Author: Vitor Hugo (page 2 of 6)

Religião e Genética: Cadê a voz dos homossexuais?

Peço desculpa a todos desde já, pois esse texto será longo. Estou nervoso com essa questão, e resolvi desabafar aqui com vocês.

Por esses dias assistimos pela internet uma intensa batalha de idéias, teorias e, sobretudo, de falácias. O pastor Silas Malafaia Realizou uma entrevista no programa “De Frente com Gabi”, onde rebate a reportagem da Forbes, que avaliou sua fortuna em 300 milhões de reais, mas a maior polêmica foi suas opiniões sobre a homossexualidade.

Para o pastor, que se utiliza de argumentos científicos para dar sensação de verdade à suas palavras (me parece que o argumento religioso não faz mais tanto sucesso na explicação de como as coisas são ou devem ser, e que a ciência agora cumpre esse papel no imaginário das pessoas…), a homossexualidade é um comportamento determinado pelo ambiente. Ele cita um estudo internacional, ou seja, fora do contexto de nosso país, e atribui às porcentagens relatadas um peso de verdade plena. 46% dos homossexuais sofreram abuso sexual na infância e a adolescência. Com base nesse dado, ele usa sua lógica para dizer que o resto, 54%, é homossexual por escolha.

Após essa reportagem, apareceu um geneticista doutorando, Eli Vieira, que busca dados em pesquisas afirmando as bases genéticas da homossexualidade, mostrando por exemplo estudos entre gêmeos monozigóticos (nascidos de um mesmo óvulo e mesmo espermatozóide, clones um do outro) e dizigóticos (nascidos de óvulos e espermatozóides diferentes). Há maior correlação de comportamento homossexual entre os monozigóticos que entre dizigóticos, o que mostra as bases gentéticas da homossexualidade. Continue reading

O Corpo para além da carne: O Membro Fantasma

 

A amputação de um membro é, para o sujeito, ocasião de grandes mudanças, dores e tristezas. Se o corpo é o templo do indivíduo (mesmo que esse não cuide dele), grandes mudanças em seu formato e em suas potencialidades, quando ocorrem repentinamente, trazem grandes modificações psíquicas. Mas um fenômeno interessante, que acontece em inúmeros casos, é o surgimento do membro fantasma, isto é, a pessoa amputada sente dores e outras sensações no membro que não existe mais. Meses depois. alguns pacientes possuem dores crônicas e podem descrever tais dores com exatidão, localizando-a como se seu membro ainda estivesse ali.

É claro que há uma base neural para essas dores. O cérebro recebe dos nervos seccionados do membro estimulações que trazem a sensação do membro ausente, e a secção destes nervos leva ao desaparecimento do membro fantasma. Mas o que é interessante é que há casos em que uma terapia psicológica trouxe os mesmos resultados, fazendo desaparecer a dor. O que quero dizer não é somente que a terapia psicológica interfere nos circuitos neurais, o que é óbvio. Mas que a dor não é somente um problema do corpo, ela possui um sentido na vida do paciente. Esse sentido é o que o paciente encontra no processo de terapia, e que leva a uma mudança da visão que ele possui de seu próprio corpo. O comum é auxiliar o paciente a compreender internamente a perda do membro, e aceita sua nova situação.

Claro que a secção do nervo é uma solução mais rápida na solução do problema, mas ela deixa de lado toda a existência da pessoa, que foi grandemente modificada. Além disso, o membro fantasma não é de todo ruim. Como ele é a permanência da imagem que a pessoa tinha de si mesma antes da perda, ela auxilia o amputado quando este tem de se adaptar a próteses. É como se o corpo encontrasse na prótese um substituto, e é mais fácil a adaptação à prótese quando o paciente ainda possui o membro fantasma.

Esses fenômenos devem ser compreendidos como algo que ocorre nem no corpo nem na mente, mas na mistura entre os dois.

