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Desculpem a demora, mas vamos continuar a falar sobre o que é a vida, segundo o livro do Capra. Segundo ele, para haver vida deve haver três critérios fundamentais:

  • Padrão de organização: Mais do que os materiais que a compõe, o que importa é o padrão de organização dos elementos. Pensem por exemplo em uma cadeira. Ela pode ser feita de vários materiais, e pode ter design diferentes, mas ainda possui um certo padrão comum. O padrão de organização da vida é chamado de autopoiese. a palavra poiese significa criação. Ou seja, os processos que definem a vida são processos de auto-criação. Esse padrão se dá em rede, ou seja, cada componente participa da criação dos outros. a rede de processos celulares, por exemplo, atua na produção de substâncias que vão colaborar para a continuidade dos processos vitais da própria célula;
  • Estrutura: O sistema vivo é composto pelo que se chama estruturas dissipativas. Elas são baseadas na sintropia, a teoria de Prigogine, tal como discutimos no post anterior (para ver, clique aqui). Tais estruturas são fluidas, mais ou menos constantes, e dependem de um constante fluxo de matéria e energia para se manterem. Já ouviram falar que cada célula se reconstrói constantemente, e que renovamos parte dos materiais que compõe nosso corpo? Com o tempo ingerimos água e nutrientes, e eliminamos o que não é mais necessário, as células renovam suas substâncias. é como se cada dia fossemos uma pessoa diferente, mas nossa estrutura se mantém mais ou menos constante.
  • Processo vital: Capra reconhece junto com os teóricos que aborda que a vida, enquanto sistema dinâmico, e um processo de cognição, ou seja, de conhecimento. A cognição e a incorporação de um padrão autopoiético em uma estrutura dissipativa.

Creio que o sentido do que eu disse acima ficou meio complicado. Vamos dar um exemplo. Pegue várias fotos antigas de você, desde bebê até agora. coloque-as em ordem cronológica. Você é um organismo vivo, cresceu muito com o tempo. Mas se olhar bem, notará a permanência de algum padrão. O rosto, por exemplo. Se se lembrar de seu comportamento, vera que mantém alguns trejeitos desde a infância. Como isso acontece? Com o tempo, as moléculas que compunham seu corpo mudaram,e mesmo a organização dele mudou. As mudanças não são totalmente aleatórias, elas seguem um padrão, que não está totalmente pronto desde o início, mas um padrão que se recria com o tempo. É assim também que conhecemos as coisas. Vocês, por exemplo, poderiam ter chegado a esse texto procurando exatamente tais teorias, mas pode ter chegado aqui através de uma série de “acidentes”. Você poderia estar à toa no Facebook, visto algum comentário sobre a postagem e resolvido entrar. Mas isso não e totalmente aleatório, pois esse assunto talvez faça parte dos seus interesses. Você logo se sentiu atraído pelo tema.

Ou seja, há um padrão cognitivo, uma rede de informações que se recria e que a cada momento. Para Capra, baseando-se de cientistas como Maturana e Bateson, a vida é o próprio processo de cognição. Cognição é o processo de conhecimento. Conhecer não é apenas ver um mundo, mas criá-lo. Por exemplo, parem um momento de ler esse texto, olhem em volta e fixem seu olhar em um determinado objeto. Qual é seu tamanho? Você pode comparar as medidas usando uma escala universal, como o metro, ou medi-la comparando com outro objeto, ou com alguma parte de seu corpo, medindo em palmos, por exemplo. O objeto pode ser conhecido, e ter uma função comum (usado para escrever – caneta, para se tomar líquido – um copo, o que quer que seja). quanto mais olhamos para o objeto, vemos que nunca teremos uma visão pura deste, mas que  a percepção dele depende também de nosso corpo, da forma como somos compostos enquanto seres vivos. Temos boa acuidade visual, então nossa percepção desse objeto acaba sendo basicamente visual. a sensação de peso, as cores, a temperatura, tudo, todas as sensações não são objetivas, elas dão mais que o objeto para nós, elas dão também uma noção de como somos. Ou seja, em parte, criamos o objeto. É assim que acontece também no reino animal.

Os filósofos citam como exemplar dessa questão da construção do mundo pelo ser vivo o carrapato. Ele possui órgãos sensoriais para somente três coisas: a variação de luz, a temperatura e o odor do animal. Ele recria um mundo único para sua espécie a partir dessas três sensações. Nada fora disso o afeta (claro que podemos pegá-lo e espremê-lo entre os dedos, mas esse fato não conta diretamente em seu mundo, não existe para seu mundo). ser vivo é cognição, ou seja, nas palavras de Capra, “autogeração e autoperpetuação de redes autopoiéticas”.

Um exemplo: a célula absorve nutrientes e expele toxinas, cria e recria substâncias que lhe são necessárias, readapta-se quando sobre danos, regenera-se quando o dano não é grave, se duplica, e tem certo poder de adaptação a mudanças ambientais. Está ai o que Capra quis dizer nesse trecho.

Compreender a vida dessa maneira é mudar totalmente o paradigma pelo qual compreendemos nossa forma de viver. Somos seres vivos, e estamos, juntos com os outros animais e plantas, conectados a uma gigante rede autopoiética, Gaia. a hipótese Gaia sugere que todos os seres vivos do planeta compõem um ser maior, e que as redes de relações entre todos são responsáveis pela manutenção da vida em todo o planeta. Logo, se Gaia é um Imenso organismo, e o homem poderia ser considerado um tipo de célula inserida nesse processo, só podemos chegar a conclusão de que Gaia está com câncer, e que este somo nós. Crescemos desordenadamente e absorvemos recursos de forma descontrolada, desequilibrando tudo. que essas novas concepções possam servir de aviso a todos, pois assim podemos nos enxergar como parte de todo um conjunto  interdependente entre si.