Mais além do projeto “cura gay”: O que se esconde atrás disso?

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Creio que o mais importante é fugir das mídias quando se quer debater um tema de interesse humano ou que gere muita polêmica. No caso da mal-fadada “cura gay”, muito se diz, e a televisão e a internet sambam em cima da notícia, que, no clima atual, dá ibope. Marcos Feliciano, essa mistura de político e religioso, suas várias cenas e discussões acerca da sua posição frente ao fenômeno da Homossexualidade, geram inúmeros discursos, na sua maioria irrefletidos, com base em dados indiretos, distorcidos pelas mídias.

Já não sei mais de onde parte as distorções midiáticas: se é das grandes empresas, que “criam” informações vendáveis, ou se da mídia que eu chamaria de paralela, hoje na verdade dominante, que é aquela que percorre a internet, e que cada vez mais ganha espaço na vida das pessoas.
Assim, o que se chama “cura gay” se torna uma hidra de diversas cabeças.

Prefiro, então, recorrer a fonte, ou seja, às palavras de Marco Feliciano acerca do projeto. Assim, assistam primeiro o vídeo, antes de iniciarmos a discussão:

Cremos aí que, diferente de outros momentos, como o debate sobre sua opinião acerca da homossexualidade tal como dita em sua entrevista com Marília Gabriela. Esta havia se tornado uma discussão com um geneticista, e que o objetivo era mais um descreditar o outro, mas nesse vídeo ele mostra-se mais ponderado, e utiliza-se de registros videográficos das sessões no congresso para comprovar suas falas. Até aí, vemos uma discussão saudável, buscando esclarecer pontos importantes.

Entretanto, temos de nos aprofundar na contextualização do tema. Como Feliciano diz, a demanda de mudança da lei partiu da reclamação de psicólogos cassados, com base na Resolução n°001/1999 do CFP (Conselho Federal de Psicologia). Discute mais especificamente o Parágrafo único do artigo 3°, que transcrevo abaixo:

“Art. 3° Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.”

“Parágrafo Único – Os Psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.”

Agora vamos ao argumento de Feliciano sobre o porque esse parágrafo único deve ser eliminado:

“O psicólogo, ele é um profissional da área da saúde que estuda a mente, isso tá sempre em evolução, aqui tá proibindo o psicólogo de propor tratamento, ou seja, o psicólogo não pode mais estudar”.

Ora, Vemos aí uma primeira incongruência. Em primeiro lugar, fazer pesquisa e realizar tratamento não são sinônimos. a pesquisa sobre a homossexualidade e sobre o homoerotismo é ampla, fecunda, e acontece pelas maiores universidades brasileiras e mundiais. Creio que Feliciano trata da questão da pesquisa clínica, ou da pesquisa de uma temática específica, que seria, na minha opinião, a do pesquisador que ainda se questiona se a homossexualidade é patológica, ou se há possibilidade de reversão da orientação da homossexualidade. Bom, esse tipo de pesquisa não é um “desenvolvimento”, como ele propõe ser o importante da ciência da mente, mas um retrocesso, haja vista que muitos estudos visando a reversão da sexualidade já foram realizados, e que não conseguiram resultados satisfatórios.

Logo depois, aparece uma fala da psicóloga Marisa Lobo, acusada de promover a cura gay. Gostaria agora de continuar a falar de Feliciano, mas terei que fazer um desvio aqui. Não sou político, sou psicólogo. Assim, creio que o objetivo maior da discussão é verificar se o estudo ou a proposta de tratamento da mudança da orientação sexual é algo válido. Acabei, agora, em minhas pesquisas, me deparando com o blog de Mariza Lobo (para ler, clique aqui), ao defender sua luta política pela retirada do Parágro único (não faz mais sentido aqui chamar isso de “cura gay”).

Ela se apóia em muitas das discussões mais atuais sobre a homossexualidade, que traduzo nestas perguntas:

1. A homossexualidade é genética, ou influencia do ambiente?
2. Existe, aum dualidade na orientação (Homossexual X Heterossexual) ou uma escala graduada entre ambos?
3. Existe “escolha” da orientação sexual?