Entre a utopia e o dogmatismo: nós amamos no fio da navalha

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Eduardo Galeano

O que é uma utopia? Em primeiro lugar, a palavra se refere a um certo modelo de perfeição, a algo que existe sem falhas nem defeitos. Em segundo lugar, essa perfeição possui um caráter inalcançável. Deparando-se principalmente com esse último sentido, Eduardo Galeano, nesta bela frase, renova a importância de se ter uma utopia, um ideal pelo que lutar. A luta, para ele, é importante em si mesma, e não a obtenção do seu resultado último. Não é a toa que a última grande utopia social de nossa história, o comunismo, mesmo não tendo ocorrido de modo pleno, até hoje motiva inúmeros movimentos sociais. Não quero entrar aqui nos méritos do socialismo, nem em discussões políticas, mas sim no papel psicológico que os ideais de perfeição possuem em nossas vidas.

Creio que se deve pensar no papel das utopias a partir de duas posições diferentes:

  • Posição do revolucionário: aquele que luta contra determinado poder estabelecido, usa seu ideal como modelo de mudança, e busca sobretudo por ela. Seu ideal é importante para que as pessoas aprendam a ver o mundo com olhos diferentes, e ver que tudo pode mudar, e que mesmo a nossa revelia tudo muda;
  • Posição do reacionário: Chamo assim a posição daquele que está dentro do sistema de poder, quando os ideais que a pessoa defende se tornam os vencedores e dominantes dentro de um sistema social qualquer. Eles um dia defenderam a mudança, e seus ideais eram armas de luta contra a dominação. Entretanto, uma vez no poder, eles buscam defender o que conquistaram de qualquer forma de mudança. Assim, repetem as formas de ação que um dia praticaram…

 É claro que não existem essas duas categorias de pessoas, de forma pura. Todo revolucionário de hoje é um potencial dominador, a não ser que consiga manter a mente arejada, e deixe seu sistema sob o risco das mudanças, sem este risco, tudo o que sua utopia foi um dia se desmanchará no ar, assim como dizia Marx. Vocês devem ter visto que essa história de escravizado que vira carrasco não é nova. Quem leu “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, já conhece esse risco inerente a todo movimento revolucionário. Esse é um aviso a todos nós, pequenos ou grandes “destruidores de dogmas”, que debatemos nossas opiniões e rebatemos as grandes utopias do passado… tenhamos o cuidado de deixar o debate sempre aceso, e a cabeça arejada. Sei que Marx é hoje em dia criticado m muitos pontos de seus ideais políticos, mas acho ainda válida sua frase: “Tudo que é sólido desmancha no ar”

Ah, antes de terminar, deixo com vocês essa entrevista de Eduardo Galeano, na qual ele fala sobre sua ideia de utopia, confiram!

 

Entre o corpo e a mente: o psicossomático

Ainda dentro de minha leitura de Capra, ” teia da Vida”, vi pesquisas muito interessantes sobre o sistema imunológico. Pesquisadores descobriram um grupo de moléculas, chamadas de peptídios, que agem como mensageiros entre os sistemas nervoso, endócrino e imunológico. Ele interliga os três em uma grande rede. Neurologia, Endocrinologia e Imunologia, três disciplinas separadas que na verdade acabam por impedir a compreensão das relações entre as três. Os peptídios são fabricados tanto por células nervosas quanto pelos leucócitos, as células brancas do sangue, encarregadas da eliminação de elementos estranhos ao organismo.

Além disso, esses peptídios estão envolvidos nas alterações de humor. Por exemplo, o intestino te muitos receptores desses peptídios, o que se liga àquela sensação de frio na barriga, e estados de ansiedade que parecem se manifestar na barriga. O sistema Límbico, área do cérebro que controlas as reações emocionais é rio nesses peptídios.  As implicações dessas descobertas são incríveis, pois ela vai mostrar que todas nossas funções corporais, inseridas nesse amplo sistema, possuem um colorido emocional. Aí estaria talvez o fundamento biológico dos problemas psicossomáticos, de como estados emocionais desencadeiam doenças auto-imunes, por exemplo. Grandes implicações para a Medicina.

