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8 Pensamentos Sobre Você e o Trabalho

clockspor Paulo Ferreira

Ultimamente não costumo escrever com freqüência sobre o tema do trabalho tradicional, comercial, aquele que se faz tendo em mente uma troca financeira por um dado esforço ou período dedicado. Primeiro, porque fiz muito isso por muitos anos. Segundo, porque vivo no Brasil, onde a realidade do trabalho comumente é tão degradante e onde é tão comum  que seja desproporcionalmente exploratória dos seres humanos que não é muito animador abordar o tema. Talvez principalmente porque, a rigor, todos os agentes governamentais e empresariais do país estão cansados de saber perfeitamente disso, mas fingem que não sabem para manter as coisas exatamente como estão, simplesmente porque esse é o modo que interessa para maximizar o lucro das empresas que financiam as campanhas políticas, os lobbies e a corrupção. Apesar dessa introdução, e a pedido de uma leitora e amiga querida, vamos ao tema.

 

1. Suas ações no mundo

As ações no mundo são como água: procuram pelos caminhos com menos obstáculos. Entender isso, significa entender que o seu tempo e as suas capacidades e talentos são como canais por onde a “água” das atividades do dia a dia escorrem.

Muitos passam o tempo a tentar evitar a água e manter os canais secos. Isso não é possível, no mundo. Para fazer isso, você deveria optar por ficar em casa e isolar-se. Se você não quer isolar-se, desista de manter os canais secos: a água VAI correr por eles. O que você PODE e DEVE fazer, é escolher QUAL água que vai pelos seus canais.

Antes de tudo, escolhendo fazer da sua vida algo que lhe preencha e deixe feliz. Sem isso, o resto é inútil. Tudo que se faz neste mundo tem problemas e exige esforço e dedicação para ser feito; qualquer coisa. Mas se você faz algo que não lhe permite sentir-se realizado, tem todos os problemas pelos motivos errados. E isso é muito frustrante. Tenha os problemas pelos MOTIVOS certos. Aí, você vai achar que vale a pena.

Quando estiver certo de que o que você faz é algo que lhe  permite sentir-se realizado, por favor, não fique sentado esperando que os outros lhe digam o que fazer. Se você escolheu, deve gostar disso. Raramente as pessoas escolhem fazer algo que elas não gostam nem fazem direito. Assim, faça. Abrace o que você faz e saia puxando.

2. Puxar é a única forma de não ser empurrado.

Se você não puxar,  se não for auto-motivado, não estiver interessado e não sair fazendo; alguém logo virá lhe empurrar e dizer o que fazer para ocupar os canais do seu tempo e energia.

Sabe qual é a coisa que todas as organizações, instituições, ONGs, empresas, start-ups de qualquer tipo mais necessitam? De alguém que saiba o que fazer e FAÇA. Mesmo que não seja perfeito. Pode dar errado? Pode. E daí? Pode dar errado de qualquer modo. Mas quase tudo pode ser consertado e corrigido. E se não puder?
E daí? Muito mais pessoas são mandadas embora pelo que DEXARAM DE FAZER.

3. Por que você está fazendo?

Antes de fazer qualquer coisa, é fundamental entender de forma clara e explícita, PORQUE você está fazendo. Se você faz algo sem saber porque está fazendo, como poderia saber se está adequado? Se é bom? Se foi bem feito? Bem feito é algo que SERVE a um propósito e colabora para resolver um problema.

E é fundamental saber PORQUE você faz algo, caso contrário, pode descobrir depois que o que você fez afetou milhares de seres; destruiu a ecologia do planeta; prejudicou, mais do que beneficiou, os outros seres que compartilham este mundo com você.

E se, apesar de SABER que o que você faz é prejudicial aos outros seres, você optar por continuar fazendo… só posso lhe desejar melhores escolhas no futuro; boa sorte e ombros fortes para quando chegar a hora da colheita… porque como já disse um sábio: “o plantio é opcional, mas a colheita, obrigatória.”

 

4. Você sabe o que você faz?

Esse é outro ponto fundamental: Há pessoas cujo trabalho é identificar problemas nas organizações. Estas, normalmente, também estão incumbidas de propor soluções.

