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Estava passando pelo corredor de meu apartamento e levei um baita susto, olhei de lado, para o espelho no fundo do corredor, e vi uma sombra. Pela posição, a sombra parecia ser de alguém vindo do quarto, mas na verdade era somente minha sombra, que no jogo de posições do espelho ganhou, por um momento, vida própria.

 É incrível a vivacidade psicológica que nossa imagem especular e nossa sombra possuem. Quando somos bebês, vêmo-nos no espelho quase que como os animais: a imagem parece ser outra pessoa. Entretanto, há uma enorme diferença entre o bebê e o animal, pois este se sente muito feliz ao brincar com sua imagem no espelho. Esta lhe desperta grande interesse, ele ri, toca a imagem com a mão, e com o tempo tenta buscar a pessoa que está ali atrás.
Psicologicamente, dizemos que a criança está no estádio do espelho. Ele está aprendendo que possui um corpo completo, que pode ser visto pelo outro. Ao mesmo tempo que aprende a ser ver completo, ele vai entendendo que existem outras pessoas, diferente dela, e que podem ver seu corpo de uma posição diferente da sua.
Aos poucos, adquirimos um saber que se torna racional, de que a imagem é uma ilusão, e que só existe na superfície do espelho.
Só que nunca nos tornamos totalmente racionais, felizmente. Nossa imagem e nossa sombra carregam um imaginário e um sentimento forte, são quase independentes, são quase um parte de nós fora de nós mesmos. Isso é mostrado pelas diversas fábulas e fantasias de um mundo dentro do espelho, as imagens de terror de nossa imagem se movendo sozinha, etc.
Ver a si mesmo no espelho significa, na filosofia de Merleau-Ponty, que temos um sentimento de união com o mundo profunda. Só nos completamos no mundo, e esse circuito nunca termina.