Outra questão muito interessante, agora mais propriamente sobre os linfócitos. Poucos repararam como é incrível que ele consiga distinguir o que é parte do corpo e o que é estranho? Pois essa é sua principal função, criar uma identidade corporal, identificar o que é o corpo, e o que não é. O que se vê aqui é o próprio corpo criando uma espécie de consciência de si, se é que se pode dizer dessa maneira.

Ao meu ver, temos antes que aprender a ver nosso corpo com novos olhos, a para daí podermos dizer o que é espiritual.

A Escuridão da Noite

O Título do post é o nome de um livro de Edward Harrison, fisíco discute uma questão intrigante, o paradoxo de Olbers: Pensem, se o universo é infinito, e se há infinitas estrelas, a luz  de maioria delas seria o suficiente para fazer nosso céu brilhar como o Sol. Teríamos um céu tão iluminado quanto a superfície do Sol. E porque isso não ocorre? O livro é muito interessante, e busca a explicação dessa questão explorando a história das diferentes concepções da astronomia, desde os gregos até os dias de hoje, quando chega a uma solução mais satisfatória. Tentei achar uma versão on-line do livro mais não consegui, quem puder compre ou pegue o livro na biblioteca. O conteúdo é acessível, mas os apêndices no final requerem um bom conhecimento em física. Mas eles não fazem falta na leitura do texto principal.

Para vocês terem uma palhinha, estou postando um video aqui muito bom que explora a mesma questão do livro. Cuidado, o video apresenta spoiler do livro (hehehe)

O que é a vida? – parte 2

Desculpem a demora, mas vamos continuar a falar sobre o que é a vida, segundo o livro do Capra. Segundo ele, para haver vida deve haver três critérios fundamentais:

  • Padrão de organização: Mais do que os materiais que a compõe, o que importa é o padrão de organização dos elementos. Pensem por exemplo em uma cadeira. Ela pode ser feita de vários materiais, e pode ter design diferentes, mas ainda possui um certo padrão comum. O padrão de organização da vida é chamado de autopoiese. a palavra poiese significa criação. Ou seja, os processos que definem a vida são processos de auto-criação. Esse padrão se dá em rede, ou seja, cada componente participa da criação dos outros. a rede de processos celulares, por exemplo, atua na produção de substâncias que vão colaborar para a continuidade dos processos vitais da própria célula;
  • Estrutura: O sistema vivo é composto pelo que se chama estruturas dissipativas. Elas são baseadas na sintropia, a teoria de Prigogine, tal como discutimos no post anterior (para ver, clique aqui). Tais estruturas são fluidas, mais ou menos constantes, e dependem de um constante fluxo de matéria e energia para se manterem. Já ouviram falar que cada célula se reconstrói constantemente, e que renovamos parte dos materiais que compõe nosso corpo? Com o tempo ingerimos água e nutrientes, e eliminamos o que não é mais necessário, as células renovam suas substâncias. é como se cada dia fossemos uma pessoa diferente, mas nossa estrutura se mantém mais ou menos constante.
  • Processo vital: Capra reconhece junto com os teóricos que aborda que a vida, enquanto sistema dinâmico, e um processo de cognição, ou seja, de conhecimento. A cognição e a incorporação de um padrão autopoiético em uma estrutura dissipativa.

