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JOURNEY HOME (PSYCHE), Susan Seddon-Boulet

2 – O universo psíquico e a experiência mística

No post anterior (ver aqui), vimos que a física e a química, funciona por causa e efeito, mas a biologia tem normas mais flexíveis. O que isso tem a ver com a psicologia? Voltando a Freud, ele compara nossa mente àquele organismo vivo. Quando percebemos ou sentimos algo, tentamos dar um sentido para isso. Essa energia psíquica é então ligada e controlada. Se ela for muito intensa, a mente vai tentar ou se desfazer dela (fingir que algo ruim não aconteceu), reprimir (daí esquecemos, mas na verdade aquela lembrança fica dentro de nós e volta de outra forma, distorcida, em sonhos por exemplo), entre outras formas de dar controle a ela. Mas, se ele recebe uma energia muito forte, um estímulo muito doloroso, a dor é tanta que rompe essa camada protetora. Se uma bala atinge nossa pele, sua força é tanta que ela entra e rasga, se um acontecimento doloroso é muito forte, ele não pode ser controlado pela mente.

Assim Freud explica as neuroses de guerra. Muitas pessoas não conseguiam evitar, na época da Primeira Guerra Mundial, de lembrar de fatos dolorosos, que os faziam sofrer muito. Sua mente tinha perdido controle dessa lembrança, ela não podia ser compreendida, assimilada, era uma energia mental “descontrolada”.

Parece que fugi do assunto né? Bom, é que sempre acabo dando muitas voltas para explicar a experiência mística. Precisava falar disso, mostrar que o corpo e a mente não são tão diferentes assim, que cada um do seu jeito controla o que é dentro e o que é fora. Isso funda o que chamamos na filosofia de experiência da alteridade, ou seja, quando sentimos que há algo diferente da gente, que eu sou uma pessoa dentro do mundo, ligada a ele, mas de certa forma diferente dele. E que sou ligado às outras pessoas, mas sou diferente delas. Diferença, nesse sentido, é uma relação entre dentro e fora.

O que é a união mística com o todo? Bom, se o dentro, que é o sujeito, é uma dobra do fora (vale pensar no superego, descrito por Freud como aquela parte da mente que absorve as regras morais e sociais), então unir-se ao todo é desdobrar-se. O que acontece com a individualidade? desaparece, simplesmente. Se nos basearmos nesse modelo, temos um paradoxo para pensar:

Para saber o que sou, preciso me ver na diferença com os outros e com o fora. Vejo meu dentro quando olho para fora, e noto as diferenças. Se me desdobro, não tenho como experimentar conscientemente essa união, pois o que nos dava essa capacidade de perceber era justamente a diferença que a dobra nos dava. Assim, só há união perfeita com o fora, com o Todo do universo, quando morremos, isto é, deixamos de existir como indivíduo, no sentido pleno da palavra.

Se supomos que além do corpo há uma alma, ou seja, uma individualidade que persiste fora do corpo, ela ainda segue os mesmos princípios, para ser indivíduo precisa ter certa diferença com o resto, ser uma dobra do mundo espiritual. Assim, só a morte, no sentido pleno da desintegração da individualidade, é que pode proporcionar a união com o Todo, tal como é dito no sentimento oceânico.  Esse sentimento então não é possível. Mas esperem, a coisa toda não pára por aqui. Vejo que há uma forma de entender que sentimento é esse, que é experimentado por muitos. Mas isso, somente no outro post, que vocês podem acessar clicando aqui.