É difícil discutir isso dentro da Psicologia, pois suas várias abordagens não geram opiniões claras a respeito. O que podemos dizer é quais são as tendências da Psicologia sobre isso:

1. Há pesquisas que mostram componentes genéticos, mas não há uma conclusão certa sobre isso. Na verdade, tudo tem uma base genética, afinal somos corpo, mas isso não significa inatismo, ou seja, que tudo aquilo que somos está escrito no gene. A questão é bem mais complexa;

2. A experiência mostra que toda definição acerca da homossexualidade é restritiva, pois não abarca todo o espectro de fenômenos possíveis. Há definições, mas naturalmente estas são limitadas. Existe muito mais além da heterossexualidade e da homossexualidade;

3. O termo escolha é complexo também. Requer uma discussão sobre a questão da liberdade. Nós homens somos totalmente livres para escolher? Temos como conscientemente optar por algo, sem que o ambiente ou nossa história de vida nos influencie em uma direção específica? Acho complexo falar disso hoje, nem mesmo as correntes de pensamento existencialista, focadas na liberdade absoluta do homem, chegam a falar de uma escolha absoluta, consciente, sem influências externas.

Bom, essa é a opinião, creio de Marisa Lobo: A sexualidade se forma conforme as vivências pessoais, emocionais, no decorrer da vida. Até aí
tudo bem, temos bases de pesquisa sobre isso. também diz que a sexualidade pode gerar conflitos, que trazem sofrimento ao sujeito. Até aí, estamos no campo da obviedade psicológica, todos os que trabalham na clínica se deparam com isso. Aí ela afirma:

“Principalmente por não ser considerada doença e sim orientação, condição e ou opção conforme nos ensina a psicologia, e não ser intelectualmente incapacitante falando, é que todo cidadão pode decidir por si próprio”.

Aí o que ela quer dizer: O homossexual não é alguém que não consegue pensar, ele pode sim decidir-se por não querer mais ser gay.

Para te falar a verdade, eu acredito sim na existência do ex-gay. Sei que isso choca, mas penso que não podemos desconsiderar o fenômeno. Já recomendei outras vezes o texto de Eve Sedgwick, resumido por ela no presente artigo (para ler, clique aqui). Ela disse que temos a ideia de que o gay sempre foi gay, mesmo quando antes teve um relacionamento heterossexual satisfatório, e que depois passa a ser homossexual. Bom, o que imaginamos é que a decisão da sexualidade é se dá desde o início, e que nunca mais pode ser mudada. Assim, o hetero que “sai do armário” revela algo que tinha desde seu nascimento ou infância. Com isso, tornamos toda sua vida heterossexual uma mentira, mesmo que ele tenha sido feliz nela, por algum tempo.

O que a Teoria Queer diz é que não há definidores de gênero ou de orientação que sejam eternos, ou que não dependam da vida emocional e social do sujeito. Essa é uma ideia que chamamos de identitária, como se o sujeito nascesse pronto. Sabe, quando dizemos assim: EU sou X, Y, Z… Estou dizendo o que sou, e que não posso mudar. O que a Psicologia mostra é que tudo, de certa forma, muda, há sim traços mais ou menos constantes, mas nada garante que sejam eternos pois, afinal de contas, o ser humano não é eterno…

Assim, se há héterossexuais que se tornam gays em algum momento da vida, podem então gays tornarem-se heteros. O que Marco Feliciano diz, o que Marisa Lobo diz, não é tão estranho dentro do debate psicológico. Não digo que estão certos, mas que sua discussão remete a questões em pauta na Psicologia.

