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ATHENA, Susan Seddon-Boulet

Desculpem, mas peço que vocês me deixe viajar um pouco em algumas meditações que eu estou fazendo. O que quero aqui é buscar, na biologia e na psicologia, o fundamento da experiência mística, que geralmente colocamos em nosso espírito, em algo que é diferente do corpo. A experiência que falo é a do sentimento oceânico, ou a sensação de união espiritual com algo maior. Muitos místicos preconizam que se pode acessar essa conexão com as coisas, com Deus ou o Universo. Não quero desmerecer ninguém, nem explicar porque essa experiência acontece, mas dar uma visão de como nosso corpo e nosso psiquismo tem relação com esse sentimento.

1 –  O corpo e a ideia de dobra

Freud mostra um pouco do nosso psiquismo usando como modelo a vida. Ele usa um exemplo, que vou citar aqui. Imagina uma vesícula viva, um conjunto de células que trabalham juntas e formam um organismo primitivo. Todo organismo forma um “dentro”, com um controle homeostático das interações químicas e da concentração de substâncias (como nosso corpo controla o nível de sal, de água, de substâncias tóxicas, etc), incorporando de fora o que lhe faz bem (água, comida) e expulsando o que é ruim (urina, fezes). Mesmo em uma célula você vê mais ou menos esse funcionamento. Vamos imaginar que o organismo receba continuamente um estímulo mais ou menos forte, por exemplo uma iluminação muito forte. Com o tempo, o organismo se modifica a essa iluminação, ou a seleção natural deixa com que somente os organismos que podem ter esse controle sobrevivam. Por fim, temos um organismo que consegue criar uma capa protetora, que só deixa passar a quantidade certa de iluminação para dentro de si, e expele o resto.

Gente, o exemplo é imperfeito, e difícil de se fazer. Freud claro explicou muito melhor. Mas o que quero dizer é que o organismo se empenha em manter um controle da separação entre o dentro (organismo) e o fora (mundo exterior). Veja as membranas celulares, nossa pele, as folhas das plantas, elas controlam o que entra e o que sai.

O que é o corpo? Vamos olhar no microscópio do raciocínio analítico, e voltar ao que nos constitui: corpo > Órgãos > células > moléculas > átomos… Se quisermos vamos muito mais além que isso, e deve claro haver mais coisas entre um item e outro do que citei. Mas o corpo “é” só o átomo? Não. É só as moléculas? Também não. São só as células, os órgãos? Há algo aí que torna o corpo mais que um conjunto dos itens que disse acima. A vida é uma certa organização, uma relação diferente das moléculas, que se torna mais ou menos independente delas. Claro que sem moléculas não há vida, como nós, sem água para beber, morremos. Mas somos diferentes da água, não é?

Assim, aquele organismo vivo, que controla o que entra e o que sai de si, é feito do que está fora (da água, das moléculas que come e bebe, etc), mas é também diferente desse fora. É como se ele dobrasse o fora em um dentro, e lá funcionasse segundo regras novas. Isso é muito importante na filosofia atual, a ideia de “dobra”. Tudo o que entra nessa dobra é ligado às leis de dentro da dobra. Por exemplo: o alimento que comemos, quando entra no corpo, passa a seguir os caminhos que  corpo mesmo desenhou para eles. O que é bom fica, o que é ruim sai. O corpo ainda aguenta a falta de um pouco do que é bom, tal como temos sede, mas se faltar muito desidratamos e morremos. Também tolera um pouco de coisas ruins, como o monóxido de carbono, que só é mortífero quando está em acima de determinada concentração.

O que fiz até agora foi mostrar para vocês uma espécie de compreensão filosófica da biologia, e não uma teoria propriamente biológica. é uma forma de entendermos o exemplo de Freud, quando ele explicar o que é o universo mental.

Para continuar nessa discussão, vá para a parte 2 desse post, clicando aqui, e depois para parte 3, clicando aqui.