Author: Paulo Ferreira (page 2 of 3)

Gene Sharp e a Revolução sem violência

 

Por todos os dias de protestos que temos tido no Brasil, as pessoas sempre demonstram buscar alternativas de ação e estratégias organizacionais, especialmente quando estas são baseadas em experiências anteriores. O Livro de Gene Sharp tem sido um guia para protestos e mudanças em todo o mundo, tendo influenciado desde o movimento da Praça da Paz Celestial em Pequim, a revolução na Servia e muitos outros movimentos com suas idéias de substituir a violência por atitudes socialmente revolucionárias, frequentemente baseadas na retirada do apoio do povo às tentativas de ações promovidas pelo regime ao qual se opõem. No Brasil de hoje, vivemos uma realidade bastante diferente de uma guerra; mas apesar disso, me pareceu de extrema importância e muito oportuna a divulgação das ideias deste Nobel da Paz. Assim, aqui temos o link para o Documentário completo legendado, e o link para o livro:

http://bibliot3ca.files.wordpress.com/2011/03/da-ditadura-a-democracia-gene-sharp2.pdf

. Todo o material constante nesta publicação é de domínio público e pode ser reproduzido sem a permissão de Gene Sharp. Citação da fonte e notificação à Instituição Albert Einstein para a reprodução, tradução e reimpressão desta publicação são apreciados.

Protestos em São Paulo, falta de representação e manifestações

 

 

protesto SP

 

 

Dezesseis dias antes dos protestos de 6 e 7 de junho em São Paulo, publiquei no Blog Destruidor de Dogmas um texto que vim a chamar de Manifesto Occupy your Mind. Nele, fiz uma proposta simples de Ação pela não-ação, como meio efetivo de resposta e comunicação da sociedade para os organismos que a “organizam”.  Publiquei o Manifesto tendo em mente o que venho dizendo desde os últimos meses do ano passado, tanto em palestras, artigos e conversas, quanto no livro que publiquei em Março “O Mensageiro – O Despertar para o Novo Mundo“: o velho mundo, a organização social tradicional, os meios de contenção, a antiga apatia e falta de participação política viveram seu ciclo e estão hoje terminados.

Muitos argumentam que não podem ver as mudanças, senão em pequenos grupos, como que bolsões de ativismo, seja ele positivo ou de caráter não-pacífico. O fato que a sociedade como um todo, assim como os poderes vigentes, não reconheçam a mudança como significativa está muito longe de significar que ela não exista. Ela é tremendamente clara e absolutamente real do ponto de vista de quem procura compreender tendências, especialmente quando existe um conhecimento sobre quais os sinais a serem buscados e devidamente interpretados no conjunto do que representam.

O manifesto – absolutamente pacífico e positivo – foi divulgado através do blog e por meio do Facebook e do twitter, mas obteve um alcance moderado.  E o que fica claro com os protestos, confrontos, prisões e depredações acontecidas esta semana em São Paulo: a sociedade não consegue encontrar meios para mobilizar-se em grande números, em fazer-se representar de um modo efetivo (posto que os políticos que deveriam fazer isto, em sua grande maioria, há muito deixaram de representar A Sociedade e escolheram representar apenas outras “sociedades”, ou seja, as corporações e sociedades comerciais e seus interesses exclusivamente monetários). E na falta de uma representação real, tanto quanto na ausência de uma capacidade de organização pacífica efetiva e grande o suficiente para produzir algum resultado, o que ocorre é que os elementos mais extremos – aqueles que não podem conter internamente sua indignação; acabam por tomar para si a responsabilidade de servir de alerta, de “tocar o sino”, do modo que lhe seja possível, eventualmente com ansiedade, barulho e agitação. Estas características do movimento, por sua vez, atraem uma quantidade de “apoiadores” espúrios, interessados apenas na produção do caos meramente por interesses próprios e egoístas, criando depredação como mero exercício de exibição de poder. Logo, o poder constituído intervém, e instala-se o confronto entre aqueles que não são representados legitimamente e aqueles que representam a “ordem vigente” (que, a rigor, acaba por representar apenas uma ínfima parte da sociedade e seus interesses particulares.)

