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“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Eduardo Galeano

O que é uma utopia? Em primeiro lugar, a palavra se refere a um certo modelo de perfeição, a algo que existe sem falhas nem defeitos. Em segundo lugar, essa perfeição possui um caráter inalcançável. Deparando-se principalmente com esse último sentido, Eduardo Galeano, nesta bela frase, renova a importância de se ter uma utopia, um ideal pelo que lutar. A luta, para ele, é importante em si mesma, e não a obtenção do seu resultado último. Não é a toa que a última grande utopia social de nossa história, o comunismo, mesmo não tendo ocorrido de modo pleno, até hoje motiva inúmeros movimentos sociais. Não quero entrar aqui nos méritos do socialismo, nem em discussões políticas, mas sim no papel psicológico que os ideais de perfeição possuem em nossas vidas.

Creio que se deve pensar no papel das utopias a partir de duas posições diferentes:

  • Posição do revolucionário: aquele que luta contra determinado poder estabelecido, usa seu ideal como modelo de mudança, e busca sobretudo por ela. Seu ideal é importante para que as pessoas aprendam a ver o mundo com olhos diferentes, e ver que tudo pode mudar, e que mesmo a nossa revelia tudo muda;
  • Posição do reacionário: Chamo assim a posição daquele que está dentro do sistema de poder, quando os ideais que a pessoa defende se tornam os vencedores e dominantes dentro de um sistema social qualquer. Eles um dia defenderam a mudança, e seus ideais eram armas de luta contra a dominação. Entretanto, uma vez no poder, eles buscam defender o que conquistaram de qualquer forma de mudança. Assim, repetem as formas de ação que um dia praticaram…

 É claro que não existem essas duas categorias de pessoas, de forma pura. Todo revolucionário de hoje é um potencial dominador, a não ser que consiga manter a mente arejada, e deixe seu sistema sob o risco das mudanças, sem este risco, tudo o que sua utopia foi um dia se desmanchará no ar, assim como dizia Marx. Vocês devem ter visto que essa história de escravizado que vira carrasco não é nova. Quem leu “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, já conhece esse risco inerente a todo movimento revolucionário. Esse é um aviso a todos nós, pequenos ou grandes “destruidores de dogmas”, que debatemos nossas opiniões e rebatemos as grandes utopias do passado… tenhamos o cuidado de deixar o debate sempre aceso, e a cabeça arejada. Sei que Marx é hoje em dia criticado m muitos pontos de seus ideais políticos, mas acho ainda válida sua frase: “Tudo que é sólido desmancha no ar”

Ah, antes de terminar, deixo com vocês essa entrevista de Eduardo Galeano, na qual ele fala sobre sua ideia de utopia, confiram!