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Oi, resolvi hoje publicar um relato de experiência, partindo do fato de que estou sem internet no meu smartphone. Antes, quero falar um pouco sobre compulsão.

Nos dias atuais estamos passando por uma grande mudança nas formas como as pessoas são afetadas psiquicamente pela modernidade. No século XIX e início do século XX, por exemplo, na sociedade de Viena, Áustria, Freud tratou de vários casos de neuróticos, principalmente histéricas. A histeria era tratada e pesquisada amplamente na Europa, e consistia de diversos sintomas nos quais, principalmente mulheres, sofriam repentinas mudanças comportamentais, como paralisias, afonias (perda da fala), cegueiras psíquicas, convulsões, etc. De acordo com Freud, tais sintomas referiam-se a uma forma do mecanismo psíquico dar conta de “instintos” sexuais reprimidos, e que buscavam sua expressão, mas eram desviados de seu objetivo sexual primeiro, e direcionados a um sintoma patológico. Por exemplo, ele relata o caso de uma mulher que, no decurso de sua doença, não conseguia mais beber água nem nenhum outro líquido, e passou muito tempo se hidratando somente com frutas. Através da hipnose, descobriu-se que a paciente havia tornado inconsciente uma lembrança, quando viu uma empregada dar de beber a um cachorro água, e acho que ela usou uma caneca que seu pai utilizava. A paciente tinha uma forte tensão sexual com o pai (Complexo de Édipo – Todo indivíduo, quando bebê, desenvolve uma afeição muito grande, que se liga às energias sexuais, com um dos pais, e sente o outro como rival desse amor). quando ele a faz relembrar essa cena, ela perde esse sintoma imediatamente.

Devemos ponderar que, mesmo que a mente funcione de forma mais ou menos parecida para “todos”, a época em que vivemos modifica a forma como nos consideramos saudáveis ou como ficamos doentes. Hoje em dia não se vê tão facilmente esse tipo de sintoma histérico. Entretanto, outros sintomas apareceram e se tornaram questões de saúde. Podemos falar aqui por exemplo dos transtornos de alteração do comportamento voluntário, ou de controle dos impulsos.

Todo ser humano possui determinada forma de impulsividade, ou seja, de comportamentos e reações rápidas, sem ou com pouco planejamento e pobre avaliação das consequências futuras. Sabe quando você passa por uma vitrine e vê aquele objeto que você mais gostaria de ter, em uma “promoção” (daquelas que só te enganam…), e você, sem pensar nas contas que tem para pagar e sem nem mesmo pensar se poderia ou não esperar um pouco, acaba comprando e parcelando em muitas prestações algo que, no fim, acaba encostado no canto? Pois bem, se você já fez isso (e creio que uma vez na vida pelo menos todo mundo fez), você foi impulsivo.

Isso é uma doença? Não, é normal certa impulsividade no comportamento. Parte das ousadias e revoluções começaram de algum ato impulsivo, e muitas mudanças boas se iniciaram assim. Mas quando o impulso passa a dominar sua vida, e você não consegue se controlar, a questão fica mais complicada. Vários transtornos estão relacionados e essas alterações da vontade (da avaliação e do planejamento do comportamento a ser adotado). Aqui vai uma listinha:

– Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC). Para quem não conhece, é só ver o filme “Melhor impossível”, ótimo filme em que Jack Nicholson interpreta um escritor com TOC. Pessoas com esse transtorno não conseguem evitar de realizar comportamentos que a maioria considera estranho, e se sentem muito angustiados se algo os impede disso. Eles podem ser extremamente preocupados com a limpeza, ou são “Acumuladores” (no canal Discovery passa uma série sobre essa doença, com esse mesmo nome, muito interessante), tem tiques como conferir a fechadura da porta 5 vezes, seguem rituais para coisas simples do dia a dia, etc.

– Transtornos alimentares: Anorexia (a pessoa não sente fome, evita comer, toma laxantes, e sempre se vê como estando gorda, mesmo que esteja esquelética), Bulimia (tem episódios de comer compulsivo, e depois vomita ou toma laxantes), Vigorexia (compulsão por exercícios, a pessoa pratica excessivamente e chega a ter graves problemas pelo excesso).

– Adições: Aqui se encontra a toxicomania (uso e abuso de álcool e drogas), piromania (impulso por mexer com fogo, queimar as coisas), e todo tipo de ato compulsivo, como comprar, jogar, fazer sexo, e até o uso da internet.

– Parafilias: era o que chamávamos de comportamento perverso, ou seja, a restrição de uma forma específica de obter satisfação sexual, geralmente diferente do que é normalmente aceito na sociedade. Aqui entram o sadomasoquismo (prazer sexual exclusivamente através da agressão – sadismo – ou do apanhar – masoquismo), fetichismo (determinado objeto ou situação se torna essencial na obtenção do prazer, como o fetiche por sapatos, roupas, lugares públicos, entre inúmeros outros), pedofilia (desejo por crianças e adolescentes), entre outros. A questão de tratar esses comportamentos como doença é complicada. Há situações definidas como ilegais por lei, como a pedofilia, mas a maioria desses comportamentos são aceitos de dose moderada pelas pessoas em geral (um tapinha na hora do sexo, o uso de uma fantasia sexual). E mesmo que uma pessoa somente tenha satisfação sexual através de um fetiche, por exemplo, se ela estiver de bem consigo mesma e isso não for prejudicial a ninguém, não há porque chamá-la de doente.

– Transtornos de tique: Quando o indivíduo tem ações involuntárias, como piscar o olho, ou mexer os braços de determinada maneira. Alguns tem fundamentação biológica comprovada, como a síndrome de Tourette (tem um filme bonitinho sobre isso, o “a menina no país das maravilhas”, vale a pena das uma olhada).

Bom, sei que até agora não teve nenhum relato de experiência… me desculpem. Mas eu achei importante mostrar essas doenças, pois muitas delas, como a adição, são problemas de saúde muito graves, e em parte acabam por se misturar a um dos efeitos do nosso sistema social. Por exemplo, que economia não gosta de compradores compulsivos? A dívida é uma forma de controle social, e essas pessoas são altamente controladas, pois se endividam facilmente. E é aí que posso começar meu relato, falando de adição e de meu contato com o smartphone. Mas vou deixar isso para o próximo post!

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