Há outras pessoas cujo trabalho é IMPLEMENTAR as soluções. Não há demérito nenhum nisso, e a quem vai implementar também cabe questionar e contribuir, fazer o seu melhor. Se você não QUER e não é feliz implementando as soluções pensadas por outras pessoas, procure outro trabalho, onde você possa ser a pessoa designada para identificar problemas e propor soluções.

MAS quando alguém designado para IMPLEMENTAR soluções passa todo o tempo IDENTIFICANDO problemas… naturalmente, não está fazendo o seu trabalho.

 

5. Você trabalha POR seus resultados, mas PARA o bem de outros.

A razão do que você FAZ precisa estar ligada a ALGUÉM. Mas não a VOCÊ. Na maioria das profissões, você faz algo PARA alguém. Portanto, se você está sentado na sua mesa de trabalho, pensando no que fazer para SI MESMO, obviamente está TUDO errado.

Não é para você mesmo, nem deveria ser. Há alguém que deve ser BENEFICIADO pelo seu trabalho: outro ser humano, ou a pessoa que recebe o produto ou usa o serviço, ou os seus colegas que precisam do seu trabalho feito para fazer o deles. Sim, pois é: quando estamos trabalhando, devemos nos concentrar na solução de problemas. O objetivo não é que você esteja servindo a si mesmo. O objetivo é que esteja servindo a outrem. (Fique tranqüilo: mais adiante no texto vou voltar ao SEU tempo, que é imensamente importante)

Mas quando qualquer um esquece que está, no tempo do trabalho, SERVINDO como MEIO para a solução dos problemas … começa a dar tudo errado, porque ao invés de resolver os problemas, a pessoa prefere fugir deles. Se você quer fugir de problemas, fique em casa, embaixo do cobertor. Pode não te levar muito longe, mas terá sido a sua escolha. Mas se você decidiu trabalhar, entenda: este é o tempo da sua vida dedicado a ser MEIO para SOLUÇÃO dos problemas dos outros.

Entenda o que é pedido a você que faça. Se não entendeu bem, pergunte de novo, e de novo, até entender. Se achar que NÃO pode fazer isso, não faça, vá cuidar da vida em outro lugar. Mas se entendeu; e se o seu papel é fazer: não fuja, não finja, não protele, FAÇA.

6. Porque você sai de casa e vai ao trabalho?

Mesmo que você ame o que faz, você faz porque tem objetivos SEUS, para a sua vida, que quer realizar. Para as pessoas que precisam trabalhar por um pagamento, o trabalho é (também) um meio de obter recursos para realizar OUTRAS coisas que querem na vida.

Veja: todos os seus colegas fazem EXATAMENTE a mesma coisa, exatamente pelo mesmo motivo. Eles não vão ao trabalho pra atrapalhar os seus planos. Eles não vão lá para prejudicar os clientes. Eles não vão lá porque o chefe quer. Eles vão porque querem algo da vida. E se todos puderem apenas fazer a sua parte e não atrapalhar a parte do outro, certamente a vida de todos fica muito mais simples.

 

7. Finalmente, sobre o SEU tempo

O momento de servir a si mesmo é quando você está cuidando da sua vida pessoal. E é FUNDAMENTAL fazer ISSO durante o tempo dedicado à sua vida pessoal. Ela não pode ser negligenciada.

Se nem você quer cuidar de si mesmo, como pode esperar que alguém mais queira? CUIDE muito bem da sua vida pessoal e jamais aceite viver de um modo que não permita cuidar de si e de quem você ama. Ninguém vai lhe dar sua vida de volta, ninguém vai lhe dar de volta os dias que já foram. Sim, pode haver exceções, emergências, momentos onde isso não é possível.

Mas você ainda sabe o que é uma exceção?

8. Exceção é EXCLUSIVAMENTE algo que acontece tão ESPORADICAMENTE que não pode ter uma freqüência identificada.

Se algo acontece semanalmente, não é uma exceção. Temos revistas semanais há décadas. Você chamaria o fato da revista semanal sair no próximo domingo de EXCEÇÃO? Se algo acontece mensalmente, também não é uma exceção: você recebe seu salário todo mês. Chamaria o fato dele cair na sua conta de “uma exceção”?