Creio que o sentido do que eu disse acima ficou meio complicado. Vamos dar um exemplo. Pegue várias fotos antigas de você, desde bebê até agora. coloque-as em ordem cronológica. Você é um organismo vivo, cresceu muito com o tempo. Mas se olhar bem, notará a permanência de algum padrão. O rosto, por exemplo. Se se lembrar de seu comportamento, vera que mantém alguns trejeitos desde a infância. Como isso acontece? Com o tempo, as moléculas que compunham seu corpo mudaram,e mesmo a organização dele mudou. As mudanças não são totalmente aleatórias, elas seguem um padrão, que não está totalmente pronto desde o início, mas um padrão que se recria com o tempo. É assim também que conhecemos as coisas. Vocês, por exemplo, poderiam ter chegado a esse texto procurando exatamente tais teorias, mas pode ter chegado aqui através de uma série de “acidentes”. Você poderia estar à toa no Facebook, visto algum comentário sobre a postagem e resolvido entrar. Mas isso não e totalmente aleatório, pois esse assunto talvez faça parte dos seus interesses. Você logo se sentiu atraído pelo tema.

Ou seja, há um padrão cognitivo, uma rede de informações que se recria e que a cada momento. Para Capra, baseando-se de cientistas como Maturana e Bateson, a vida é o próprio processo de cognição. Cognição é o processo de conhecimento. Conhecer não é apenas ver um mundo, mas criá-lo. Por exemplo, parem um momento de ler esse texto, olhem em volta e fixem seu olhar em um determinado objeto. Qual é seu tamanho? Você pode comparar as medidas usando uma escala universal, como o metro, ou medi-la comparando com outro objeto, ou com alguma parte de seu corpo, medindo em palmos, por exemplo. O objeto pode ser conhecido, e ter uma função comum (usado para escrever – caneta, para se tomar líquido – um copo, o que quer que seja). quanto mais olhamos para o objeto, vemos que nunca teremos uma visão pura deste, mas que  a percepção dele depende também de nosso corpo, da forma como somos compostos enquanto seres vivos. Temos boa acuidade visual, então nossa percepção desse objeto acaba sendo basicamente visual. a sensação de peso, as cores, a temperatura, tudo, todas as sensações não são objetivas, elas dão mais que o objeto para nós, elas dão também uma noção de como somos. Ou seja, em parte, criamos o objeto. É assim que acontece também no reino animal.

Os filósofos citam como exemplar dessa questão da construção do mundo pelo ser vivo o carrapato. Ele possui órgãos sensoriais para somente três coisas: a variação de luz, a temperatura e o odor do animal. Ele recria um mundo único para sua espécie a partir dessas três sensações. Nada fora disso o afeta (claro que podemos pegá-lo e espremê-lo entre os dedos, mas esse fato não conta diretamente em seu mundo, não existe para seu mundo). ser vivo é cognição, ou seja, nas palavras de Capra, “autogeração e autoperpetuação de redes autopoiéticas”.

Um exemplo: a célula absorve nutrientes e expele toxinas, cria e recria substâncias que lhe são necessárias, readapta-se quando sobre danos, regenera-se quando o dano não é grave, se duplica, e tem certo poder de adaptação a mudanças ambientais. Está ai o que Capra quis dizer nesse trecho.

Compreender a vida dessa maneira é mudar totalmente o paradigma pelo qual compreendemos nossa forma de viver. Somos seres vivos, e estamos, juntos com os outros animais e plantas, conectados a uma gigante rede autopoiética, Gaia. a hipótese Gaia sugere que todos os seres vivos do planeta compõem um ser maior, e que as redes de relações entre todos são responsáveis pela manutenção da vida em todo o planeta. Logo, se Gaia é um Imenso organismo, e o homem poderia ser considerado um tipo de célula inserida nesse processo, só podemos chegar a conclusão de que Gaia está com câncer, e que este somo nós. Crescemos desordenadamente e absorvemos recursos de forma descontrolada, desequilibrando tudo. que essas novas concepções possam servir de aviso a todos, pois assim podemos nos enxergar como parte de todo um conjunto  interdependente entre si.

