Author: Vitor Hugo (page 1 of 6)

Psicanálise e o “para além” do individualismo

Desde a faculdade, uma questão que nos incomodava a respeito da natureza era se a bondade ou a maldade humana é somente uma questão social ou se está impregnada em sua estrutura biológica e/ou psicológica. Sobre isso, muitas vezes nos questionávamos se o ser humano poderia ser genuinamente altruísta. Veja por esse ângulo: eu faço o bem a outrem somente pelo amor que tenho pelo outro, ou pelo ganho pessoal que isso pode me trazer, nem que seja status, ou aquele sentimento de estar fazendo o certo. Se for devido a essas últimas opções, então o altruísmo não passa de um egoísmo adaptado à nossa realidade social.

Com o tempo, pudemos perceber que essas questões são capciosas e não levam a lugar algum. Como definir que a ajuda que ofereço é puro sacrifício pessoal ou apenas uma forma de auto-afirmação? Será que as ações não valem mais do que o que elas significam para nós? Importa se eu faço uma doação porque sinto a necessidade de ajudar ou se é para ganhar um like no Facebook?

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A nova cara da Inquisição

Interrogatório no “Strappado” (Bessonov Nicolay, 1992)

A internet fornece conteúdos apresentados de todos os tipos. As novas roupagens e os raciocínios apresentados nos leva a encarar o que vemos como verdades, caso não desenvolvamos um mínimo de raciocínio crítico. Bom, hoje mesmo entrei em contato com um blog cuja missão me pareceu interessante: A Mídia Illuminati, que visa “esclarecer” a mente das pessoas sobre o simbolismo oculto dos grandes satanistas, que buscam através do controle mental instaurar uma nova ordem mundial.

Creio que não estão errados em seu argumento inicial, segundo minha opinião. As altas rodas da sociedade desde muito utilizam-se de estratégias, nem todas conscientes, de manipulação da sociedade, buscando o controle da opinião pública. Nós aqui do Brasil sabemos bem claramente o sistema: ensino público de baixa qualidade, somado a uma mídia poderosa e formadora de opinião. Não é preciso mais que isso para dar início a uma massa manipulada.

Entretanto, o site vai além: associa o controle a uma seita satânica, e coloca que a Nova Ordem Mundial é aquela sobre o controle do Diabo. Diz que o controle mental se encontra nos inúmeros simbolismos espalhados pela mídia. Aí começa a mistura: Cabala, Illuminatti, Maçonaria, Rosacrucianismo, Paganismo, etc, todos os símbolos aparecem como forma de controle mental, exceto um: o Cristianismo.

Se vocês quiserem ver a ideia básica deles, comecem por ver esse video:

Esse é o início de uma série que explica a forma de raciocínio dos criadores do blog. Sinceramente, poderia passar horas debatendo cada argumento, relativizando cada símbolo, cada entrevista, cada informação. Mas não cabe aqui um trabalho tão profundo. Espero que os leitores tenham por si a capacidade de refletir sobre o que vêem.  O que me interessa é a conotação de perseguição religiosa que aparenta na posição dos autores.

Há claramente uma posição cristã, que nem é citada diretamente no vídeo – o que demonstra que para eles a verdade cristã é a única, tão óbvia que nem precisa ser citada. O vídeo todo parte do discurso paranoico tão comum às teorias de conspiração: busca-se uma lógica oculta, não acessível a todos, e que foi criada por alguém ou alguma instituição, a fim de controlar ou obter algum tipo de benefício.

Eu dou valor ao críticos. Às pessoas que olham as coisas e se questionam sobre o que há por detrás delas. Assim, é importante vermos que as músicas, os clipes, e os artistas não são simples profissionais, mas propagam determinadas ideologias e possuem estruturalmente propósitos políticos-ideológicos, e pode ser até espirituais. Mas antes disso, devemos questionar também o questionador.

Eu, Enquanto alguém que questiona, devo ser questionado, debatido. O que digo não é verdade, mas OPINIÃO (já digo isso me preservando de possíveis contra-argumentações…).