Seria positivo que fosse logo percebido: o que aconteceu nos últimos dias vai muito além do “barulho pelo preço da passagem”. É um sinal de modificações e tensões sociais que muitas vozes vem sinalizando há tempos, sendo a minha apenas mais uma delas. O que aconteceu nos últimos dias em São Paulo é apenas uma amostra tímida do real significado da sociedade efetivamente “dizendo”: – Não dá mais.

É mais que tempo da sociedade buscar modos pacíficos e mais organizados de representar-se massivamente, o quanto antes. Espero que surjam muitas novas formas. O Manifesto Occupy Your Mind é, certamente, uma delas.

~ Paulo Ferreira

E SE nós parássemos o mundo?

por Paulo Ferreira.

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Apenas por um tempo, apenas por 2 dias?

Começando na sexta à noite, e indo até o domingo à noite?

Todos nós já vivemos momentos em que simplesmente queríamos que algo parasse.

Que por um breve tempo que fosse, parasse todo o consumismo, todo o nervosismo, toda a correria.

Todo o stress e todo abuso.

E se fosse fácil, assim, de um modo que qualquer um saiba o que fazer: NADA.

Nada que se pague, nada que se consuma, nada que estresse, nada que gaste.

E se todos ficássemos em casa, sem ligar o carro, sem comprar pão, sem ir à rua,

E todos nós usássemos esse tempo apenas para estar com quem amamos, ler os livros que já temos, cantar as musicas que gostamos?

E se muitos de nós usassem esse tempo para meditar, orar, pedir, pensar?

E se muitos de nós usássemos esse tempo para desligar a TV, as luzes, os filmes, deixássemos os jornais na porta, do lado de fora?

E se aqueles de nós que tem filhos dissessem a eles sobre o que se trata, para que eles também brincassem com o que já tem e não precise ser ligado na tomada?

E se muitos de nós usássemos esse tempo para olhar nos olhos e para olhar para dentro, verdadeiramente?

Se alguns de nós usassem esse tempo para dormir, profundamente, muitas e muitas horas?

E se desligássemos os celulares e os telefones e não respondêssemos emails nem ligássemos o computador?

E se muitos entre nós não usasse nenhuma forma de energia elétrica, e outros ainda, fizessem um jejum?

E se, muitos de nós fazendo isso, pudéssemos dizer ao MUNDO: eu quero que isso PARE. EU QUERO QUE ISSO MUDE.

E se isso fosse, com o tempo, crescendo e se transformando numa mensagem REALMENTE PODEROSA?

E se muitos outros, como nós, pudessem entender essa mensagem?

E se da primeira vez fôssemos centenas… na segunda vez fôssemos milhares, e na terceira vez.. MILHÕES…

E se isso pudesse COMUNICAR ao MUNDO uma mensagem CLARA, SIMPLES

A DE QUE QUEREMOS VIVER DE OUTRO MODO

Mais simples. Mais fácil. Mais verdadeiro

E se isso fosse tão fácil quanto apenas FAZER ISSO?

E se ao invés de dizer que gostou da idéia, você a compartilhasse com TODOS que você conhece?

E se ao invés de apenas falar a respeito, você FIZESSE ISSO?

E se o mundo começasse a MUDAR ao ver que milhões querem exatamente isso?

