O Materialismo está Morto.

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(C) Paulo Ferreira, 2012. Todos os direitos reservados.
(Autorizada a publicação, desde que citada a fonte.)

 

Foi Nietzsche, em A Gaia Ciência e depois em seu Assim Falou Zaratustra, de 1883, que cunhou a famosa frase “deus está morto”. Foi mal compreendido, como é tão comum a todos que trazem idéias novas ou as registram em frases emblemáticas como ele fez. Para qualquer um que entenda minimamente o pensamento de Nietzsche, claro está que ele se referia ao deus “pequeno, vingativo e excessivamente humano” ou seja, aquele deus criado pelos homens à imagem e semelhança do homem. Um arquétipo de deus medieval, declarado morto desde o século dezenove – morto para o pensamento, para a relevância, morto para o mundo pensante.

Bem sabemos que mesmo este arquétipo vencido continua ocupando espaço em muitas cabeças mundo afora, mais de um século depois disso tudo. Porque este mundo é muitos mundos, porque a fome de pão e a fome de conhecimento foi sempre o estado no qual se preferiu manter grande parte do povo em nas eras governadas por poucos, aqueles que se aproveitam da fome e da ignorância para manter cativos os homens.

Mas vemos que hoje, no século XXI, este arquétipo morto não fala mais às novas gerações. Estas não se identificam com ele minimamente, não concebem em que cela escura da alma alguém poderia acreditar em tal deus humano e falido. E isso é por demais evidente para merecer muita discussão a respeito – mesmo considerando que há ainda hoje filhos famintos de pão e de luz, vivendo na ignorância professada por seus ancestrais.

Mas há hoje uma nova morte sendo anunciada, insistentemente, ainda parcialmente (e muito intencionalmente) ao largo da devida atenção da grande mídia comercial: A morte do materialismo.

Esta crença na matéria como única realidade; talvez a mais estranha dentre tantas crenças bizarras as quais o homem foi sempre tão pródigo em produzir; ganhou um impulso imenso com a desesperança criada no século marcado por duas guerras mundiais.

 

Alguns anos depois de Nietzsche declarar morto o deus velho, de fato pôde parecer ao mundo que era isto que vinham comprovar todas as catástrofes humanas que assolaram o mundo. Que as duas guerras tenham sido causadas pelo homem, que os dois pontos negros que marcaram a primeira metade do século passado não tenham tido um único componente natural, mas tenham sido orquestrados por homens, pela política dos homens – parece não ter sido um fator forte o suficiente para que os crentes num deus velho e rancoroso vissem, nas duas grandes guerras, o abandono da humanidade por seu deus, aquele literalmente, criado pelos homens.

Estes, a partir de então, abraçaram gradualmente um novo deus, que lhes pareceu vivo e pulsante, que lhes pareceu responder aos anseios do homem. O “deus” que se fez matéria nos melhores anos do sonho americano, logo no pós-guerra: o deus dinheiro, o deus comércio, o deus mercado. Foi este o deus que substituiu no imaginário ocidental o deus que Nietzsche declarou morto. Foi este o deus que nos anos cinqüenta abençoou os baby-boomers e deu aos homens a ilusão de ser infalível, onipresente, onipotente, onisciente. Porque por um tempo, o homem quis crer que, como panacéia perfeita, o deus mercado não tardaria a incluir a todos, distribuir suas benesses a todos; ainda que não igualmente; no que parecia, aos privilegiados, ainda mais uma prova de sua onisciência e infalibilidade.

Um dado momento na história, marcado pelo fim da União Soviética e a queda do Muro de Berlin, pareceu a vitória final àqueles que professaram sua fé no deus mercado. Parecia então que finalmente todo o mundo poderia render-se à mesma crença, de que o capitalismo “justo”e de oportunidades livres traria a resposta, afinal.

No embalo desta fé cega, criou-se um liberalismo desenfreado, que deu aos sacerdotes do deus dinheiro o poder absoluto sobre todas as vidas, produzindo o “milagre” de criar a partir do nada: criar valor a partir do nada, criar dinheiro (mero símbolo, ou signo) a partir de absolutamente nenhuma reserva ou lastro. Pareceu um milagre, e alavancou-se o endividamento de todos por uns poucos, de um modo jamais visto ou vivido antes. Porque, segundo os sacerdotes do deus mercado; era isso que realizaria o paraíso na terra, para todos os homens, ainda que diferindo em termos do próprio merecimento individual. E esta fé foi cega o suficiente, e fez barulho suficiente, para não permitir que nenhuma voz de discordância pudesse ser ouvida por muito tempo.

