Espiritismo e psicanálise

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Email -- Filament.io 0 Flares ×

Salvador Dali

O que venho escrever aqui é mais uma reflexão, uma especulação, do que um conceito estruturado e pesquisado pela ciência… estou viajando, se é que me entendem… O que me leva a pensar nisso é um fato (vou mudar a história de forma a guardar a identidade dos envolvidos) que ouvi há muito tempo, sobre uma mulher cliente de minha mãe, que trabalhou na área de estética. Era uma senhora espírita, casada e com uma filha única. Sua personalidade era um tanto narcísica, ou seja, ela tinha uma demasiada atenção voltada para si mesma, sua superioridade e seus prazeres. Mantinha em seu casamento uma relação na qual o marido permanecia submisso e este sofria as ofensas e descasos da mulher. Entretanto, ambos os pais eram de certa forma submissos à filha, que tinha um gênio dominador e enfrentava a mãe constantemente. Já o pai sempre satisfazia os desejos dessa.

O caso aqui é que a mãe sempre se queixou da incompatibilidade de gênio entre ela e a filha. Frequantando sessões de regressão, ela descobriu que, em suas vidas passadas, ela e a filha haviam sido rivais por um mesmo homem, e que o “carma” delas nessa vida era de terem de ser mãe e filha, e aprender a superar essa rivalidade existencial.

Ora, vamos deixar as explicações religiosas de lado por um minuto, e vamos nos atentar a vida atual dessas pessoas. Temos aqui um triângulo familiar: pai, mãe e filha. Segundo a psicanálise e sua teoria do Complexo de Édipo, o filho, na relação com os pais, chaga a sentir desejo pelo pai de sexo oposto e raiva do pai do mesmo sexo, que se constitui como seu rival. Esse processo atua na formação da identidade sexual da criança. Vamos ver um pouco como se dá essa dinâmica, à grosso modo: O filho se identifica com o pai, e assim à sua posição de marido da mãe, passando a desejá-la. Mas nessa posição, o pai é rival, e então merece sua raiva. O oposto acontece de forma mais ou menos igual com a menina. Claro que isso é uma simplificação, o processo é mais complicado e alterna-se com o que se chama de Édipo inverso, quando, por exemplo, o filho se identifica com a mãe e passa a desejar o pai. A criança alterna nessas posições, construindo assim sua escolha objetal (a escolha de seu objeto e desejo – homem ou mulher basicamente mas não exclusivamente).

Não é incomum vermos pais mais próximos de suas filhas e mães de seus filhos. Na minha família mesmo é assim. Questões não resolvidas durante essa fase (traumas, dificuldades, entre outras coisas) causam o que se chama de fixação, ou seja, a pessoa não supera totalmente esses sentimentos, e fica de certo modo preso a esse passado, que fica inconsciente. Um dia explico melhor como isso funciona.

O que temos aí, entre espiritismo e psicanálise: um passado conflitante, que fica marcado, e que retorna “em outra vida” (seja ela outro corpo ou a adolescência e maturidade, que na verdade é um corpo de certa forma diferente do infantil). A diferença é que, para a psicanálise, o inconsciente é parte dessa vida, e fica como que dentro de nossa mente e invisível aos outros, enquanto que no espiritismo há outra vida anterior.

Existem psicólogos espíritas, que atendem e se baseiam tanto na ciência psicológica quanto nos dogmas do espiritismo. Não sei de sua eficácia, mas sei que, tanto no caso do espiritismo quanto na psicanálise, a catarse (ou seja, a mobilização emocional, o reviver essas emoções antigas e que nos mantém “presos” a esse passado) é um fator de cura. Tomo como base aqui o excelente texto de Claude Levi-Strauss, “A eficácia simbólica” (para ler, clique aqui), compara o xamanismo à psicanálise, mostrando como o símbolos, a ação simbólica, o ritual, o mito, tem ação catártica e auxilia na cura de sintomas psíquicos.