 

 

 

Palestras Banidas do TED: Rupert Sheldrake e os “10 dogmas da Ciência”

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Por Paulo Ferreira

Recentemente, postei no facebook sobre o livro escrito por um neurocirurgião que escreveu um livro afirmando que a consciência não é criada pelo cérebro. Ele afirma isso porque viveu uma experiência de quase-morte e reviu todos os seus próprios conceitos científicos estabelecidos em 25 anos de ceticismo e materialismo científico. O livro em questão é Uma Prova do Céu – A Jornada de Um Neurocirurgião À Vida Após A Morte do Dr. Eben Alexander III [http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/4834013/uma-prova-do-ceu-a-jornada-de-um-neurocirurgiao-a-vida-apos-a-morte/]

Nesta mesma semana, além do post de ontem sobre o TED aqui no Destruidor de Dogmas, encontrei uma matéria interessantíssima do blog Collective Evolution sobre uma palestra realizada por um cientista no TED [www.ted.com], um palco famoso por seu pluralismo e apoio à liberdade de expressão. Entretanto, mesmo toda a liberdade estimulada pela organização das TED Talks sucumbiu à revolução científica proposta por Rupert Sheldrake, um biomédico inglês que escreveu “The Science Delusion”, ou, em tradução livre, A Ilusão da Ciência (o livro ainda não tem titulo em português). Foi o conselho de consultores científicos do TED que decidiu banir a palestra de Sheldrake.

O que não deixa de ser uma clara indicação do quanto o seu conteúdo é inquietante. A decisão de banir a palestra, entretanto, tornou tudo muito mais forte e evidente, ao mostrar que a comunidade científica em grande medida anda bastante presa ao que Sheldrake chamou de “Dogmas da Ciência”.  A palestra foi disponibilizada alternativamente no YouTube, e rapidamente as milhares de visualizações geraram milhares de comentários.. criticando a postura de banir a palestra, o que por sua vez, levou o TED a reconsiderar (sabiamente) e voltar a disponibilizar o conteúdo.

No centro de todo esse acalorado debate, estão as afirmações de Rupert Sheldrake sobre o que ele tem chamado de 10 Dogmas da Ciência – dez afirmações que, na opinião deste cientista, não se sustentam como afirmações e deveriam, antes de mais nada, ser tratadas como perguntas, visto que a ciência oficial não tem dados ou comprovações para fazer afirmação alguma seguindo aquilo que poderia efetivamente ser chamado de “processo científico” – ao mesmo tempo em que existem milhares de evidências acumuladas ao longo dos anos que desacreditam a validade dessas afirmações. Então vamos a elas:

Rupert Sheldrake resume 10 dogmas que ele considera existir dentro da chamada “ciência oficial” hoje. Ele afirma que quando se observa cada uma dessas idéias cientificamente, vê-se que elas não são de fato verdadeiras:

1. A Natureza é mecânica, ou assemelhada a uma máquina.

2. Toda matéria é inconsciente.

3. As leis ou constantes da natureza são fixas.

4. A quantidade total de matéria e energia é sempre a mesma

5. A natureza não tem propósito

6. Hereditariedade biologia é material

7. Memórias são guardadas dentro do seu cérebro

8. Sua “mente” (consciência) está dentro da sua cabeça

9. Fenômenos psíquicos como a telepatia não são possíveis.

10. A medicina mecanicista é o único tipo que funciona

Procurei resumir rapidamente esse assunto porque todos os links, textos e palestras citados ainda não foram traduzidos, e isso dificulta muito o acesso no Brasil, onde pouca gente domina o inglês para acessar o original. Antecipadamente, perdoem-me qualquer inexatidão, a intenção aqui é a de disponibilizar, ao menos o essencial do debate, o quanto antes.

Todas as velhas fronteiras perdem rapidamente a validade. Todas as velhas “certezas” parecem cada vez mais hipóteses construídas sobre pilares muito mais provisórios e inconsistentes do que pareciam há alguns anos. A ultrapassada visão de ciência e espiritualidade como “necessariamente pólos opostos” perdeu completamente a validade. Exatamente como tantos pensadores do movimento universalista ou da espiritualidade contemporânea vem sinalizando há um bom tempo. Parece que os muitos cientistas começam a enxergar a ilusão desta divisão artificialmente imposta e silenciosamente aceita, e resolveram tornar-se parte ativa no debate. Da minha parte, que sejam, finalmente, muito bem vindos!