E talvez tenha sido aí, justamente nesse ponto que parecia ao mesmo tempo o ápice e o início da gloriosa vitória final – que os sacerdotes humanos do deus mercado começaram a plantar as sementes do que viria ser a derrocada da crença dos homens nesse poder milagroso, que produzia valor a partir do nada.

O fruto mais amargo desta fé cega foi a destruição gerada pela grande crise de 2008 – que afundou a economia do mundo, abalou as estruturas de crença nos valores materiais, e expôs, no decorrer de vários anos de crise incessante, o fato de que o rei – no caso, o deus mercado – estava nu. De que não podia sustentar em suas pernas fracas o endividamento que produziu. De que jamais criaria a benesse para todos. Que, ao contrario do que se chegou a acreditar – não podia ser maior que a natureza e a lei da vida – na qual tudo sempre nasce, cresce e chega ao fim.

Hoje, finalmente, resta estabelecido sem a menor sombra de dúvida que o crescimento infinito que seria necessário à manutenção do deus mercado não acontecerá jamais pelas leis deste mesmo mercado.

E uma vez mais a humanidade viu-se despojada de seu falso deus. Mais uma vez viu-se jogada num poço de dúvidas e incertezas, sem um fiel na balança, sem resposta possível. Viu-se envolvida num enorme ponto de interrogação. E ao ouvir os sinais do desmoronamento do deus mercado, ouviu-se, ao mesmo tempo a pergunta, murmurada em todos os cantos do mundo, em milhares de línguas: – Mas… agora, o que?

Agora que o deus mercado está morto, o que? Qual a resposta possível para uma sociedade que, em grande parte, só se lembra de viver sob a regência deste deus mercado, que ora se revela um balão inflado artificialmente, cheio de ar e nada mais?

Ao mesmo tempo em que essa pergunta ecoa por todo o mundo, por todas as cabeças pensantes, estende-se o conceito, porque dá-se conta de que não é apenas o deus mercado que está morto. É mais que isso. É o materialismo (a própria fundação sobre a qual se ergueu à vida o deus mercado) que apodreceu e pende agora, por um fio, seguro apenas pelos anacrônicos, pelos mais teimosos e arraigados passadistas. Porque por mais que esses recusem-se a ver, o fato é por demais claro para ser negado:

O Materialismo está Morto.

Verdade que vinha doente (embora os sinais fossem muito esparsos para serem levados a sério por muitos) desde que Einstein, explicou que a matéria é nada além de energia, e mostrou o quanto a chamada realidade podia ser relativa. A matéria, antes base sólida inquestionável, foi mostrada nua; mais espaço vazio que propriamente “matéria”. Foi provada, pelos mais agnósticos cientistas, composta de energia em movimento por espaços proporcionalmente infinitos. A idéia da solidez da matéria, como elemento constituinte e conceito fundamental, encontrou então o início da lenta espiral descendente; lento caminho de agonizar.

Mais cientistas agnósticos, ateus e materialistas (sim, pergunta-se como…) estudavam, mais provavam para eles mesmos, assim como para um público ocidental cada vez mais atônito, a irrealidade de seus objetos de estudo.

E neste ponto, não vou citar as muitas frases de Einstein, que jamais foi materialista, (chegou a afirmar: “Deus não joga dados com o Universo”). Prefiro antes citar Niels Bohr, outro Nobel de Física: “Tudo a que chamamos real é feito de coisas que não podem ser consideradas reais. Se a mecânica quântica não o chocou profundamente, você ainda não a entendeu.”

Partes fundamentais das teorias modernas que explicam o funcionamento do cosmo indicavam há muito tempo que deveria haver, por exemplo, uma certa partícula que era ao mesmo tempo “existente e não existente”, para tornar possíveis os cálculos da massa do universo. Outra parte fundamental da teoria quântica diz que para que o modelo geral funcione, é indispensável que existam vários universos paralelos, e as linhas mais relevantes neste sentido apontam para a existência de nove ou onze universos paralelos. Sim: quem indica a necessidade desses multiversos para explicar o funcionamento do “nosso” universo são os físicos.

