Category: O Homem Bruto (page 2 of 2)

O “Eu” é um “Outro”

Dr. Jekyll and Mr. Hyde: o outro dentro de si mesmo

A Psicologia do desenvolvimento trouxe para a ciência psicológica grandes descobertas sobre o que é o sujeito, isso que nos faz ser mais do que uma massa de células andando no mundo. Uma das características dos homens é a consciência de si, ou seja, o fato de termos noção de que somos um indivíduo, temos um corpo unificado, temos dentro de nós pensamentos e sentimentos que só podem ser acessados por outras pessoas caso falemos deles.

O que acabei de dizer soa tão óbvio. Como podemos não saber quem somos de verdade? Ora, a psicopatologia nos dá essa resposta. As doenças mentais são uma forma de desequilíbrio ou desvio das funções que normalmente temos, que não se desenvolveram completamente ou voltaram a um estágio primitivo. Os chamados “loucos”, que há algum tempo atrás eram encarcerados nos hospitais psiquiátricos (que graças aos movimentos anti-hospitalização passaram a conviver novamente em sociedade, podendo ter um tratamento mais digno) mostram o quanto que a consciência de si nõ é óbvia, mas se desenvolve com o crescimento do bebê e pode sofrer alterações.

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O Ego é a Fonte da Atitude Altruísta?

Esse foi um debate realizado entre Vitor e Mako à respeito da pergunta: Será que a atitude altruísta, que pensa no bem do próximo, é na realidade uma forma da pessoa pensar em si mesmo, pensando mais na sua necessidade de fazer o bem do que em satisfazer o outro?

Mako Abe:
Será essa a verdadeira força motriz de uma ação altruista? Qualquer um pode afirmar que nos sentimos bem ao ajudar alguma pessoa, mas os motivos para tal são diversos, desde culpa por ser rico, ou por aliviar uma possível consciência pesada, até simplesmente se comover com a situação de uma pessoa na rua. Mas acho que olhamos essa situação apenas de forma psicológica, sentimos um desconforto ao olhar um mendigo na rua claro (muitos já estão anestesiados com a visão rotineira), mas eu acho que muitas pessoas tem a consciência que aquilo não deveria acontecer e se ele pudesse aliviar um pouco o sofrimento dele ia ser bom, mas não pelo simples fato de se sentir bem, e sim dessa pessoa perceber que mesmo que inconscientemente que nós devemos e nos ajudamos por natureza própria, somos parte da mesma raça, do mesmo organismo planetário.

Vitor Oliveira:
Bom, Essa questão é muito confusa. Posso até ter dito sem pensar, mas no geral eu concordo com essa ideia, do fundo egoísta do altruísmo, do mesmo jeito que vejo, por outro lado, um fundo altruísta do egoísmo. Gostaria, primeiro, de passarmos a limpo o que chamamos de altruísmo e de egoísmo. Vou aqui colocar minha ideia, e acho que, antes de discutirmos esse ponto, você poderia colocar a sua. Em vez de um ping-pong direto, no qual eu falo e você rebate e fala e eu rebato, podemos construir algo juntos…
Vamos lá: As duas palavras possuem o sufixo -ismo, que é usado, desde o século XIX, para criar substantivos que designam correntes ideológicas, religiosas e filosóficas. Geralmente, esse sufixo destaca a importância do radical – o trecho da palavra que vem antes dele, e o torna representante máximo de uma forma de pensamento. Assim, o marxismo lê toda nossa história através de Marx, e geralmente se esquece de outras formas de leitura, o idealismo crê no mundo das ideias como sendo o primeiro, o verdadeiro, colocando em segundo lugar a matéria.
Bom, o mesmo acontece com essas duas palavras: egoísmo destaca atitudes e comportamentos centrados no ego, no sujeito, e quando falamos em moral, se refere a uma pessoa que pensa primeiramente em si mesma e no seu bem-estar. Altruísmo seria o oposto, ou seja, o alter (outro) estaria em primeiro plano.