 Aí entra talvez em discussão os rituais de possessão, de exorcismo, tanto nas religiões afro-brasileiras quanto nas evangélicas, e outros fenômenos onde nossa consciência se apaga, e entramos em contato com outra sensibilidade do mundo. Espiritualistas chamam isso de consciência universal, quando ampliamos nossa consciência e nos unimos à consciência do mundo. Eu acho essa descrição parcial e que induz ao erro. Ter consciência de algo é ter um certo isolamento, um sentido mais separado, distinto. Quando estamos nesses rituais de possessão, a ideia que se tem é que a pessoa perdeu sua consciência, e somente depois da experiência, quando a consciência retorna, é que ela percebe o quanto essa experiência ampliou seus horizontes, Entretanto, no momento de surto, de contato com o Mundo, de possessão, a sensação é de apagamento, de fuga de ideias, de perda da separação do corpo com o mundo.

É portanto uma experiência sensível, da percepção, do corpo, da sensualidade da matéria, mais do que de uma alma desencarnada. Entretanto, é mais que isso, é quando corpo e alma não se distinguem mais, quando o corpo fica etéreo e a alma fica sensível, quando um passa no outro.

Bom, falei demais aqui. Espero que isso cutuque vocêm em algum ponto, e que possamos conversar mais sobre.

6 Comments

  1. GOSTEI DO ARTIGO, SÓ NÃO SE PODE DESCARTAR A EXISTENCIA DO DEMONIO, POIS ISTO É O QUE ELE QUER, “QUE NINGUEM ACREDITE EM SUA EXISTENCIA”. E TAMBEM NÃO PODEMOS CRER QUE EXISTEM ALMAS VAGANDO SEM CORPOS (SE NÃO, QUAL SERIA A FINALIDADE COS CORPOS?) E SIM, DE DEMONIOS TENTANDO LUDIBRIAR AS PESSOAS COM UMA FALSA LUZ(DE LUCIFER – ANJO DA LUZ). MAS RETOMANDO O ASSUNTO DA QUESTÃO DAS VIDAS PASSADAS(GRANDE ILUSÃO), O QUE OCORRE SIM, MAS NÃO SE TEM COMPROVAÇÃO CIENTIFICA (ASSIM COMO A PSICANÁLISE) É QUE NO ATO CRIADOR (CONCEPÇÃO DO FETO) O NOVO SER RECEBE PARTE DO INCONSCIENTE DE SEUS PAIS(ONDE É DESEJADO, UMA INCÓGNITA, POIS NÃO SE SABE “O QUE” E “COMO” SERÁ, É APENAS DESEJO-INCONSCINTE), INCONSCIENTE CARREGADOS DE LEMBRANÇAS TAMBÉM HERDADAS DE SEUS ANTEPASSADOS E ASSIM SUCESSIVAMENTE. COMO AS HERANÇAS GENÉTICAS, TAMBÉM RECEBEMOS ESSA “HERANÇA INCONSCIENTE”, QUE POR SUA VEZ, QUANDO ACESSADA, REMETE A VIDA DE NOSSOS ANTEPASSADOS, TRAZENDO-NOS, INCLUSIVE, SENTIMENTOS COMO SE FOSSEM NOSSOS (E INCOSCIENTEMENTE SÃO – HERANÇA) E É SÓ. EM RESUMO, SOMAM-SE AS HERANÇAS GENÉTICAS(LEMBRANÇAS DE ACIDENTES DE ANTEPASSADOS COM TRAUMAS FISICOS, MUTAÇÕES FISICAS-ADAPTAÇÃO-, CARACTERÍSTICAS DE MISCIGENAÇÃO, ETC) + HERANÇA INCOSCIENTE -QUE É ATEMPORAL E PRESENCIOU TUDO ISSO- E PRONTO, TEMOS VIDAS PASSADAS. VIDAS PASSADAS SIM, MAS NÃO VIVIDAS POR “NÓS” E SIM NOSSOS ANTEPASSADOS.

