na hora que ela deseja. Assim, Enquanto cresce, a mente vai aprendendo a tolerar uma parte da frustração, e criar comportamentos substitutivos que possibilitem uma obtenção mais realista de prazer. Assim, ele entra no chamado “Princípio da Realidade”.

Entretanto, estar no Princípio de Realidade não garante que a pessoa passe a ser altruísta. Ela somente fica mais “esperta”, ou seja, aprende que não pode querer tudo, mas sim querer o possível. O que vai mudar esse quadro é quando ela vai aprendendo a diferenciar a si mesma do outro, e criar uma ideia de “alteridade”.

Alteridade significa aquilo que é diferente de si. O outro é uma pessoa diferente de nós, com desejos e ideias que não são as nossas, e que muitas vezes se chocam com as nossas. Como se aprende a ver o outro para além de si mesmo. Para a Psicanálise, o bebê não se diferencia do outro. no início, ele nem tem noção de si mesmo como um indivíduo único, com uma unidade corporal. ele não controla seu corpo, é descoordenado, e não se reconhece no espelho. Experimentos mostram que as crianças se referem à suas imagens no espelho como se fossem outras crianças reais. Posteriormente, conforme percebem sua unidade corporal, também percebem que as pessoas à sua volta são seres independentes de si. Com isso, vamos deixando de buscar o prazer em relação narcísicas (no início, o bebê e a criança buscam prazeres “masturbatórios”, ou seja, autoeróticos, através da estimulação do próprio corpo, não se “preocupando” com o prazer do outro). Aos poucos, ele percebe que seu prazer depende de sua relação com outras pessoas, e aí passa para uma forma de relação chamada de “anaclítica”, ou seja, buscando seres diferentes de si mesmo, muito provavelmente espelhando-se na relação que tinha com seus pais.

Ou seja, durante o desenvolvimento, o ser humano tende do principio do prazer ao de realidade, e de uma relação narcísica para uma relação de alteridade. Mas esse desenvolvimento nunca anula o anterior: ainda somos, no fundo de nós mesmos, obcecados pelo prazer e por nós mesmos. Há um núcleo egoísta nunca completamente ultrapassado. Partindo disso, podemos pensar em uma forma de ultrapassar esse modo individualista de vida que transparece em nossas relações. Uma forma seria, portanto reconhecer essa verdade que a realidade nos ensina: ninguém pode ter todo o prazer que deseja, e não pode tê-lo sozinho. A relação com o outro é necessária e importante, e o prazer compartilhado é mais duradouro que aquele narcísico. Se cada homem conseguir passar por esse desenvolvimento, e se criarmos uma cultura que reforce essa direção, talvez nunca teremos um altruísmo pleno, como aquele das minhas divagações antigas, mas poderemos ter um altruísmo real, que não esquece o berço de egoísmo do qual nasceu.