Espiritismo e psicanálise

Salvador Dali

O que venho escrever aqui é mais uma reflexão, uma especulação, do que um conceito estruturado e pesquisado pela ciência… estou viajando, se é que me entendem… O que me leva a pensar nisso é um fato (vou mudar a história de forma a guardar a identidade dos envolvidos) que ouvi há muito tempo, sobre uma mulher cliente de minha mãe, que trabalhou na área de estética. Era uma senhora espírita, casada e com uma filha única. Sua personalidade era um tanto narcísica, ou seja, ela tinha uma demasiada atenção voltada para si mesma, sua superioridade e seus prazeres. Mantinha em seu casamento uma relação na qual o marido permanecia submisso e este sofria as ofensas e descasos da mulher. Entretanto, ambos os pais eram de certa forma submissos à filha, que tinha um gênio dominador e enfrentava a mãe constantemente. Já o pai sempre satisfazia os desejos dessa.

O caso aqui é que a mãe sempre se queixou da incompatibilidade de gênio entre ela e a filha. Frequantando sessões de regressão, ela descobriu que, em suas vidas passadas, ela e a filha haviam sido rivais por um mesmo homem, e que o “carma” delas nessa vida era de terem de ser mãe e filha, e aprender a superar essa rivalidade existencial.

Ora, vamos deixar as explicações religiosas de lado por um minuto, e vamos nos atentar a vida atual dessas pessoas. Temos aqui um triângulo familiar: pai, mãe e filha. Segundo a psicanálise e sua teoria do Complexo de Édipo, o filho, na relação com os pais, chaga a sentir desejo pelo pai de sexo oposto e raiva do pai do mesmo sexo, que se constitui como seu rival. Esse processo atua na formação da identidade sexual da criança. Vamos ver um pouco como se dá essa dinâmica, à grosso modo: O filho se identifica com o pai, e assim à sua posição de marido da mãe, passando a desejá-la. Mas nessa posição, o pai é rival, e então merece sua raiva. O oposto acontece de forma mais ou menos igual com a menina. Claro que isso é uma simplificação, o processo é mais complicado e alterna-se com o que se chama de Édipo inverso, quando, por exemplo, o filho se identifica com a mãe e passa a desejar o pai. A criança alterna nessas posições, construindo assim sua escolha objetal (a escolha de seu objeto e desejo – homem ou mulher basicamente mas não exclusivamente).

Não é incomum vermos pais mais próximos de suas filhas e mães de seus filhos. Na minha família mesmo é assim. Questões não resolvidas durante essa fase (traumas, dificuldades, entre outras coisas) causam o que se chama de fixação, ou seja, a pessoa não supera totalmente esses sentimentos, e fica de certo modo preso a esse passado, que fica inconsciente. Um dia explico melhor como isso funciona.

O que temos aí, entre espiritismo e psicanálise: um passado conflitante, que fica marcado, e que retorna “em outra vida” (seja ela outro corpo ou a adolescência e maturidade, que na verdade é um corpo de certa forma diferente do infantil). A diferença é que, para a psicanálise, o inconsciente é parte dessa vida, e fica como que dentro de nossa mente e invisível aos outros, enquanto que no espiritismo há outra vida anterior.

Existem psicólogos espíritas, que atendem e se baseiam tanto na ciência psicológica quanto nos dogmas do espiritismo. Não sei de sua eficácia, mas sei que, tanto no caso do espiritismo quanto na psicanálise, a catarse (ou seja, a mobilização emocional, o reviver essas emoções antigas e que nos mantém “presos” a esse passado) é um fator de cura. Tomo como base aqui o excelente texto de Claude Levi-Strauss, “A eficácia simbólica” (para ler, clique aqui), compara o xamanismo à psicanálise, mostrando como o símbolos, a ação simbólica, o ritual, o mito, tem ação catártica e auxilia na cura de sintomas psíquicos.

 Aí entra talvez em discussão os rituais de possessão, de exorcismo, tanto nas religiões afro-brasileiras quanto nas evangélicas, e outros fenômenos onde nossa consciência se apaga, e entramos em contato com outra sensibilidade do mundo. Espiritualistas chamam isso de consciência universal, quando ampliamos nossa consciência e nos unimos à consciência do mundo. Eu acho essa descrição parcial e que induz ao erro. Ter consciência de algo é ter um certo isolamento, um sentido mais separado, distinto. Quando estamos nesses rituais de possessão, a ideia que se tem é que a pessoa perdeu sua consciência, e somente depois da experiência, quando a consciência retorna, é que ela percebe o quanto essa experiência ampliou seus horizontes, Entretanto, no momento de surto, de contato com o Mundo, de possessão, a sensação é de apagamento, de fuga de ideias, de perda da separação do corpo com o mundo.

