O “Eu” é um “Outro”

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Dr. Jekyll and Mr. Hyde: o outro dentro de si mesmo

A Psicologia do desenvolvimento trouxe para a ciência psicológica grandes descobertas sobre o que é o sujeito, isso que nos faz ser mais do que uma massa de células andando no mundo. Uma das características dos homens é a consciência de si, ou seja, o fato de termos noção de que somos um indivíduo, temos um corpo unificado, temos dentro de nós pensamentos e sentimentos que só podem ser acessados por outras pessoas caso falemos deles.

O que acabei de dizer soa tão óbvio. Como podemos não saber quem somos de verdade? Ora, a psicopatologia nos dá essa resposta. As doenças mentais são uma forma de desequilíbrio ou desvio das funções que normalmente temos, que não se desenvolveram completamente ou voltaram a um estágio primitivo. Os chamados “loucos”, que há algum tempo atrás eram encarcerados nos hospitais psiquiátricos (que graças aos movimentos anti-hospitalização passaram a conviver novamente em sociedade, podendo ter um tratamento mais digno) mostram o quanto que a consciência de si nõ é óbvia, mas se desenvolve com o crescimento do bebê e pode sofrer alterações.

Vejamos os casos de síndrome de heminegligência, onde a pessoa, por lesão em uma área específica do cérebro, deixa de reconhecer a metade oposta de seu corpo. Por exemplo, essa pessoa se esquece que tem braços e pernas esquerdos. O corpo é uma parte disso que chamamos de consciência de si, pois, ao nos movermos, temos desde já a idéia de que é nosso braço que está pegando o copo de água, pois somos nós que temos sede. No livro “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” (leia aqui), do neuropsicólogo Oliver Sacks, ele relata em um dos casos do livro um homem hospitalizado, que acorda no meio da madrugada assustado, e diz a enfermeira que alguém, tentando tirar sarro com a cara dele, colocou em sua cama a perna de um cadáver. Ao mostrar a perna para a enfermeira, ele a pega e a joga para fora da cama, e acaba caindo da maca. Isso, porque a perna não era de um cadáver, mas a sua própria.

Outros fenômenos mostram o quanto não temos, ao nascer, a noção de que somos nós mesmos. De acordo com psicólogos como Wallon, Lacan, e também do filósofo Merleau-Ponty, o bebê passa, a partir dos 6 meses de idade, do chamado estádio do espelho. Nessa época, o bebê se impressiona muito ao ver sua imagem no espelho. Como dizem algumas pesquisas, poucos são os animais com capacidade para se reconhecer no espelho: a maioria quando olha a imagem acha que é outro animal (como quando se coloca um espelho perto do coitado do peixe beta, quem teve já fez isso hehehe).

Aos poucos, o bebê vai aprendendo que aquela imagem nada mais é do que ele mesmo. Mas isso não é uma compreensão do pensamento. O que ele forma é uma imagem de si, de que tem um corpo unificado. Os bebês humanos, diferentes dos outros animais,   quando nasce demoram muito para serem independentes, andarem e buscarem o seio da mãe por conta própria. Eles são totalmente dependentes. Diz-se que, como seus corpos não amadureceram, eles não conseguem se ver como um indivíduo unificado, e só com dificuldade vão aprendendo a mover seus membros para que façam sua vontade.

Qual é a implicação desse desenvolvimento? O que os  psicólogos afirmam é que o bebê, como precisa de uma imagem externa para saber que é (e não só a do espelho, mas a imagem dos pais e outras pessoas), é de fora que ele aprende a ser quem é. Ou seja, o “eu”, não é algo que vem de dentro, mas é aprendido, pela incorporação dos comportamentos, valores, linguagem e cultura dos outros. Não é a toa que é através dos pais que os bebês adquirem sua personalidade.

Assim, conhecer o mundo à sua volta é uma das pistas para o “conhece-te a ti mesmo”.

 

 

 

 

 

 

 

1 Comment

  1. Excelente comentário!
    A auto-percepção é algo aprendido ao longo de desenvolvimento da criatura e pode ser alterado por alguma patologia no decorrer da vida.

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