E muito definitivamente: o que acontece várias vezes por mês ou por semana, mas é chamado de exceção apenas porque é “imprevisto” NÃO pode ser qualificado como exceção. A completa falta de planejamento que domina a quase totalidade das organizações brasileiras faz com que, aqui, praticamente TUDO seja imprevisto. Se você trabalha, no Brasil, numa organização que é diferente disso, parabéns: ela é justamente a EXCEÇÃO que confirma a regra.

Para o bem de quem precisa trabalhar; o trabalho jamais acaba – nós é que paramos num dado momento e retomamos no dia seguinte. É assim, e só assim que funciona, em qualquer lugar do mundo, exceto nos sistemas escravagistas; oficialmente banidos da sociedade desde o século 19. Mas que continuam acontecendo, até mesmo disfarçados de “trabalho intelectual” em prédios envidraçados, enquanto houver pessoas dispostas a se submeter a eles. (SIM, esta é a parte mágica: no exato dia em que ninguém mais se submeter a isso, esse capítulo degradante da humanidade estará encerrado. Obviamente que o “esquemão” vai sempre tentar lhe convencer de que não é possível ser de outro modo, porque se você acordar para esta mentira, isso compromete o próprio lucro do “esquemão”)

Novamente: Exceção é algo que acontece tão ESPORADICAMENTE que não pode ter uma freqüência identificada.

Qualquer coisa que acontece toda semana ou todo mês e lhe exige abandonar a sua vida por períodos diferentes da carga horária originalmente combinada não se chama exceção. Chama-se mentira mesmo.

 

A nova cara da Inquisição

Interrogatório no “Strappado” (Bessonov Nicolay, 1992)

A internet fornece conteúdos apresentados de todos os tipos. As novas roupagens e os raciocínios apresentados nos leva a encarar o que vemos como verdades, caso não desenvolvamos um mínimo de raciocínio crítico. Bom, hoje mesmo entrei em contato com um blog cuja missão me pareceu interessante: A Mídia Illuminati, que visa “esclarecer” a mente das pessoas sobre o simbolismo oculto dos grandes satanistas, que buscam através do controle mental instaurar uma nova ordem mundial.

Creio que não estão errados em seu argumento inicial, segundo minha opinião. As altas rodas da sociedade desde muito utilizam-se de estratégias, nem todas conscientes, de manipulação da sociedade, buscando o controle da opinião pública. Nós aqui do Brasil sabemos bem claramente o sistema: ensino público de baixa qualidade, somado a uma mídia poderosa e formadora de opinião. Não é preciso mais que isso para dar início a uma massa manipulada.

Entretanto, o site vai além: associa o controle a uma seita satânica, e coloca que a Nova Ordem Mundial é aquela sobre o controle do Diabo. Diz que o controle mental se encontra nos inúmeros simbolismos espalhados pela mídia. Aí começa a mistura: Cabala, Illuminatti, Maçonaria, Rosacrucianismo, Paganismo, etc, todos os símbolos aparecem como forma de controle mental, exceto um: o Cristianismo.

Se vocês quiserem ver a ideia básica deles, comecem por ver esse video:

Esse é o início de uma série que explica a forma de raciocínio dos criadores do blog. Sinceramente, poderia passar horas debatendo cada argumento, relativizando cada símbolo, cada entrevista, cada informação. Mas não cabe aqui um trabalho tão profundo. Espero que os leitores tenham por si a capacidade de refletir sobre o que vêem.  O que me interessa é a conotação de perseguição religiosa que aparenta na posição dos autores.

Há claramente uma posição cristã, que nem é citada diretamente no vídeo – o que demonstra que para eles a verdade cristã é a única, tão óbvia que nem precisa ser citada. O vídeo todo parte do discurso paranoico tão comum às teorias de conspiração: busca-se uma lógica oculta, não acessível a todos, e que foi criada por alguém ou alguma instituição, a fim de controlar ou obter algum tipo de benefício.

Eu dou valor ao críticos. Às pessoas que olham as coisas e se questionam sobre o que há por detrás delas. Assim, é importante vermos que as músicas, os clipes, e os artistas não são simples profissionais, mas propagam determinadas ideologias e possuem estruturalmente propósitos políticos-ideológicos, e pode ser até espirituais. Mas antes disso, devemos questionar também o questionador.