    • Olá Pablo, tudo bem? Vou responder seu cometário por partes:

      1- Sobre a existência do demônio, bom, nem pensei em falar disso, pois estava apenas comparando dois conjuntos teóricos: o teológico do espiritismo e o psicanalítico. Não estou adotando nenhuma crença específica, mas comparando duas formas de ver o mundo. Por isso, não falei nada sobre os demônios.

      2- Como disse no item anterior, não assumi como verdadeira a ideia de que existe alma sem corpo, mas somente comparei “conjuntos teóricos”. Somente acho que perguntar “QUAL SERIA A FINALIDADE COS CORPOS?” não é prova em si da inexistência da alma, seria necessário uma argumentação maior, que gostaria de ouvir de você, caso queira contribuir nesse sentido para o site;

      3- Sobre comprovação científica da psicanálise, não sei que tipo de comprovação você acha necessária. A psicanálise dá bons resultados na clínica, abriu para as ciências humanas uma nova forma de compreender diversos fenômenos (sintomas neuróticos, chistes, atos falhos, mitos e rituais tribais, etc). Assim, ela tem sim um status de conhecimento importante, mesmo que não se adeque ao “modelo de ciência”, que seria melhor você explicitar;

      4- Como o novo ser recebe o inconsciente de seus pais? Seria importante você explicar isso. Não há relato de memórias pessoais herdadas. A variação benética, segundo o neo-darwinismo, se dá de forma aleatória, e é selecionada pelo meio. Quando se fala em inconsciente, se fala em um conjunto de vivências (da vida atual do sujeito), que se estruturam atemporalmente e que podem emergir de diversas formas. Não há nada de vidas passadas aí. E o que você me disse pareceu lamarckista, tipo, as vivências da pessoa passa geneticamente para os filhos, que herdam essas lembranças de seus antepassados. Não conheço pesquisa que mostre uma transmissão transgeracional de evoluções lamarckistas, somente a transmissão das informações genéticas aleatórias. ainda mais uma transmissão de memórias. Mas há pessoas pesquisando isso, e preciso estudar melhor;

      5- Se você percebem bem, o que fiz foi mostrar que, tanto na explicação da médium quanto na do psicanalista, apareceram a mesma questão: o conflito edipiano. Não associei o inconsciente com as vidas passadas.

      Bom, espero ter correspondido a seu comentário. Abraço

  2. Olá, Vitor Hugo, boa noite!

    Primeiramente, gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa de criar este lugar virtual de debates e elucidações. É um site excelente!
    Bem, interesso-me bastante pelo tema da psicanálise – tenho uma mãe psicóloga e um tio psiquiatra- apesar de me situar na área jurídica. Participo, atualmente, de um grupo de estudos sobre direito e subjetividade e estamos, no momento, adentrando no campo da psicanálise. Sendo kardecista de nascimento, sempre acabo batendo de frente com alguns temas nesta área. É justamente neste ponto que quero centrar a discussão e saber a sua opinião quanto a alguns desses temas, como, por exemplo, a questão da influência/existência da Lei do Pai e da Castração Simbólica frente ao inconsciente proveniente de vidas passadas, o inconsciente reencarnatório.
    Outra coisa, a catarse como fator de cura é realmente necessária? Manter-se preso ao passado às vezes piora o estado emocional e psíquico- (essa minha opinião é fruto de leituras espíritas, e por isso mesmo automaticamente descartada por alguns cientistas, infelizmente).
    Há vários assuntos sobre os quais gostaria de deliberar contigo e com quem mais quiser promover melhores elucidações…
    É isso!
    Abraços

    • Oi, desculpe a demora, tentei responder ontem, mas meu computador travou… Muito obrigado pelo elogio, mas devo enviá-los ao Mako, o real idealizador do blog, eu só entrei na onda hehehe. Bom, quando você me fala sobre “inconsciente reencarnatório”, creio que está especificando as vivências e memórias que uma pessoa teria de uma vida passada, estou certo? Bom, não há nada na psicanálise que se refira a essa noção. Há sentidos anteriores a vida do indivíduo, no conceito freudiano de fantasia originária e no inconsciente coletivo de Jung. Mas essa noção que você coloca se refere a um inconsciente pessoal, que transcende a vida corporal. As fantasias originárias ou os arquétipos junguianos (não são a mesma coisa) se referem a sentidos gerais que orientam nossas vidas, e não se referem a uma vivência específica da pessoa.

