0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Email -- Filament.io 0 Flares ×

 

*Infelizmente só achei com legenda em espanhol.

“The Finland Phenomenon” é o nome dado por Tony Wagner e Bob Compton neste documentário interessantíssimo sobre o sistema de educação finlandês – e tenta descobrir as raízes do seu sucesso. Para tal, ele se utiliza de comparações entre os Estados Unidos e o país escandinavo – e baseando-nos em estudos publicados, analisaremos as diferenças entre ambos e o Brasil. O que explicaria tamanha diferença entre os países quando se trata do tema “Educação”?

A revista “Newsweek” coloca a Finlândia como sendo a número 1 na educação – enquanto os EUA são os 26º e o Brasil, 48º. E levando em consideração vários aspectos que poderiam levar-nos a conclusões precipitadas, nos surpreendemos: Os professores norte-americanos passam em média 1100 horas por ano em salas de aula,  enquanto na Finlândia esse número cai para 600. O investimento que o governo finlandês têm com cada estudante é cerca de 1200 dólares menor por ano em relação aos estudantes americanos – e mesmo assim ela consegue ser melhor.

Isso acontece por uma série de fatores que começaram a ser postos em prática por volta da década de 70 – e que trouxeram resultados muito positivos a longo prazo. Primeiro, eles desenvolveram uma consciência que visa a educação como o maior bem do país; lá, os professores são respeitados e considerados profissionais de alto escalão – uma das profissões mais cobiçadas é justamente essa. Lá ainda predomina um sentimento de confiança entre Estado e professor – ele raramente é avaliado, até porque não é qualquer um que consegue entrar nesse mundo acadêmico. É preciso passar por avaliações que levam em consideração a sua vida acadêmica anterior; todos os professores do país eram os melhores alunos de suas escolas, e antes de efetivamente conseguir chegar a esse posto, passaram por inúmeros treinamentos e discussões para que houvesse um aprimoramento do seu método de ensino e da educação em geral; mesmo tendo os melhores indicadores do mundo, os finlandeses buscam melhorá-los ainda mais.

Os salários dos profissionais dessa área são altos – e todos os educadores do país precisam possuir um mestrado para dar aulas nos ensinos fundamental e médio. Suas escolas desenvolvem o seu próprio currículo e a pesquisa é amplamente apoiada e bancada nessas instituições – e a adoção de novas tecnologias para o uso dos alunos é um ponto crucial nesta análise. É também um lugar no qual há uma independência muito grande por parte dos alunos, que são ensinados a pensar na educação como algo necessário para o bem comum e também para a satisfação pessoal – não existem quase provas para eles, o que faz com que eles sejam mais motivados a buscar o conhecimento por se interessarem no assunto.

Essa independência faz com que aqueles que têm mais dificuldade não fiquem para trás – e reforços são dados à esses indivíduos. Todo o sistema educacional deste país é público – pois apesar de ter impostos de 50%, uma alta carga tributária comparada com os EUA, onde esse número cai para 26% e com o Brasil, 35% – é notório para onde vai esse investimento oriundo do dinheiro público. E não acontece o mesmo no Brasil, como demonstraremos um pouco mais à frente.

Na América, por volta de 50% dos professores acabam saindo dessa profissão por vários motivos. Na Finlândia, a grande maioria deles continua exercendo a profissão até se aposentar. E como reflexo de tudo isso, ela está entre os 5 países menos corruptos do mundo. E mais: 45% dos jovens finlandeses optam por uma educação não-acadêmica no ensino médio: isso porque eles já saem de lá preparados para o mercado de trabalho; todas as crianças têm direito ao mesmo ensino. Não importa se é o filho do político ou do faxineiro; e as escolas oferecem, além do ensino, comida e serviços médicos e dentários gratuitos.

E qual é a situação brasileira diante de tanta excelência?

É o contrário de toda essa “utopia escandinava”: só no estado de São Paulo, 44% dos professores revelam que já sofreram algum tipo de agressão: verbal, física ou assédio, e esse número, ao invés de diminuir, só aumenta. 57% consideram violentas as escolas onde lecionam, e com isso o número de licenças concedidas por problemas psicológicos decorrentes dessas condições de trabalho só aumentam – e o sistema educacional vai ficando cada vez mais esquecido, destruído. Às moscas.

Dos países emergentes da atualidade, como Brasil, China, Coréia do Sul, Índia e etc., o Brasil é o que mais anda caminhando para o abismo- enquanto nesses outros países o investimento direcionado à educação aumenta, aqui ele só se deteriora. Enquanto os outros deram um salto educacional  entre as décadas de 70 e 80, ficamos estagnados. E isso faz com que o crescimento do próprio país esteja limitado..

O salário dos professores brasileiros, diferentemente daquele dos finlandeses, é baixíssimo e exige uma rotina pesada de trabalho. Para 40 horas semanais, o piso salarial da categoria é de 1187 reais por mês – o que se for levado em consideração o aumento da inflação e dos preços em geral, esse salário não sustenta bem uma família. Não há incentivos para a carreira docente e para a capacitação daqueles que já a seguem – e as consequências dessa política já estão sendo sentidas hoje – pois é realidade que estão faltando professores de diversas áreas, como Geografia, Biologia e Filosofia para a educação básica brasileira.

O culpado dessa situação toda é o governo – primeiro por não fazer o investimento necessário para que se tenha uma educação de qualidade e com profissionais amparados – e depois por não buscar conscientizar o povo da importância da mesma. O que chega  a ser uma imoralidade. Uma boa parte dos problemas de criminalidade e educação decadente também advém do fato de que muitas famílias são desestruturadas e que estas não dão atenção à educação que precisa ser passada em casa e acham que esse é um dever exclusivo da escola sobre o indivíduo.

E o que mais o governo faz? Abaixam os salários dos professores e cortam parte dos seus direitos em projetos nas câmaras. Como é o caso recente de Juazeiro do Norte, que aumenta os salários de seus vereadores e abaixa em 25% o dos professores.

Tudo isso é mais complexo do que imaginamos. E está interligado em um círculo vicioso. Enquanto não pensarmos a longo prazo, como os finlandeses fizeram, tenderemos ao fracasso. Ou buscamos nossa maneira de mudar essa realidade ou seremos um país de idiotas alienados que tende ao fracasso em progressão geométrica.

“Um povo educado não aceitaria as condições de miséria e desemprego como as que temos.” (Florestan Fernandes)

Dica do Leitor Rogério Ramos