 

O que é a vida? – parte 1

Olá a todos, peço desculpas pois dessa vez vou me meter a falar um pouco sobre biologia. Espero que os biólogos leitores possam contribuir com a discussão, e apontar os erros, inconsistências e mesmo discordâncias. Na verdade, não vou aqui definir o que é a vida, mas falar de um conjunto de teorias muito interessantes que, além de esclarecerem aspectos interessantes sobre o que define a vida, contribuem muito para a psicologia, mesmo que não haja muitos estudos nesse sentido. Como sempre, não consigo fazer textos muito curtos, então dividi o tópico em partes.

Muita gente conhece Fritjof Capra, físico que escreveu “O ponto de Mutação” e “O Tao da Física”, que falam principalmente da influência das filosofias orientais na ciência ocidental. Mas pouco ouvi na internet se falar do seu livro “A teia da Vida” (para ler, clique aqui), que mostra diversas pesquisas e teorias importantes sobre como definir isso que chamamos de vida, cujo surgimento fez de nosso planeta algo raro no universo (claro que há aqui controvérsias, para quem estuda sobre vidas extra-terrenas. Mas  mesmo que haja muita vida fora daqui sua ocorrência ainda é muito pequena, dada a imensidão do universo). ele nos mostra uma nova compreensão dos processos inerentes à vida.

Quando Vemos uma célula em funcionamento, percebe-se que nela ocorrem várias reações químicas. Por muito tempo a vida foi compreendida como sendo na verdade um conjunto de reações físicas e químicas, e que era só compreender essas que entenderíamos o que era a vida. Mas estudos mostraram que as leis de causa e efeito, que se percebe nas reações químicas, não são suficientes para compreendermos a vida.

Pensem na Segunda lei da termodinâmicaque diz que a entropia de um sistema tende a um valor máximo. Entropia significa a forma como a energia e a matéria se encontram distribuídas em um sistema. Um aumento da entropia, até seu desequilíbrio, indica um aumento da “desordem” do sistema, ou seja, aumenta-se o nível de energia que não pode ser mais convertida em trabalho, e o sistema entra em equilíbrio. Quando eu jogo uma bolinha para o alto, ela está carregada de energia potencial, que é convertida em cinética. Ao cair, parte da energia vira reação ao choque, outra parte barulho, outra parte calor, até que a bolinha para. O sistema está em equilíbrio, e se deixarmos el lá, nada acontecerá, a não ser que outra força aja sobre ela.

Na química também é assim, o sistema tende para uma maior entropia, até que a reação cessa. Dessa forma, a entropia não permitiria a formação da vida. a célula mantém reações químicas constantes, necessita de uma grande entrada de energia no sistema, mas consegue por si própria “buscar” essa energia no ambiente e manter suas reações.

Segundo o químico ganhador do Nobel Ilya Prygogine, além da entropia existe a sintropia, princípio oposto, no qual determinado sistema, se energizado, tende a níveis de organização mais complexos. Na natureza, temos essa estruturação no redemoinho de água que desce por uma pia. As forças físicas e gravitacionais entram em uma relação que chamamos de retroalimentação (a reação estimula sua própria continuidade). Enquanto houver um determinado nível de água, a estrutura do redemoinho se mantém, depois disso, a entropia domina, e ele se desmancha.

Na vida também é assim. A célula, ao receber glicose, oxigênio e outras substâncias, consegue por si própria manter e aumentar mais sua estrutura, conforme seu código genético. Se não há mais água e comida, a entropia domina, e ela morre. Porém, há uma grande diferença entre o redemoinho de água e a vida. A vida tem o que se chama de autopoiese. significa que ela, por si mesma, cria novas formas, se recria constantemente. Essa noção é essencial par compreendermos o que é a vida, e o que Capra diz em seu livro. Mas vamos continuar isso em outro post (para ler, clique aqui).

Quando a alma sofre: Depressão e Sociedade

Escultura hiperrealista Man under cardigan, de Ron Muek

Estou continuando aqui o artigo anterios sobre depressão (ver aqui). A sociedade atual consegue lidar com o deprimido? Olhe nas televisões, nos espetáculos, na enchente de piadinhas sem graça do Facebook. Será que as pessoas conseguem conviver com alguém que vê tudo em tons de cinza, sem gosto, que não consegue olhar para as belezas da vida?