Seguem todos os links originais sobre toda a polêmica:

http://www.collective-evolution.com/2013/04/10/banned-ted-talk-rupert-sheldrake-the-science-delusion/

<iframe width=”560″ height=”315″ src=”http://www.youtube.com/embed/JKHUaNAxsTg” frameborder=”0″ allowfullscreen></iframe>

http://en.wikipedia.org/wiki/Rupert_Sheldrake

http://blog.ted.com/2013/03/18/graham-hancock-and-rupert-sheldrake-a-fresh-take/

 

TV Australiana mostra a verdade nas ruas do Tibet.

Há quem questione se o povo Tibetano considera-se prisioneiro do governo da China. Esta reportagem da TV Australiana de outubro de 2012 foi realizada em segredo, porque a China não permite jornalistas estrangeiros no TIbet. A verdade não poderia ser mais evidente: mais de 40 monges jovens atearam fogo a si mesmos, como forma de protesto contra a sua situação de prisioneiros em sua própria terra. (ATENÇÃO: há cenas fortes no video)
E o povo vive numa zona controlada e militarizada, prisioneiros da ditadura chinesa.

Os repórteres foram seguidos por pessoas do governo chinês, que insistiam que eles fossem embora. Quando perguntados sobre a razão para proibir a reportagem, o representante do governo chinês termina por dizer uma frase que resume toda a verdade:

– This are government rules. You can’t film here. (Isso é regra do Governo. Você não pode filmar aqui).
– But for what reason? We film everywhere in the world, why not here? (Mas por qual razão? Nós filmamos no mundo inteiro, por que não aqui?)
– “This is Tibet!” (Aqui é o Tibet!)

Se o Dinheiro não existisse – Alan Watts

Allan Watts

http://pt.wikipedia.org/wiki/Alan_Watts

 

Vídeo incrível e potencialmente muito polêmico. Como muitos apontam: é fácil dizer isso quando não se está com fome, ou desde que ninguém dependa de você para ficar vivo. Sim, é obviamente verdade. Podemos ir além desta observaçao agora?

A minha sensação fundamental quando vi este vídeo foi: Como eu queria que alguém me tivesse dito isso, com essa clareza, quando eu tinha pouca idade, nenhuma responsabilidade e a vida toda pela frente.

Então, antes mesmo de compartilhar com outras pessoas, antes mesmo de publicar a respeito, sabe o que eu fiz?

Eu mostrei esse vídeo ao meu filho. Que tem ainda pouca idade (13 anos) e muito tempo pela frente. E eu sinceramente, muito sinceramente, espero que ele viva a vida dele lembrando-se deste video.

A cada dia. TODOS os dias.

 

Bóson de Higgs – A Partícula Deus

Alguns dias após a divulgaçao da descoberta do Bóson de Higgs, pesquisando o assunto na internet, encontrei essa incrível palestra de Sri Sri Ravi Shankar. Ele relaciona, não apenas como a partícula era citada nos antigos textos védicos – mas também, como foi previsto, nesses mesmos textos antigos, que a partícula seria encontrada.

Sri Sri Ravi Shankar é o Fundador da Art of Living – no Brasil, Arte de Viver, uma Organização Mundial para a Cultura de Paz.

Vale muito a pena dedicar 15 minutos…

O Materialismo está Morto.

 

(C) Paulo Ferreira, 2012. Todos os direitos reservados.
(Autorizada a publicação, desde que citada a fonte.)

 

Foi Nietzsche, em A Gaia Ciência e depois em seu Assim Falou Zaratustra, de 1883, que cunhou a famosa frase “deus está morto”. Foi mal compreendido, como é tão comum a todos que trazem idéias novas ou as registram em frases emblemáticas como ele fez. Para qualquer um que entenda minimamente o pensamento de Nietzsche, claro está que ele se referia ao deus “pequeno, vingativo e excessivamente humano” ou seja, aquele deus criado pelos homens à imagem e semelhança do homem. Um arquétipo de deus medieval, declarado morto desde o século dezenove – morto para o pensamento, para a relevância, morto para o mundo pensante.