Assim, posso então colocar meu ponto de vista: Essa perspectiva de ver o satânico em tudo, sem nem ao menos contextualizar os símbolos e teorias religiosas que tanto apontam, não teria relação com a mesma postura Católica, na Idade Média, que, em parte, absorveu símbolos de outras religiões, mas que categorizou todos os outros como símbolos satânicos? Seria essa a nova roupagem da Inquisição, uma forma do pensamento religioso ser preservado na mente mais jovem, fascinada pela face oculta do poder? Assim, se captura no pensamento cristão a parcela de pessoas que age não pela pregação, ou seja, pela participação e defesa das ideias cristãs, mas sim pela busca e denúncia do que não é cristão.

É divertido caçar demônios. Mais divertido que ir à missa. Ouvir discos ao contrário, buscar imagens simbólicas no símbolo da Coca-Cola… Essa forma de pensar não é nova, e sobrevive até hoje. O que a torna ruim, ao meu ver, é que ela é uma forma de pensar pela metade, ou seja, você critica mas não se critica. Não se avalia de onde parte para pensar o outro.

Assim, a conspiração dita “satânica” pode ser tão verdadeira quanto a conspiração que se diz “cristã”…

Vale ainda rever a história do século XXI?

Esta semana estou preparando uma aula, e resolvi fazer uma retomada sobre o século XX. Fiz-me uma pergunta: Ainda é válido retomar com as pessoas nossa história. A cada dia que passa, só faz me confirmar que sim, necessitamos sempre insistir na reflexão de nossa história. Por exemplo, qual foi a novidade das revoltas de Junho no Brasil? Quem poderia pensar nisso, sem comparar (semelhanças mas principalmente as diferenças) tais revoltas com outros momentos de nossa história, como as revoltas de 1968?

Para quem está cansado das velhas interpretações de nossa história, relanço aqui o documentário “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, do diretor Marcelo Masagão, com a brilhante trilha sonora  de Wim Mertens. Revi este documentário, e percebi que ele continua atual. Vale a pena ver.

Mais além do projeto “cura gay”: O que se esconde atrás disso?

Creio que o mais importante é fugir das mídias quando se quer debater um tema de interesse humano ou que gere muita polêmica. No caso da mal-fadada “cura gay”, muito se diz, e a televisão e a internet sambam em cima da notícia, que, no clima atual, dá ibope. Marcos Feliciano, essa mistura de político e religioso, suas várias cenas e discussões acerca da sua posição frente ao fenômeno da Homossexualidade, geram inúmeros discursos, na sua maioria irrefletidos, com base em dados indiretos, distorcidos pelas mídias.

Já não sei mais de onde parte as distorções midiáticas: se é das grandes empresas, que “criam” informações vendáveis, ou se da mídia que eu chamaria de paralela, hoje na verdade dominante, que é aquela que percorre a internet, e que cada vez mais ganha espaço na vida das pessoas.
Assim, o que se chama “cura gay” se torna uma hidra de diversas cabeças.

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Mais do que simples imagem de nós mesmos

Estava passando pelo corredor de meu apartamento e levei um baita susto, olhei de lado, para o espelho no fundo do corredor, e vi uma sombra. Pela posição, a sombra parecia ser de alguém vindo do quarto, mas na verdade era somente minha sombra, que no jogo de posições do espelho ganhou, por um momento, vida própria.