Não há paciência para a depressão. A tristeza do outro é sentida como algo que contamina, e então as pessoas se afastam. Ou, quando ficam perto, fazem de tudo para animá-la, mostrar que não há razão em sua tristeza. Mas depressão não é uma simples tristeza, e uma forma de percepção de mundo diferente. Como Freud falou da hibernação, o estado de desamparo absoluto e sem nome leva a pessoa a uma retirada de interesse do mundo: sem vontade de sair, de vontade de sexo, sem vontade de lutar e até de viver… Como convencer alguém de que as coisas da vida são boas se tudo o que ela vê diante de seus olhos são ruínas, internas e externas?

Ora, além disso, o portador de depressão busca um estado placentário, um retorno impossível à quietude do útero. quer sua cama, quer ficar sem nenhum estímulo a sua volta, quer eliminar os pensamentos ruins. Como pode fazer isso nessa sociedade particularmente barulhenta, com out-doors, jingles e uma torrente de informações e de opiniões.

Se a tristeza do depressivo não é compreendida nem aceita, ela não pode ser superada. Como é uma tristeza sem nome, ela precisa ser tratada de corpo e alma (assim o interessante resultado das terapias alternativas, que atingem o corpo). Forçar sua saída é enterrá-lo mais fundo. Tem que ter acolhimento e paciência.

Também não é o caso de abandoná-lo em sua tristeza. É importante mostrar calmamente seu apoio, sua compreensão, mas aos poucos estimular sua melhora, fazê-lo se mover no seu próprio ritmo lento.

Nossa sociedade atual prioriza o indivíduo produtivo, que passa 24 horas de seu dia fazendo coisas úteis, produzindo e consumindo, alimentando o sistema capitalista. a pessoa com depressão está desligada disso, mas sente essa exigência do mundo. Muitas vezes vi o sentimento de culpa pois a pessoa não conseguia trabalhar como trabalhava, cuidar da família, cumprir suas responsabilidades. Nossa sociedade eliminou a possibilidade de se afastar do mundo, de se recolher e de elaborar sua perda, sua dor. Por isso hoje a procura por terapias mais rápidas aumentou, não há disponibilidade de tempo para si mesmo.

Dar-se um tempo, fisicamente e psicologicamente, se desligar um pouco das exigências do mundo, e poder sentir realmente suas dores, e ter nesse momento alguém que o acompanhe: assim se cria a dignidade de sofrer. Não há  vacina para a depressão, mas há sim a cura, e esta está não só nos remédios, nas terapias, mas em uma mudança social que valorize  vida.

 

Quando a alma sofre: Depressão

Weight, escultura hiperrealista de Jackie K Seo

Olá pessoal, tudo bem? Há muito Mako (fundador do site) me havia pedido para escrever algo sobre casos clínicos da Psicologia, pois achava que seria muito interessante e de grande importância para os leitores. Como estudo filosofia, acabei escrevendo mais textos críticos e teóricos, e deixei esse tema meio abandonado. Bom, resolvi retomar essa ideia, e criei uma série de postagens que chamei de “Quando a alma sofre”, e falarei aqui de diversos temas de psicopatologia, ou seja, das doenças mentais que afligem milhões de pessoas. Mesmo que eu tenha alguma experiência clínica, claro que não poderei aqui citar diretamente os casos que atendo, pois isso é proibido pela ética do psicólogo. Mas irei basear-me nessa experiências e nessas leituras para falar um pouco sobre esses temas.

Bom, após essa introdução, vamos entrar no tema desse post, que é a depressão. As pesquisas mostram que essa é uma das doenças que mais afligem a população mundial. Segundo o CID10 (o manual de classificação internacional de doenças) A depressão encontra-se entre os transtornos de humor,  ou seja, modificações patológicas do humor da pessoa, que possui dois extremos (mania, estado de euforia incontrolável, e a depressão). Há desde estados depressivos leves até os mais graves, acontecendo somente em algum momento da vida da pessoa ou sendo mais duradouro (distimia).