É portanto uma experiência sensível, da percepção, do corpo, da sensualidade da matéria, mais do que de uma alma desencarnada. Entretanto, é mais que isso, é quando corpo e alma não se distinguem mais, quando o corpo fica etéreo e a alma fica sensível, quando um passa no outro.

Bom, falei demais aqui. Espero que isso cutuque vocêm em algum ponto, e que possamos conversar mais sobre.

O que falta não é energia, mas Teleologia!

 

Pintura de Alex Grey

Estava hoje lendo na internet sobre o conceito de energia. Para falar a verdade, não entendo nada de física, não a estudei na escola nem para o vestibular. Sempre tive problemas com cálculos, e estudar as fórmulas era inútil. Mesmo assim, sempre senti um profundo respeito por essa área, e li algumas coisas sobre vários assuntos dessa disciplina, sobretudo os livros que “romantizam” a física, ou seja, que traduzem as fórmulas em teorias mais fáceis de serem compreendidas por nós, pobres mortais…

Fico sobretudo atento aos novos avanços da ciência física, principalmente a quântica, e os efeitos que elas criam em nossa concepção de realidade. Muitos se baseiam nessas novas teorias, como o caso das ciências noéticas, que mostram o poder da consciência e do pensamento em modificar o mundo. Esse é o novo paradigma: temos o poder para mudar tudo, para criar novas realidades. O pensamento possui um poder gigantesco, que se souber ser usado daria conta dos fenômenos parapsicológicos, como mover objetos (telecinesia) ou ler pensamentos.

O conceito de energia aqui ganha um estatuto essencial: compreende-se que o corpo possui campos energéticos, alguns provados e outros a serem provados, o que daria status científico a essas explicações.

Entretanto, acho que o buraco é mais embaixo… ou seja, compreender a mecânica de como o corpo realiza esses fenômenos ainda não aceitos pela ciência oficial, compreender também que há, para além do corpo físico, um corpo energético capaz de sobreviver após sua decomposição no mundo físico, tudo isso somente possibilita para a gente dizer: tá, é assim que funciona!

Sim, esses fenômenos seriam então considerados reais, novas pesquisas seriam realizadas e o campo científico seria modificado grandemente. Sim, as religiões teriam muito de seus dogmas confirmados ou refutados, as pessoas repensariam na forma como vêem o mundo… mas ainda falta algo, que a explicação em termos da física ainda não dá conta.

– Em primeiro lugar, é o que se chama de Teleologia, o estudo das finalidades últimas das coisas. Esse mundo que temos aqui, ele é gratuito? Ele surgiu do nada, por uma explosão (Big Bang), sem causa e nem motivo? Há algo que age, como em Aristóteles, como causa final, aquilo que explica o porquê de todas as coisas?

– Em segundo lugar, a Liberdade: há alguma liberdade, ou seja, alguma escolha livre e indeterminada, que parte de algum lugar, ou de alguém, ou de algum ponto no espaço? Ou tudo tem uma determinação específica, tem uma causa e um efeito específico?

Ora, não importa que haja uma alma, ou seja, que haja uma espécie de “corpo espiritual” exterior ao corpo material, biológico. Interessa sim se essa alma, ou mesmo esse corpo biológico antes da morte, possui uma liberdade de escolha, uma individualidade que opta por algo. E, no contexto mais geral, como é que fica a questão entre o mundo ter uma finalidade, um propósito, ou em ser aleatório, determinado pela rede de causa e efeito?

Assim, a questão muda de figura. Os espiritualistas querem a física para se mostrarem reais e científicos, mas o que fica de lado é o essencial. Somos livres? somos determinados? há um propósito em tudo isso? Não posso responder diretamente a essas questões. Muito o que diria seria crença, fé, ou apenas opinião. Me entusiasmo mais em achar a verdadeira questão do que em respondê-la. Pergunto à vocês, leitores, o que acham? Qual a opinião de vocês e como vocês defendem essa opinião? Vou deixar aqui duas perguntas, e seria interessante se quiserem se envolver nesse debate.