 É incrível a vivacidade psicológica que nossa imagem especular e nossa sombra possuem. Quando somos bebês, vêmo-nos no espelho quase que como os animais: a imagem parece ser outra pessoa. Entretanto, há uma enorme diferença entre o bebê e o animal, pois este se sente muito feliz ao brincar com sua imagem no espelho. Esta lhe desperta grande interesse, ele ri, toca a imagem com a mão, e com o tempo tenta buscar a pessoa que está ali atrás.
Psicologicamente, dizemos que a criança está no estádio do espelho. Ele está aprendendo que possui um corpo completo, que pode ser visto pelo outro. Ao mesmo tempo que aprende a ser ver completo, ele vai entendendo que existem outras pessoas, diferente dela, e que podem ver seu corpo de uma posição diferente da sua.
Aos poucos, adquirimos um saber que se torna racional, de que a imagem é uma ilusão, e que só existe na superfície do espelho.
Só que nunca nos tornamos totalmente racionais, felizmente. Nossa imagem e nossa sombra carregam um imaginário e um sentimento forte, são quase independentes, são quase um parte de nós fora de nós mesmos. Isso é mostrado pelas diversas fábulas e fantasias de um mundo dentro do espelho, as imagens de terror de nossa imagem se movendo sozinha, etc.
Ver a si mesmo no espelho significa, na filosofia de Merleau-Ponty, que temos um sentimento de união com o mundo profunda. Só nos completamos no mundo, e esse circuito nunca termina.

Documentário: Da Servidão Humana

A dublagem não está muito boa, mas o conteúdo do documentário é demolidor. Ele relata dolorosamente o estado servil o qual nos encontramos, e o pior, em uma servidão consentida. Aceitamos nossa prisão, pagamos por ela, a desejamos. Não que tenhamos que olhar a modernidade sempre com pessimismo, o que já nos alertou o filósofo Gilles Lipovetsky, autor do livro “A era do vazio“. Mas temos que acordar para o como nossa subjetividade, aquilo que nos tornamos enquanto seres humanos, está aprisionada às redes de exploração de capital. O documentário tem um forte tom pessimista, mas creio que seu objetivo é mobilizar-nos emocionalmente para a miséria social humana, e assim podermos tormar alguma iniciativa.

Ciência, a deusa deste século

É muito interessante como as pessoas usam mal argumentos científicos hoje em dia. Quando a gente diz “cientistas afirmam que…”, as pessoas te ouvem como se dissesse uma verdade absoluta. Curioso, antes esse efeito era conseguido somente através dos livros religiosos, lidos por seus sacerdotes e profetas. Não há contestação, ninguém se pergunta se aquilo é o que chamamos de “verdade”.

Por várias razões, creio que as pessoas superestimam os argumentos científicos. Primeiro, é claro, existem formas de mostrar se a pesquisa foi rigorosa, ou se seu método é eficaz e válido para essa investigação. Muito do que se afirma ser científico hoje é na verdade baseado em dados pouco confiáveis.

Mas uma pesquisa bem feita, que usa um método rigoroso, e que diminui ao máximo as variáveis que podem distorcer seus resultados, também não pode, na minha opinião, ser chamada de verdade. Teorias possuem prazo de validade, elas vão se modificando ao longo dos anos, podem se mostrar parciais e até enganosas. Recomendo a todos os interessados em conhecer mais profundamente o que é a “ciência” que leiam os livros “O que é ciência afinal“, de Alan Chalmers, e “A Estrutura das Revoluções científicas“, de Thomas Kuhn.

Nas ciências humanas, essa dificuldade é ainda maior. Odeio principalmente quando as pessoas utilizam argumentos biológicos para explicar determinado comportamento. Lembrem-se que houve a entrevista polêmica de Silas Malafaia (assista aqui), que apelava para a genética, na tentativa de dar embasamento em suas palavras. Logo apareceu no Youtube um geneticista que contestou tais argumentos (assista aqui).

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A grande mudança social do nosso século

Sei que esses vídeos são mais especializados para aqueles que estudam psicanálise, principalmente a obra de Jacques Lacan. Entretanto, Jorge Forbes, aos 11 minutos e 20 segundos do primeiro vídeo e no início do segundo, faz um resumo das grandes mudanças de nossa sociedade, entre aqueles que hoje possuem mais de 42 anos e os que tem menos que essa idade. Grandes mudanças em nossa forma de viver, de amar, de gerir e se relacionar. Essas marcas são imprescindíveis para se compreender esse momento no qual vivemos, em relação à nossos pais e avós, em relação às leis e normas sociais. jorges Forbes é do grande psicanalista e possui várias palestras no Youtube, vale a pena conferir.