Bem sabemos que mesmo este arquétipo vencido continua ocupando espaço em muitas cabeças mundo afora, mais de um século depois disso tudo. Porque este mundo é muitos mundos, porque a fome de pão e a fome de conhecimento foi sempre o estado no qual se preferiu manter grande parte do povo em nas eras governadas por poucos, aqueles que se aproveitam da fome e da ignorância para manter cativos os homens.

Mas vemos que hoje, no século XXI, este arquétipo morto não fala mais às novas gerações. Estas não se identificam com ele minimamente, não concebem em que cela escura da alma alguém poderia acreditar em tal deus humano e falido. E isso é por demais evidente para merecer muita discussão a respeito – mesmo considerando que há ainda hoje filhos famintos de pão e de luz, vivendo na ignorância professada por seus ancestrais.

Mas há hoje uma nova morte sendo anunciada, insistentemente, ainda parcialmente (e muito intencionalmente) ao largo da devida atenção da grande mídia comercial: A morte do materialismo.

Esta crença na matéria como única realidade; talvez a mais estranha dentre tantas crenças bizarras as quais o homem foi sempre tão pródigo em produzir; ganhou um impulso imenso com a desesperança criada no século marcado por duas guerras mundiais.

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Homem em Guerra

Publico aqui uma crônica que escrevi originalmente em 2009 e foi selecionada e publicada no livro do Prêmio Porto Seguro de Literatura – categoria crônicas.

Homem em guerra.

 

O homem dessa primeira década do século XXI é um homem em guerra. O estado de guerra mudou com o passar dos tempos. Até o início do século XX, era uma coisa física, real, aberta. Na segunda metade do século XX, tornou-se uma guerra de ameaças entre nações, a guerra fria. E no final do século XX e começo do século XXI, tornou-se uma guerra interna, de cada homem consigo mesmo.

Vivemos em guerra contra nossas limitações. As do corpo ou as da mente. Lutamos contra nossos limites, físicos, mentais ou espirituais. Vivemos em guerra por sermos hoje mais materialistas que nunca, e mais individualistas que nunca. Toda a tecnologia e as novidades da área de beleza e saúde nos convenceram que podemos ser jovens para sempre, belos para sempre. E se não somos suficientemente belos, temos mais que possibilidade: temos dever, obrigação de nos melhorarmos.

O homem atual não sabe o que é paz. Embora não viva a guerra aberta nos campos nem a guerra fria entre nações, vive a guerra interior da qual não pode escapar. Aceitar-se, compreender-se significa uma rendição inaceitável nesse modelo perfeccionista e consumista. Não fazer cirurgia plástica, ou não fazer a enésima especialização na carreira, torna-se imoralidade.

Descanso é algo mal-visto. Descanso é algo que somente os muito ricos e muito belos deveriam ter. E mesmo esses não têm. Sentem-se igualmente em guerra com eles mesmos, não se aceitam, querem o aperfeiçoamento constante, contínuo, a riqueza crescente.
Não importa o tamanho da montanha de dinheiro que tenham hoje. Se amanhã não tiverem ainda mais, sentir-se-ão fracassados, perdedores. Hoje, quase todos vivem exaustos.

Hoje, muitas pessoas, num dia de trabalho, não dizem que vão almoçar. Dizem que vão apenas “comer qualquer coisa” ou “pegar um lanchinho”. As pessoas têm vergonha do tempo que passariam alimentando-se com calma, almoçando e conversando enquanto o fazem. Um almoço que leve mais de 30 minutos e não seja dedicado aos negócios é praticamente uma vergonha. Aqueles que o fazem, às vezes não se permitem admitir que o fazem, por medo das críticas. Envergonham-se do bem-estar. Aqueles que porventura num dia específico estejam mais tranqüilos, ou menos atarefados, procuram esconder isso dos demais. Porque há muito medo da inveja alheia, e ao mesmo tempo, medo de passar a vergonha de não estar alinhado com o máximo esforço pela totalidade do tempo.