Aí é que entra a política, que havia abandonado lá atrás…

Voltamos ao vídeo. Novamente Feliciano diz que o paágrafo único impede que tentemos compreender o fenômeno da homossexualidade. Mentira. Muito se publica e se estuda sobre a homossexualidade, sem que se proponha a cura da homossexualidade. Ele coloca que o parágrafo fere direitos do profissional. Mas qual direito? Bom, o “parágrafo maldito” (sic) fala sim de cura da homossexualidade, proibindo-a. Aí vem a frase que considero o nó da lógica de Feliciano:

“Uma vez arrancando ele, desaparece a palavra cura de gays, uma vez arrancando ele, dá liberdade para que profissionais da área da mente, como psicólogos, psiquiatras, psicanalistas continuem estudando, até que se chegue a um denominador comum, porque a ciência não descobriu o gene gay, a pessoa não nasce assim, …”

Ora, liberdade para o estuda da homossexualidade já existe. Psicanalistas buscam definir como se forma a estrutura da orientação homossexual, sem necessitar de falar em “cura”. Há pesquisas sobre a vida, o relacionamento, o preconceito, a adoção, etc, todas não impedidas pelo Parágrafo único. Afinal, o que é que está impedido de ser estudado, e que Feliciano diz que necessita chegar a um “consenso”?

Essa questão se repete:

“nós não estamos falando de tratamento disso e daquilo, estamos falando do profissional que tem o direito de estudar esse assunto”.

Bom caro Feliciano, ninguém foi cassado por estudar a homossexualidade. Até hoje. Conheço grupos de pesquisas importantíssimos nas universidades brasileiras só sobre esse tema. A teoria queer, citada por Marisa Lobo, é uma das grandes correntes. Temos os trabalhos sobre gênero da grande Judith Butler. No Brasil, temos Guacira Lopes Louro, Com temas essenciais para a Psicologia sobre o fenômeno da Homossexualidade. Ninguém foi alvo de ataque ou preconceito, ninguém foi acusado de homofobia.

Logo depois ele ataca o artigo 4º, que fala que o psicólogo, não se pronunciará em meios de comunicação de modo a reforçar os preconceitos sociais já existentes. Segundo Feliciano, isso fere a Constituição Federal, pois impede o direito de expressão. Aí fica mais clara a questão de Feliciano, mesmo que ele não coloque em claras palavras. Para ele, o que não está como consenso é se a Homossexualidade é patologia ou não, e se deve ser tratada ou não. Os artigos impediriam qualquer questionamento nesse sentido.

Depois disso, vemos a justificativa dele, muito semelhante a de Marisa Lobo. Feliciano teria sido um bode expiatório do governo, distraindo a atenção do povo em relação as dificuldades que o país enfrenta, e Marisa relata que a ausação de homofobia a ela dirigida inclui uma “cristofobia”, termo por ela utilizado para se referir a um sentimento preconceituoso contra evangélicos.

Bom, Não tenho nada a dizer sobre isso, é opinião dele e direito dele sentir-se perseguido. Isso desvia-nos da questão, coloca que o o projeto, sendo divulgado erroneamente, seria somente uma artimanha para colocá-lo no centro das atenções. Mais do que isso, o projeto existe, está tramitando, e possui vínculos ideológicos a serem analisados.

O que mais me irrita é o argumento de Feliciano, que diz que é o CFP que fala de “cura gay”. Claro, devido ao histórico de pesquisas que a psicologia possui nesse sentido, buscando uma cura da homossexualidade, é necessário regulamentações que inibam a propagação desse tipo de pesquisa, cujo fundo ideológico é claro. Eliminar a frase “cura gay” da Resolução é abrir espaço para que ela floresça em outros discursos.

O que coroa nossa discussão é a frase desnecessária e totalmente irreal de Silas Malafaia:

“isto é, se um paciente tiver conflito acerca da homossexualidade e procurar o terapeuta, ‘meu filho, assuma’, ‘mas eu não quero’, ‘se vira, não posso falar nada'”.