O futuro da Personalização: quando o perigo é o excesso de mim mesmo

Esta semana assisti por acaso a partes de um programa da Discovery, o 2111, no qual futurólogos fazem previsões sobre como o mundo estará daqui a quase um século. Bom, boa parte de nós poderemos talvez ver alguns desses avanços, se a expectativa de vida continuar a aumentar. O que achei interessante nesse episódio foi a pesquisa de identificador de passos. Desculpem falar assim vagamente, mas não encontrei o episódio na internet ara mostrar a vocês. A questão é, os pesquisadores acham que a forma mais fácil de identificar as pessoas é por seu jeito de andar. O passo é com uma digital, e pode ser utilizado como forma de identificação, com sensores instalados no chão da entradas de prédios. Ao entrar, já vão saber que você é, quais seus dados básicos, suas preferências comerciais… O intuito mais visado dessa tecnologia, pelo menos o que foi apontado pela série, é a personalização do marketing e da propaganda. Claro que esse tipo de identificação global e involuntária trás problemas políticos, e quem assiste a série “Person of Interest”, ou mesmo quem se lembras dos identificadores por leitura de íris do filme “Minority Report”, sabe bem sobre o que estou dizendo.

O que achei mais interessante e fundamental de comentar na série foram as previsões sobre essa tecnologia de personalização de atendimento. Os avanços previstos são mais sobre uma forma rápida de identificar a pessoa, ou de integrar essa personalização em anúncios, eletrodomésticos, etc. Mas o que não se disse foi que essa personalização já existe e está em um estágio avançado. Até poderia dizer que o início de nosso século foi palco de uma revolução posterior a da Era da Informação. O que Aconteceu foi o advento das redes sociais.

à primeira vista, muitos devem achar inocentes o poder de tais sites como o Google e o Facebook. Entretanto, Tais empreendimentos da internet vem revolucionando os algoritmos de busca, filtragem e cruzamento de dados pessoais, o que possibilita um maior monitoramento de gostos pessoais. As propagandas do Google e do Facebook são direcionadas através de uma leitura de seus dados pessoais, de suas postagens. E a Psicologia sempre foi uma das mães da propaganda. Principalmente a Psicanálise.

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Você está disposto?

No post “O Revolucionário de sofá e a síndrome do mestre“, Mako conclui muito bem sobre o que é necessário para mudar, e aponta que para se ter uma atitude revolucionária é preciso “Apenas estar disposto“. Creio que esse ponto é crucial, e por isso resolvi retomar esse post.

O que leva alguém estar disposto? Antes disso, o que é disposição? Mais uma vez entramos em uma área na qual corpo e mente atuam juntos. Disposição é uma tendência a…, ou seja, falando grosseiramente, uma motivação da pessoa a agir de determinada forma. Requer energia, um certo estado de desibinição em relação às experiências novas que a vida apresenta, o que chamamos de “estado de espírito”. Mako fala no post que até os 7 anos 90% das crianças são gênios. Diria diferente, diria que na infância as crianças estão em um estado de “polimorfismo” de suas ações, comportamentos e gostos. Isso indica que a criança é uma experimentadora natural, e que se não houver traumas graves ela poderá experimentar sem medo as diversas experiências da vida, de forma flexível. Isso sim é uma atitude genial (não confundam com esses gênios da TV, como os da série “The Big Bang Theory”, há vários tipos de genialidades).

Assim, a criança está em um estado de alta motivação, e se coloca disposta a realizar diversas atividades. O processo de socialização ocidental, quando permeado por moralismos, acaba por reprimir boa parte dessa criatividade e dessa disposição. Há teorias da psicologia escolar que dizem que o mal-comportamento dos alunos na escola não é fruto de sua criação familiar ou de genética, mas é puro tédio, pois a escola não possibilita mais que sejam criativos. A disposição é algo que não floresce sozinha, mas tem que ser cultivada, exercitada, e investida. Uma sociedade estruturada vive no fascínio do Mesmo, ou seja, busca manter a todo custo as coisas como estão. As pessoas que se enquadram no sistema acabam por crer nessa ideia, e lutam contra a rebeldia de seus filhos, e assim contra seu potencial de mudança.

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