E a o fato de termos encontrado o Bóson de Higgs em 2012 veio colocar o último prego no caixão do materialismo, na medida em que ele comprova partes fundamentais desta mesma teoria que demanda a existência de vários universos paralelos para que o nosso universo sustente-se em existência. Chamou muita atenção o modo como a identificação do Bóson de Higgs foi recebida, por exemplo, por Sri Sri Ravi Shankar, o sábio indiano que fundou a Organização Arte de Viver (Art of Living). Ele explicou, dias após a descoberta, como não apenas a existência da partícula, mas também o fato de que ela seria encontrada pelos sábios modernos, foi prevista há milhares de anos em textos sagrados dos vedas.

Com tudo isso, o materialismo tornou-se hoje pouco mais que uma variação da fé cega pregada pelas velhas religiões do passado: estas, quando pressionadas pela realidade e questionadas, apelavam desavergonhadamente ao Dogma; como se ao homem devesse ser proibido pensar. Apelar ao Dogma foi o que levou a validade da fé cega a ser, justa e impiedosamente, desmantelada pelo materialismo.

Pois igualmente, o materialismo hoje, quando pressionado pela realidade e questionado em relação a seus limites cada vez mais evidentes e arcaicos, apela desavergonhadamente àquilo que chama de “coincidência ou acaso”. E ao apelar deste modo apenas criam sua própria versão de “dogma”, agindo os ditos homens de ciência como numa recusa ao pensar e mesmo a simplesmente reconhecer que há no nosso mundo vários conteúdos e fenômenos que não cabem em suas explicações. Poderiam sair-se decentemente, com uma atitude respeitável e até louvável declarando: minha ciência e meu materialismo não explicam, e pode haver mais do que nos mostra a matéria. Mas a isto, preferem escolher um caminho de ridículo atroz quando alguém que se nomeia pensador “sério” permite-se enfileirar como “necessidades ” a sustentar suas teses, dezenas de coincidências, acasos e acontecimentos fortuitos.

O que é isso senão dar outro nome ao dogma? O que seria isso, senão outra versão da mesma vontade de negar ao homem que questione, o mais amplamente possível, sobre aquilo tudo que ainda não compreende, usando para isso, todas as linhas e todos os meios à disposição, ainda que não sejam os favoritos de alguns?

O materialismo está morto. E como todas as ideias novas, esta afirmação no inicio será ridicularizada. Depois, será veementemente negada e combatida. E por fim será considerada auto-evidente, por homens que se envergonharão de ter defendido por tanto tempo um limite tão precário. Faltam ainda meios para comprovar aquilo que transcendo o material, na maioria dos casos. E isto ainda impede aqueles que precisam de provas materiais.

Mas aqueles que necessitam da prova material para perseguir uma idéia promissora não serão jamais os que mudam o mundo. Os que fazem história serão sempre os capazes de confiar no que lhes diz seu interior e na qualidade de suas abstrações, ao menos o suficiente pra seguir em frente.

Exatamente como Einstein; ao imaginar uma realidade que era completamente incrível para seus contemporâneos, ao permitir-se acreditar no valor de suas abstrações, ao isolar-se do burburinho ignorante que falava de limites fictícios.

O mesmo gênio que advertiu ainda: “A imaginação é mais importante que o conhecimento”.

1 Comment

  1. Muito bom o texto. Falamos demasiadamente sobre matéria e espírito, materialismo e espiritualismo, mas vejo que precisamos nos aprofundar no conceito, e se perguntar o que é a matéria, e o que é o espírito, o que é a energia. Pois, pelo que eu vejo da física, por exemplo o princípio de dualidade onda-partícula, é claro que toda partícula apresenta propriedades ondulatórias (é energia), mas ela não deixa de ter propriedades de partículas. Antes de matarmos o materialismo, precisamos ter o cuidado de não levarmos junto para o caixão a noção de matéria, pois eu vejo que o risco materialista e o risco espiritualista é o mesmo, o conhecimento acaba por tornar-se dogmático. Se a partícula é onda, a onda também é partícula, e é dessa dualidade que temos que trabalhar.

    Falo isso pois vejo o mesmo dilema na psicologia. A mente é o cérebro, ou é o espírito? Adotar plenamente uma das respostas é negar que a mente é ambígua, tem características materiais e espirituais. Descartes já tinha se deparado com essa dificuldade, e até hoje ela não possui solução plena.

    Mas textos assim nos ajudam a refletir, e a manter o pensamento em movimento.

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