Não ter olheiras, insônia, preocupações infinitas e não estar exaurido significa, para muitos, ter de esconder isso para não se envergonharem de si mesmos.

Não se permitem tempo para usufruir o que tem. Não se permitem o mínimo tempo para reflexão. Não conhecem o significado da palavra paz. Não conhecem mais o significado do conceito interior de paz.

Olhe nos olhos de um homem contemporâneo. Eles nunca param. Precisam buscar incessantemente tudo aquilo que estão perdendo. Nosso tempo febril não permite piscar. Fechar os olhos ou desligar o celular. Todos já os mantém ligado mesmo nos teatros e cinemas. Como suportar o risco de perder algo? O que quer que seja; perder é insustentável para nós, hoje.

Mas estranhamente algumas perdas são toleráveis ao homem contemporâneo: a perda da nossa humanidade, da nossa falibilidade, do nosso sagrado direito à imperfeição e à necessidade de descanso. Acima de tudo, toleramos perder a paz interior. Pior ainda, ver que tantos consigam orgulhar-se disso.

© 2009 Paulo Ferreira. Todos os direitos reservados.

Enquanto você dormia

Durante o sono, sabemos que o cérebro reorganiza as experiências do dia, categorizando e criando ligações que transformam os dados da memória de curto prazo em memórias de longo prazo. De modo geral, as memorais de curto prazo funcionam como o chip de memória do computador: armazenando tudo para consumo e uso imediato, sem referencias cruzadas e rapidamente acessível. Uma informação recebida hoje fica ali disponível, acessível sem grande esforço. Quando vamos dormir, o cérebro reorganiza então a memória de curto prazo, avaliando aquilo que precisa ser guardado para futura referencia e descartando as informações desnecessárias para liberar espaço de memória. O fato de que sua reunião era as quatro horas de uma terça-feira pode ser muito irrelevante para futura referencia, então isso segue para uma área que é similar ao descarte: algo que não ficará indexado para referencia fácil. De todo modo sabemos que isso fica guardado num nível qualquer, abaixo da consciência, porque pode ser recuperado por meio de hipnose ou regressão. As informações mais relevantes recebidas na reunião, entretanto, precisam ser guardadas e acessadas novamente. Essas serão categorizadas e guardadas na memória de longo prazo, que é indexada, e podemos acessá-las novamente a qualquer momento. A memória de longo prazo é necessariamente indexada e organizada, de modo a podermos acessá-la sempre. Essa reorganização permite que o espaço de memória imediata , que é finito e limitado, seja liberado para o dia seguinte.

Precisamos dessa liberação para que possamos entender e captar as coisas no dia seguinte. As pesquisas mostram claramente que a falta de sono prejudica a percepção e dificulta o aprendizado, tornando os processos mentais mais lentos, exatamente porque temos uma área sobrecarregada, em função de não a termos liberado através da organização cerebral que aconteceria durante o sono. Durante o sono profundo, mais especificamente. Além do tempo de sono profundo, uma parte do sono é dedicada ao estado REM, no qual sonhamos. Está provado que o fato de lembrar ou não os sonhos não tem qualquer relação com o fato de sonharmos – todos sonhamos, independente de lembrarmos, e a falta de sono REM, não tem conseqüências graves como a falta de sono profundo, que cria comportamentos psicóticos e esquizofrênicos. (voltaremos às razões disso mais adiante)

Durante o sono REM e os sonhos, estamos criando as linhas de ligação para recuperação das memórias indexadas. São criados caminhos sensoriais que funcionarão como gatilhos para as nossas memórias. Para isso, áreas do cérebro que são responsáveis pelos sentidos precisam ser ativadas, de modo que o caminho se estabeleça. Assim, a área responsável pela visão precisa receber um estimulo interno para criar uma associação com a nova memória indexada no sono profundo. O Cérebro cria um disparo visual, que é percebido pelo Cérebro adormecido como uma visão – mas como estamos dormindo, isso nos vem como o que chamamos de sonho. Do mesmo modo são criados os caminhos para os outros sentidos, como olfato, tato e paladar. Mas como nossa memória é fortemente indexada e acionada por estímulos visuais, este é o aspecto mais lembrado nos sonhos, o dominante.