– Existe liberdade? onde (no espiritual, no material, etc) ou em quem (no homem, em Deus, na alma, em todos os seres, etc)?

– O que existe possui finalidade, propósito? Essa finalidade, se existe, é vontade de alguém (ou seja, os homens ou Deus ou qualquer outro ser é quem deseja e faz o mundo ser o que é), ou ela é fruto do acaso, das coisas como surgiram (por exemplo, somo o que somos pois as vivências que tivemos aumentaram a possibilidade de sermos desse jeito)?

E aí, o que vocês acham?


A Peste Emocional

Esse texto, com a autoria de Elisabeth Cavalcante, foi-me enviado por e-mail, sem fontes. Como é um texto interessante, com uma temática muito importante para o site, decidimos postá-lo aqui para que todos tenham acesso às contribuições proporcionadas por Reich, um dissidente da psicanálise que deu atenção ao corpo e suas energias na constituição de nossas vidas.
A peste Emocional
A maior contribuição que Wilhelm Reich, – um dos gênios que a existência enviou a este planeta – deu à humanidade, foi a forma brilhante com que ele definiu as raízes da insanidade humana, a qual chamou de “a peste emocional”.

Para Reich, ela é o resultado da maneira como, ao longo da história, o ser humano foi se afastando cada vez mais de sua verdadeira natureza, livre, inocente, espontânea. E um dos motivos que mais contribuiu para isto foi a repressão da sexualidade, que passou a ser condenada e vista como algo pecaminoso.

As emoções e impulsos naturais do corpo se reprimidos, acabam por se manifestar como violência, ambição, busca de poder sobre o outro, enfim, pela mais diversas manifestações de inconsciência.

O Homem e a Queda de seu Pedestal

Falar sobre o homem, a humanidade, é uma tarefa complicada. Isso, pois não estamos falando de um objeto visível à nossa frente, ou de uma bactéria em um microscópio ou qualquer fenômeno a ser testado. Nem mesmo do corpo enquanto esse conjunto de células que os biólogos e médicos tratam. Falar do homem é tornar-se objeto a si mesmo. Ou seja, é olharmo-nos no espelho, é ver o que somos, mas sabendo que somos nós mesmos quem questiona. Somos o ponto de partida e de chegada dessa questão.

O texto que escrevo aqui é introdutório dos temas que irei tratar com mais cuidado ao longo de minha contribuição para o blog. Assim, já destaco os riscos que correremos nesse caminho, preparando-nos para as discussões já feitas e para as que virão. Destruir dogmas, essa tarefa não é fácil. Temos que abalar suas estruturas, para que elas caiam por conta própria, caso o leitor assim o queira. Se estamos na física, na biologia, na química, etc., eliminar dogmas seria mais fácil, isso no sentido de que, assim que uma teoria se confirma ao longo dos estudos, pouco resta aos outros cientista senão adotar esse ponto de vista, nem que seja para tentar provar seu erro. Assim foi com as grandes viradas de nosso conhecimento, Galileu, Newton, Einstein, e isso para ficar nos mais conhecidos da física.

Agora, e quando nos passa pela cabeça aquelas perguntinhas já piegas de tão repetidas: o que somos? de onde viemos? Onde estamos? Por mais que pareçam ridículas, elas refletem algo que sempre nos incomoda. Respondê-las é difícil, pois se tratam de coisas que não estão facilmente a nosso alcance, e que não nos fornece dados diretos na realidade que vivemos. Assim, várias correntes, abordagens e teorias se formam na busca dessa explicação. Mostrar o erro de alguns pontos de vista depende cada vez mais da crença de cada um, ou dos poucos dados que pode obter. Principalmente quando perguntamos sobre nós mesmos. A Psicologia, que se propõe a estudar o sujeito humano (definindo-o de acordo com sua posição teórica e ideológica, mas que em geral refere-se a nós mesmos, pessoas, indivíduos, etc), é composta por inúmeras abordagens diferentes, cada um dando conta de alguns fenômenos sobre nosso psiquismo, mas deixando de compreender outros. Cada um prega um tipo de homem diferente, e fica difícil a tarefa de criticar cada corrente.

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