Em geral, o que acontece é uma diminuição do humor, da energia e da atividade. O deprimido sente-se em ânimo e disposição para exercer as atividades mais cotidianas, e dependendo da gravidade acaba passando muitas horas deitado. Passa por angústias terríveis, às vezes têm insônia, ideias frequentes de culpa, de ser inútil, baixa auto-estima. Em casos mais graves, o paciente chega a ter ideações suicidas, e o risco de morte aumenta.

Caso tenham vontade de conhecer mais a fundo os diferentes estados depressivos, consultem o CID aqui (capítulo V, F32). Esse artigo é o que me baseei para o que vou falar a seguir. A depressão, segundo a visão psicanalítica, tem relação com a própria formação do nosso sistema psíquico. Para Freud, o sistema psíquico se formou com a catástrofe da era glacial. É um modelo especulativo, ou seja, ele não parte de provas concretas, mas reconstrói o fato a partir das evidências que tem na clínica, e aí testa se o modelo consegue explicar o que ele pretende.

Com a era glacial, houve escassez de alimentos, e o homem, assim como os animais, entrou em um estado de hibernação, se desligando do mundo exterior, passando a dormir mais. Para a psicanálise, há aí uma experiência catastrófica que marca a mentalidade do homem. Caso este passe por uma experiência semelhante (não precisa ser algo grave, muitas pessoas tem uma vida relativamente confortável e mesmo assim entram em depressão, o que importa é o sentido que a experiência tem para a pessoa), seu corpo volta a recusar o mundo, e o deprimido centra-se em si mesmo, sofrendo uma angústia que não consegue dar nome.

Muitas vezes a depressão é acompanhada do que Freud chamou de Melancolia, e que não se fala muito hoje. Melancolia é uma espécie de luto patológico. Quando perdemos alguém amado, ou algo muito importante para nós, é normal sentirmos uma tristeza e ficarmos alguns dias assim. Mas quando não conseguimos sair dessa tristeza, e ela dura meses, aí ela se tornou patológica. A  pessoa entra em depressão, mas com um forte sentimento de culpa, como se fosse o grande causador da perda.

Quando atendo pacientes deprimidos, a sensação que tenho é de que minha energia está sendo sugada, e que no fim do atendimento fico cansado, com sono. Isso é devido ao fato de que o deprimido, em seu estado de hibernação, busca sugar o máximo de alimentos (por isso muito comem demais), e também da energia psíquica das pessoas, mas fazem isso inconscientemente. Talvez esteja ligado a isso a sensação muito comum que elas tem de estar nos prejudicando, ou de estar prejudicando a todos os que a rodeiam.

Na próxima postagem, eu quero mostrar para você a dificuldade que se é estar em depressão nos dias atuais, mostrando como nossa sociedade vê as pessoas com essa doença, que é grave e trás muito sofrimento.  Quero já indicar para vocês darem uma olhada no site Pensamentos Filmados, onde nossa parceira Ana Maria Saad faz um importante trabalho de apoio e esclarecimento dessa doença, além de contar suas experiências pessoais. Ela, mais que eu, tem muita autoridade para falar do que é sofrer com a depressão.

Nada é inocente na internet.

Se há um assunto a se comentar hoje em dia pela psicologia, é o quanto nossa subjetividade (o que somos enquanto sujeitos, pessoas com escolhas) foi trancafiada no mundinho bidimensional dos bytes. O que era para ser um meio tecnológico se tornou forma de subjetivação.

O que quero dizer com isso?

Simples… antes a internet era somente uma necessidade técnica, pura forma de se comunicar mais rápido com os outros. Hoje, cada vez mais ela substitui ou complementa o papel que foi e ainda é da televisão: formar mentes.

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