Eu, Enquanto alguém que questiona, devo ser questionado, debatido. O que digo não é verdade, mas OPINIÃO (já digo isso me preservando de possíveis contra-argumentações…).

Assim, posso então colocar meu ponto de vista: Essa perspectiva de ver o satânico em tudo, sem nem ao menos contextualizar os símbolos e teorias religiosas que tanto apontam, não teria relação com a mesma postura Católica, na Idade Média, que, em parte, absorveu símbolos de outras religiões, mas que categorizou todos os outros como símbolos satânicos? Seria essa a nova roupagem da Inquisição, uma forma do pensamento religioso ser preservado na mente mais jovem, fascinada pela face oculta do poder? Assim, se captura no pensamento cristão a parcela de pessoas que age não pela pregação, ou seja, pela participação e defesa das ideias cristãs, mas sim pela busca e denúncia do que não é cristão.

É divertido caçar demônios. Mais divertido que ir à missa. Ouvir discos ao contrário, buscar imagens simbólicas no símbolo da Coca-Cola… Essa forma de pensar não é nova, e sobrevive até hoje. O que a torna ruim, ao meu ver, é que ela é uma forma de pensar pela metade, ou seja, você critica mas não se critica. Não se avalia de onde parte para pensar o outro.

Assim, a conspiração dita “satânica” pode ser tão verdadeira quanto a conspiração que se diz “cristã”…

Mais além do projeto “cura gay”: O que se esconde atrás disso?

Creio que o mais importante é fugir das mídias quando se quer debater um tema de interesse humano ou que gere muita polêmica. No caso da mal-fadada “cura gay”, muito se diz, e a televisão e a internet sambam em cima da notícia, que, no clima atual, dá ibope. Marcos Feliciano, essa mistura de político e religioso, suas várias cenas e discussões acerca da sua posição frente ao fenômeno da Homossexualidade, geram inúmeros discursos, na sua maioria irrefletidos, com base em dados indiretos, distorcidos pelas mídias.

Já não sei mais de onde parte as distorções midiáticas: se é das grandes empresas, que “criam” informações vendáveis, ou se da mídia que eu chamaria de paralela, hoje na verdade dominante, que é aquela que percorre a internet, e que cada vez mais ganha espaço na vida das pessoas.
Assim, o que se chama “cura gay” se torna uma hidra de diversas cabeças.

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O futuro da Personalização: quando o perigo é o excesso de mim mesmo

Esta semana assisti por acaso a partes de um programa da Discovery, o 2111, no qual futurólogos fazem previsões sobre como o mundo estará daqui a quase um século. Bom, boa parte de nós poderemos talvez ver alguns desses avanços, se a expectativa de vida continuar a aumentar. O que achei interessante nesse episódio foi a pesquisa de identificador de passos. Desculpem falar assim vagamente, mas não encontrei o episódio na internet ara mostrar a vocês. A questão é, os pesquisadores acham que a forma mais fácil de identificar as pessoas é por seu jeito de andar. O passo é com uma digital, e pode ser utilizado como forma de identificação, com sensores instalados no chão da entradas de prédios. Ao entrar, já vão saber que você é, quais seus dados básicos, suas preferências comerciais… O intuito mais visado dessa tecnologia, pelo menos o que foi apontado pela série, é a personalização do marketing e da propaganda. Claro que esse tipo de identificação global e involuntária trás problemas políticos, e quem assiste a série “Person of Interest”, ou mesmo quem se lembras dos identificadores por leitura de íris do filme “Minority Report”, sabe bem sobre o que estou dizendo.

O que achei mais interessante e fundamental de comentar na série foram as previsões sobre essa tecnologia de personalização de atendimento. Os avanços previstos são mais sobre uma forma rápida de identificar a pessoa, ou de integrar essa personalização em anúncios, eletrodomésticos, etc. Mas o que não se disse foi que essa personalização já existe e está em um estágio avançado. Até poderia dizer que o início de nosso século foi palco de uma revolução posterior a da Era da Informação. O que Aconteceu foi o advento das redes sociais.

