Ciência, a deusa deste século

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É muito interessante como as pessoas usam mal argumentos científicos hoje em dia. Quando a gente diz “cientistas afirmam que…”, as pessoas te ouvem como se dissesse uma verdade absoluta. Curioso, antes esse efeito era conseguido somente através dos livros religiosos, lidos por seus sacerdotes e profetas. Não há contestação, ninguém se pergunta se aquilo é o que chamamos de “verdade”.

Por várias razões, creio que as pessoas superestimam os argumentos científicos. Primeiro, é claro, existem formas de mostrar se a pesquisa foi rigorosa, ou se seu método é eficaz e válido para essa investigação. Muito do que se afirma ser científico hoje é na verdade baseado em dados pouco confiáveis.

Mas uma pesquisa bem feita, que usa um método rigoroso, e que diminui ao máximo as variáveis que podem distorcer seus resultados, também não pode, na minha opinião, ser chamada de verdade. Teorias possuem prazo de validade, elas vão se modificando ao longo dos anos, podem se mostrar parciais e até enganosas. Recomendo a todos os interessados em conhecer mais profundamente o que é a “ciência” que leiam os livros “O que é ciência afinal“, de Alan Chalmers, e “A Estrutura das Revoluções científicas“, de Thomas Kuhn.

Nas ciências humanas, essa dificuldade é ainda maior. Odeio principalmente quando as pessoas utilizam argumentos biológicos para explicar determinado comportamento. Lembrem-se que houve a entrevista polêmica de Silas Malafaia (assista aqui), que apelava para a genética, na tentativa de dar embasamento em suas palavras. Logo apareceu no Youtube um geneticista que contestou tais argumentos (assista aqui).

A questão da homossexualidade foi mais impactante. Malafaia defendia que a homossexualidade é uma questão de comportamento, de moral, enquanto que o geneticista  mostrou dados que comprovam a base biológica do comportamento homossexual, já que gêmeos monozigóticos (nascidos de um único zigoto, a união do óvulo e do espermatozóide) possuem maiores chances de serem homossexuais.

A Psicologia contesta a opinião de Malafaia, a “escolha” da opção sexual não é um comportamento, não é voluntário e nem pode ser feita ou desfeita assim, por pura vontade. Mas também não gosto de reduzir uma coisa tão complexa quanto a sexualidade a uma questão genética. Para usar o argumento biológico, os cientistas reduzem a sexualidade a uma forma binária: só há um homem abstrato e uma mulher abstrata, que podem ter desejos hetero ou homossexuais. Será só isso nossa sexualidade? Será que as pessoas buscam somente um homem ou uma mulher, ou buscam pessoas engraçadas, ternas, impetuosas, com determinada aparência, etc… Há muito mais na escolha sexual do que genética ou vontade. Assim, Malafaia está errado, mas o geneticista está incompleto.

Peço que tomem cuidado ao chamarem o argumento científico de verdade. Vocês podem estar presos em um novo dogma moderno.

2 Comments

  1. A ciência e o método científico são lindos. É o único método onde genuinamente conseguimos chegar à verdade. Baseia-se em experimentação, repetição e reprodução, ou seja, em um artigo científico, o cientista tem que descrever exatamente como ele procedeu o experimento, tratou os dados e chegou naquelas conclusões. Qualquer conhecimento não gerado pelo artigo há de ser mencionadas as fontes. Há toda uma comunidade científica empenhada em esmiuçar as falhas dos outros cientistas.
    O problema é que a não ser que tenha-se feito um curso superior com ênfase científica, não se tem condições de analisar um artigo criteriosamente. Por isso muitos jornalistas acham qualquer coisa interessante em alguma pesquisa e já saem publicando como verdade, não citam fontes e distorcem os fatos.

    • Oi Patrícia,

      Muito bom seu comentário. Entretanto, tenho receio em dizer que o método científico “É o único método onde genuinamente conseguimos chegar à verdade”. Precisa-se primeiro descobrir o que se chama aí de verdade. Toda ciência, por mais exata e objetiva, sempre possui uma filosofia ligada a ela, que lhe fornece pontos-chave nos quais se baseia para definir o que é objeto, objetividade, verdade, entres outras noções.

      Assim, não há puro método científico, nem se garante que ele é o único que possibilita chegar a uma verdade. Na minha opinião, por exemplo, podemos citar uma obra de arte. Você pode investigar neurologicamente os efeitos que ela causa na mente das pessoas, você pode criar um método rigoroso de identificação do estilo do autor, você pode explicar como a física demonstra o efeito de uma determinada técnica. Entretanto, estes dados não encerram toda a “verdade” da obra. Muito do sentido humano se perde ao descrevê-la somente com esses dados científicos.

      Assim, é importante estarmos atentos ao uso que fazemos do termo “verdade”. Esclarecer o sentido deste é mostrar que é a filosofia que baseia nosso pensamento sobre a natureza das coisas, e assim situa nosso pensamento em um espectro maior de formas de ver o mundo…

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