      Já a idéia de Lei do pai, só consigo encontrar um equivalente em Lacan, que fala do Nome do Pai, aquele que castra, que impõe a lei. A castração é a interdição da relação fusional entre a mãe e a criança, e sua ameaça marca a entrada da criança no simbólico.

      Se há outras vidas, creio que não se herda essa castração. Ela depende de uma dinâmica presente o nascimento, dos cuidados da mãe e da relação familiar na tenra infância. Se a “alma” fosse aquela que passasse pelo complexo de Édipo, e de uma vez por todas teria superado essa etapa, nenhum bebê hoje passaria pelo mesmo fenômeno, não estou certo. Mas as vivências emocionais dessa fase dizem mais respeito ao corpo (não a herança biológica, mas uma relação de percepção de sentidos na relação com os pais), que a alma, que à capacidade de raciocínio.

      Sobre a outra pergunta: a questão da catarse e da prisão ao passado são a mesma coisa, ou são questões diferentes. O sujeito neurótico, como estudava Freud, “sofre de reminicências”. Ou seja, na relação com seu passado, ele não consegue superar certos dilemas, e em momentos de grande frustração ou ansiedade, tende a regredir emocionalmente a essas vivências. A catarse é um momento da terapia no qual o sujeito não só se lembra do fato de seu passado ligado à seu sintoma pela rede associativa, mas também o revive, sente novamente esses sentimentos, podendo reelaborá-lo e assim superar tal dilema. Nesse sentido, a catarse é um momento importante.

      Qualquer dúvida, não exite em comentar. Qualquer coia que queira perguntar sobre esse tema ou outros, terei a maior satisfação em responder caso saiba, é claro, rs.

      Esse texto do site foi mais uma comparação, foi a percepção de que muitas vezes formas diferentes de conhecimento convergem em um tema.

      Abraços

  3. ADÃO JOSE TALARICO

    11 de dezembro de 2017 at 6:17 PM

    GOSTO DE ESPIRITISMO , GOSTO DE LER SOBRE FREUD , LACAN…KARL MARX ,,,GOSTO DE SOCIOLOGIA…FILOSOFIA…MAS ADORO ESPIRITISMO…E SEMPRE ME INTRIGOU SABER…SE ESSES ESTUDIOSOS…DA MENTE…MÉDICOS…COMO FREUD…COMO PSIQUIATRA…APESAR DE SER O CRIADOR DO PASSO DA PSICANALISE…SER PSICANALISTA N É NECESSARIAMENTE SER MÉDICO…AÍ INDAGO…COMO ASSOCIAVAM O ESPIRITISMO A PSICANALISE…..QUANDO VEJO NA MENTE AQUELE FORMADORES DE OPINIÕES COMO PLATÃO…SÓCRATES…E TODOS AQUELES GREGO….FICO IMAGINANDO SE ELES N SE ACHAVAM LOUCOS EM PRIMEIRO MOMENTO….EM BUSCA DE RESPOSTAS…GOSTARIA DE RECEBE…MENSAGENS…ENUNCIADOS…DE VCS….OBRIGADO..
    .

  4. ADÃO JOSE TALARICO

    11 de dezembro de 2017 at 6:19 PM

    GOSTEI DOS TEXTOS….ESPERO RECEBER , POSTAGENS…
    .

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.

*

Facebook
0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Email -- Filament.io 0 Flares ×