à primeira vista, muitos devem achar inocentes o poder de tais sites como o Google e o Facebook. Entretanto, Tais empreendimentos da internet vem revolucionando os algoritmos de busca, filtragem e cruzamento de dados pessoais, o que possibilita um maior monitoramento de gostos pessoais. As propagandas do Google e do Facebook são direcionadas através de uma leitura de seus dados pessoais, de suas postagens. E a Psicologia sempre foi uma das mães da propaganda. Principalmente a Psicanálise.

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Religião e Genética: Cadê a voz dos homossexuais?

Peço desculpa a todos desde já, pois esse texto será longo. Estou nervoso com essa questão, e resolvi desabafar aqui com vocês.

Por esses dias assistimos pela internet uma intensa batalha de idéias, teorias e, sobretudo, de falácias. O pastor Silas Malafaia Realizou uma entrevista no programa “De Frente com Gabi”, onde rebate a reportagem da Forbes, que avaliou sua fortuna em 300 milhões de reais, mas a maior polêmica foi suas opiniões sobre a homossexualidade.

Para o pastor, que se utiliza de argumentos científicos para dar sensação de verdade à suas palavras (me parece que o argumento religioso não faz mais tanto sucesso na explicação de como as coisas são ou devem ser, e que a ciência agora cumpre esse papel no imaginário das pessoas…), a homossexualidade é um comportamento determinado pelo ambiente. Ele cita um estudo internacional, ou seja, fora do contexto de nosso país, e atribui às porcentagens relatadas um peso de verdade plena. 46% dos homossexuais sofreram abuso sexual na infância e a adolescência. Com base nesse dado, ele usa sua lógica para dizer que o resto, 54%, é homossexual por escolha.

Após essa reportagem, apareceu um geneticista doutorando, Eli Vieira, que busca dados em pesquisas afirmando as bases genéticas da homossexualidade, mostrando por exemplo estudos entre gêmeos monozigóticos (nascidos de um mesmo óvulo e mesmo espermatozóide, clones um do outro) e dizigóticos (nascidos de óvulos e espermatozóides diferentes). Há maior correlação de comportamento homossexual entre os monozigóticos que entre dizigóticos, o que mostra as bases gentéticas da homossexualidade. Continue reading

Entre a utopia e o dogmatismo: nós amamos no fio da navalha

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Eduardo Galeano

O que é uma utopia? Em primeiro lugar, a palavra se refere a um certo modelo de perfeição, a algo que existe sem falhas nem defeitos. Em segundo lugar, essa perfeição possui um caráter inalcançável. Deparando-se principalmente com esse último sentido, Eduardo Galeano, nesta bela frase, renova a importância de se ter uma utopia, um ideal pelo que lutar. A luta, para ele, é importante em si mesma, e não a obtenção do seu resultado último. Não é a toa que a última grande utopia social de nossa história, o comunismo, mesmo não tendo ocorrido de modo pleno, até hoje motiva inúmeros movimentos sociais. Não quero entrar aqui nos méritos do socialismo, nem em discussões políticas, mas sim no papel psicológico que os ideais de perfeição possuem em nossas vidas.

Creio que se deve pensar no papel das utopias a partir de duas posições diferentes:

  • Posição do revolucionário: aquele que luta contra determinado poder estabelecido, usa seu ideal como modelo de mudança, e busca sobretudo por ela. Seu ideal é importante para que as pessoas aprendam a ver o mundo com olhos diferentes, e ver que tudo pode mudar, e que mesmo a nossa revelia tudo muda;
  • Posição do reacionário: Chamo assim a posição daquele que está dentro do sistema de poder, quando os ideais que a pessoa defende se tornam os vencedores e dominantes dentro de um sistema social qualquer. Eles um dia defenderam a mudança, e seus ideais eram armas de luta contra a dominação. Entretanto, uma vez no poder, eles buscam defender o que conquistaram de qualquer forma de mudança. Assim, repetem as formas de ação que um dia praticaram…

