0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Email -- Filament.io 0 Flares ×

urna-eletronicaPor Paulo Ferreira

Na nova corrida eleitoral que se iniciou após a morte de Eduardo Campos; um tema recorrente tem sido o Estado Laico. Com Marina Silva declaradamente evangélica, o assunto ganhou contornos de uma relevância que não se suspeitaria antes. Isso deveria nos levar a outras perguntas, sobre as posições dos outros candidatos; no mínimo por uma questão de legitimar o debate.

Embora Dilma e Aécio não façam bandeira de suas convicções religiosas, convém analisar ao menos as posições recentes dos três candidatos com chances no pleito.

Sobre Marina Silva, é clara e pública sua posição como evangélica. É interessante notar que Marina foi católica, antes de tornar-se evangélica. Foi PT, e foi PV, antes de tentar fundar a Rede Sustentabilidade, partido que teve sua criação impedida numa pantomima ridícula orquestrada por alguns que talvez temessem os famosos 20 milhões de votos de Marina na última eleição. Finalmente, ela filiou-se ao PSB para concorrer como vice. Mas a vida, o destino ou o “acaso”; como prefiram chamar, encarregou-se de reconduzi-la à disputa presidencial. Vale lembrar que Eduardo Campos era católico praticante, e aparentemente, fervoroso. O que não impediu que a aliança acontecesse. Aliás, as diferenças entre as idéias de Campos e Marina; muitas vezes apontadas como “problemáticas”, pareciam indicar uma capacidade de composição e flexibilidade interessante da parte de alguém freqüentemente taxada de “inflexível”. Talvez aquilo que a cultura “do jeitinho” e a política brasileira chame de inflexibilidade seja, afinal, mais uma questão de clareza e solidez. Mas isso, só vamos efetivamente descobrir quando Marina exercer um alto cargo executivo. O que resta lembrar é que as suas convicções sempre estiveram expostas e publicamente abertas às observações e críticas de todos.

O caso de Dilma é bastante oposto. Seguindo a cartilha básica da esquerda revolucionária dos anos sessenta, seria adepta do pensamento ateu. Se é difícil tratar de questões de foro íntimo não assumidas com clareza; é bastante fácil comentar as suas ações externas. Dilma resolveu comparecer à inauguração do templo da igreja universal. Interessante perguntar se compareceria também à inauguração de um grande templo budista, ou a um grande centro espírita. Será? Dilma compareceu por convicção pessoal? Isso seria completamente fora de seus padrões históricos de esquerda. Ou teria comparecido apenas porque o evento aconteceu no calor da corrida eleitoral? Nesse caso, talvez pudéssemos entender que a candidata sente-se perfeitamente à vontade para usar a religião como alavanca eleitoral. Bastante à vontade para subordinar qualquer convicção ao interesse dos fins. Neste caso, não se poderia dizer que não há coerência com seu modo de ação costumeiro. Mas assumir proximidade (seja eleitoreira, ou não, julgue o leitor o que poderia ser-lhe mais incômodo) com a mais controversa entre as grandes igrejas evangélicas talvez não ajude a convencer milhões de brasileiros de que ela tenha convicções suficientes para manter o Estado isento de influências de interesse religioso. Há uma frase dela a respeito de crenças, dita à Folha na ocasião da última campanha eleitoral. É bastante emblemática do estilo de discurso que a caracteriza: “Fiquei durante muito tempo meio descrente. Acredito que as diferentes religiosidades são fundamentais para as pessoas viverem. A gente não pode achar que existe ‘aquele seu Deus”. Eu me equilibro nessa questão. Será que há? Será que não há? Eu me equilibro nela.”

E Aécio? Declara-se católico; talvez mais por tradição familiar, e parece não ter grande intimidade com o assunto. Já foi fotografado discursando em eventos da Maçonaria e não esteve na inauguração do templo da igreja universal. Consta que Aécio e Campos não foram convidados. O governador Alkmin, nome aliado a Aécio em SP, entretanto, esteve (ao lado do prefeito Petista da cidade). Pelo menos superficialmente, religião parece não ter grande papel no discurso de Aécio; o que talvez fizesse dele uma opção interessante para aqueles que preferem evitar qualquer proximidade entre as igrejas e Estado. Mas, não esqueçamos, estamos no Brasil. Nunca vou esquecer da pergunta que destruiu a eleição, dada como certa, de Fernando Henrique Cardoso à prefeitura de S. Paulo. A pergunta foi: “O senhor acredita em Deus?”. Famoso por suas convicções contrárias à idéia, FHC entrou na saia justa e perdeu a eleição municipal naquela resposta.

Claro, isso foi na década de 80, e hoje o país é outro. Os tempos são outros; a religiosidade é outra e a importância que o fator ganhou nessas eleições talvez fosse impossível de se imaginar há alguns meses.

Enfim, parece que nas próximas eleições vamos descobrir o que prefere o eleitor brasileiro; entre uma candidata abertamente evangélica; uma candidata provavelmente atéia que vai à igreja universal e um candidato que talvez prefira ficar em cima do muro e evitar o assunto.