Essa frase em si mostra o quão está Malafaia e Feliciano descontextualizados da prática terapêutica. NENHUM HOMOSSEXUAL COM CONFLITO SOBRE SUA HOMOSSEXUALIDADE TEM TERAPIA NEGADA. Só se o tal psicólogo tiver uma formação péssima faria isso. Todos são ouvidos e tratados segundo sua queixa. a questão é que psicologia não se trata de “Não gosto desse comportamento, tire ele de mim!”. O Psicólogo atua no sentido de fazer a pessoa compreender seu sofrimento, entender como ele se insere em sua vida, para que este possa ter um alívio da angústia e uma maior capacidade de estruturar sua vida conforme deseja. Se, no decorrer do tratamento, o paciente mudar sua orientação sexual, isso decorre da reestruturação que ele mesmo faz de sua vida, e não de um “poder” do terapeuta em mudar algo nele. Não é necessário atuar no sentido de eliminar um comportamento que trás sofrimento. Melhor se faz em compreendê-lo. Nunca se nega tratamento a aqueles que querem deixar de ser homossexuais, como também nunca se diz para a pessoa assumir sua sexualidade. Isso é opinião ideológica do terapeuta. O que se faz é ouvir, buscar um sentido sobre o conflito, sobre o que está por trás da queixa “não quero ser gay”. Nada disso está proibido pelo Parágrafo único.

Bom, concluindo, podemos dizer que NADA nessa discussão entre políticos, mídia e povo realmente trata da Psicologia ou da Orientação Sexual. A questão basal aqui é a briga ideológica, a fina malha de poderes que se articulam na tentativa de controlar as massas, cujo muitos foram privados de educação para desenvolver uma reflexão crítica do assunto. Deixo claro que aqui minha opinião: Nada disso esclarece a oppulação sobre os reais problemas que nos aflige. Resumo aqui alguns pontos:

1. Com a falta de um controle crítico social, com as distorções da mídia e as posições incertas que a internet propaga sobre essas questões, as ideologias passam ocultas, mas intensas e influentes em nossa vida. Preconceitos, como negados por Feliciano sobre o projeto, passam como cordeiros, e a militância, sentindo-se ferida, também ataca, generalizando e criando demônios pessoais a serem enfrentados.

2. Realmente nada está decidido e plenamente estabelecido na questão da Orientação Homossexual. Na verdade, essa é a situação de toda ciência. A questão é que isso não pode servir de argumento para se estabelecer uma política que abra espaço para uma ideologia homofóbica, existente desde muito na civilização ocidental, e que consciente ou inconscientemente guia muitos em suas decisões, por mais que estes busquem apoio nos conhecimentos científicos. O que a resolução faz é impedir que determinadas ideologias ganhem proporção dentro dos estudos científicos.

3. a Psicóloga Marisa Lobo, a única que vi da área que defende publicamente o projeto, deveria debater dentro da comunidade psicológica sobre o assunto. Ela ainda é psicóloga mesmo sem CRP, pode falar e discutir na universidade. Pode sim defender seu ponto de vista. Se realmente há alguma base no que ela defende, ela conseguirá levar adiante suas pesquisas. Não precisa buscar apoio na legislação, defenda na academia seu ponto de vista, e se ele for importante por si só ganhará espaço de discussão. Ela claramente apóia medidas contra a regulamentação legal dos relacionamentos homossexuais, deixa clara suas opiniões no blog. Vamos ser claros, ela quer ter liberdade para seguir o que sua ideologia prega, e se quer atuar como psicóloga, tem que discutir isso com psicólogos, e não somente em programas televisivos. Não sei, mas me pergunto: la vai em congressos, publica artigos com o tema? Se quer liberdade para estudar, porque não vemos tais produtos de pesquisa em um debate saudável? Isso porque ainda não questionei sobre o estudo das conexões entre psicologia e religião, claramente fortes nesse caso.

4. Já adianto que um dos termos usados por muitos para defender a cura de homossexuais é a egodistonia. Não vou falar agora sobe isso, mas quem quiser dê uma pesquisada e vejam sua opinião sobre.

1 Comment

  1. Muito bem escrito.

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