 É claro que não existem essas duas categorias de pessoas, de forma pura. Todo revolucionário de hoje é um potencial dominador, a não ser que consiga manter a mente arejada, e deixe seu sistema sob o risco das mudanças, sem este risco, tudo o que sua utopia foi um dia se desmanchará no ar, assim como dizia Marx. Vocês devem ter visto que essa história de escravizado que vira carrasco não é nova. Quem leu “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, já conhece esse risco inerente a todo movimento revolucionário. Esse é um aviso a todos nós, pequenos ou grandes “destruidores de dogmas”, que debatemos nossas opiniões e rebatemos as grandes utopias do passado… tenhamos o cuidado de deixar o debate sempre aceso, e a cabeça arejada. Sei que Marx é hoje em dia criticado m muitos pontos de seus ideais políticos, mas acho ainda válida sua frase: “Tudo que é sólido desmancha no ar”

Ah, antes de terminar, deixo com vocês essa entrevista de Eduardo Galeano, na qual ele fala sobre sua ideia de utopia, confiram!

 

Nada é inocente na internet.

Se há um assunto a se comentar hoje em dia pela psicologia, é o quanto nossa subjetividade (o que somos enquanto sujeitos, pessoas com escolhas) foi trancafiada no mundinho bidimensional dos bytes. O que era para ser um meio tecnológico se tornou forma de subjetivação.

O que quero dizer com isso?

Simples… antes a internet era somente uma necessidade técnica, pura forma de se comunicar mais rápido com os outros. Hoje, cada vez mais ela substitui ou complementa o papel que foi e ainda é da televisão: formar mentes.

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A epistemologia do armário – Eve Sedgwick

Estou postando aqui um artigo muito interessante, de Eve Sedgwick (leia aqui), sobre o que ela chama de “epistemologia do armário”. Essa ideia é muito comum em nossa sociedade, para compreender quem são os LGBTT (Lésibcas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros). Esse assunto pode parecer meio diferente do que é proposto aqui no site, mas temos que nos alertar para todas as formas de dominação às quais somos submetidos. Como alerta Foucault, o discurso sobre a sexualidade é um dos meios de subjetivação aos quais estamos submetidos. Em todo lugar se fala disso, e cada vez mais a questão da homossexualidade ganha espaço nas mídias de massa. Assim, temos que ter cuidado, pois podemos parecer ser revolucionários, dizermos por aí que não temos nenhum preconceito, mas muitas vezes estamos somente reproduzindo um discurso tão prejudicial quanto a homofobia.

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Documentário: Michel Foucault Por Ele Mesmo

Este documentário, se é que pode ser chamado assim, é uma apersentação sobre a vida e o trabalho de Michel Foucault, pensador francês de grande influência até hoje. A de finição que mais gostei de seu trabalho foi dada por ele mesmo: ele realiza uma “história das problematizações”, de como as coisas e acontecimentos produzem problemas”.
A partir disso, pode-se perceber que seu trabalho mostra as condições de “visibilidade” e de “dizibilidade” de cada época e local:  cada época tem a capacidade de poder ver de determinada maneira, e de dizer dentro de determinada “lógica” sobre as coisas que vê. Vou colocar abaixo algumas explicações e um resumo do video, para ajudá-los com as partes mais difíceis.

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Quem ficou nua, Carolina Dieckmann? Privacidade hoje, Scarlett Johansson?

Scarlett Johansson, vítima de roubo virtual de suas fotos

A atriz reclama e ganha publicidade por algo corriqueiro: ter a intimidade exposta na internet. A questão não é a ilegalidade do fato, mas a problematização do fenômeno. Por ser uma atriz, tudo o que acontece a ela cai em domínio público. É acompanhada por paparazzis, sua vida é devassada e exposta em revistas que se dedicam em vender a vida alheia. Ora, no reino da imagem, a nudez corporal mostra-se mais íntima do que a nudez do pensamento, da vida diária. Essa onda de celebridades e sub-celebridades expostos não começou com Dieckmann, nem terminará com ela. Scarlett Johansson Passou pelo mesmo problema, vários “BBB’s” e jogadores de futebol foram expostos masturbando-se em webcams, etc, etc.

Creio que a questão aqui, o que incomoda é mais a invasão do que a imagem. Uma coisa seria Dieckmann posar nua para a Playboy, outra coisa seriam um hacker roubar fotos particulares. Assim, mais do que a exposição de si, que é na verdade a profissão dela, é a invasão de privacidade que conta, que incomoda, e que é hoje problematizada.

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