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A amputação de um membro é, para o sujeito, ocasião de grandes mudanças, dores e tristezas. Se o corpo é o templo do indivíduo (mesmo que esse não cuide dele), grandes mudanças em seu formato e em suas potencialidades, quando ocorrem repentinamente, trazem grandes modificações psíquicas. Mas um fenômeno interessante, que acontece em inúmeros casos, é o surgimento do membro fantasma, isto é, a pessoa amputada sente dores e outras sensações no membro que não existe mais. Meses depois. alguns pacientes possuem dores crônicas e podem descrever tais dores com exatidão, localizando-a como se seu membro ainda estivesse ali.

É claro que há uma base neural para essas dores. O cérebro recebe dos nervos seccionados do membro estimulações que trazem a sensação do membro ausente, e a secção destes nervos leva ao desaparecimento do membro fantasma. Mas o que é interessante é que há casos em que uma terapia psicológica trouxe os mesmos resultados, fazendo desaparecer a dor. O que quero dizer não é somente que a terapia psicológica interfere nos circuitos neurais, o que é óbvio. Mas que a dor não é somente um problema do corpo, ela possui um sentido na vida do paciente. Esse sentido é o que o paciente encontra no processo de terapia, e que leva a uma mudança da visão que ele possui de seu próprio corpo. O comum é auxiliar o paciente a compreender internamente a perda do membro, e aceita sua nova situação.

Claro que a secção do nervo é uma solução mais rápida na solução do problema, mas ela deixa de lado toda a existência da pessoa, que foi grandemente modificada. Além disso, o membro fantasma não é de todo ruim. Como ele é a permanência da imagem que a pessoa tinha de si mesma antes da perda, ela auxilia o amputado quando este tem de se adaptar a próteses. É como se o corpo encontrasse na prótese um substituto, e é mais fácil a adaptação à prótese quando o paciente ainda possui o membro fantasma.

Esses fenômenos devem ser compreendidos como algo que ocorre nem no corpo nem na mente, mas na mistura entre os dois.