Seria interessante pesquisar como sonham aqueles que nunca tiveram visão, os cegos de nascença. Naturalmente deve haver um sistema diferenciado, posto que o sentido da visão nunca foi utilizado.

A falta de sono REM, portanto, impede a criação dos caminhos sensoriais para recuperação das memórias indexadas. Mas podemos continuar vivendo normalmente sem isso, por longos períodos. No longo prazo, teremos menor acesso e mais dificuldade para recuperar as memórias – e certamente seremos privados daqueles momentos em que os sentidos nos transportam ao passado; quando uma determinada visão no dia de hoje dispara uma memória complexa indexada que nos remete diretamente ao passado e a uma situação anterior. Mas porque a falta de sono profundo nos torna psicóticos e nos leva a comportamentos esquizofrênicos?

Está comprovado que os impulsos mentais esquizofrênicos são muito semelhantes aos impulsos naturais que ocorrem durante a fase REM do sono – ou seja, a esquizofrenia é na prática, como sonhar acordado. O limiar de realidade objetiva é afetado, e o esquizofrênico não consegue distinguir entre o que lhe é externo (o que acontece objetivamente no mundo) e o que e interno (o que acontece subjetivamente dentro de sua mente.)

Isso nos leva a conclusão que o sono profundo, que prepara e indexa as memórias, tem um papel fundamental na liberação do nosso limitado espaço de memória recente, não indexada. Ora, na ausência do sono profundo, o cérebro passa a operar com a memória de curto prazo sobrecarregada. Em poucos dias, privado de sono, tentará iniciar, mesmo acordado, o processo de indexação através dos sentidos, buscando um modo de aliviar a memória de curto prazo. Ao iniciar este processo de indexação utilizando as áreas dos sentidos enquanto o sujeito está acordado, cria estímulos subjetivos que se confundem com a percepção objetiva do mundo. Deste modo, sobrevém os estados psicóticos e esquizofrênicos, porque o sujeito passa a, literalmente, sonhar acordado, sendo incapaz de separar os processos objetivos dos subjetivos, passando então a uma percepção distorcida da realidade. Essas observações apontam para uma coerência importante na terapêutica atual em utilizar o sono induzido para os estados graves de esquizofrenia e psicoses. Convém lembrar que o sono induzido desse modo impede o funcionamento normal dos processos REM do sono.

Sabemos que a falta de sono profundo por períodos muito prolongados leva à morte. Mas porque? O processo de aprendizado é para o que o cérebro foi concebido. Esse processo depende da indexação das memórias. Não podemos conscientemente parar o processo de aprendizado, do mesmo modo que não podemos conscientemente para o processo biológico do fígado. Assim, trabalhando de um modo inadequado, o cérebro vai se sobrecarregando até que suas áreas responsáveis pelos processos vitais começam a ficar comprometidas. Sem a organização essencial, todo o órgão entra em colapso e faz com que o corpo acabe decaindo por erros ligados à manutenção dos processos vitais.

Curioso é que tenhamos criado computadores que são cópias dos nossos sistemas mentais: nossos computadores tem memórias RAM, que são acessíveis muito rapidamente, sem necessidade de muita indexação, mas com capacidade de armazenamento muito mais limitada, mas para grandes volumes dependemos de baixar estes conteúdos no HD, devidamente organizado e indexado, liberando assim a memória RAM. Do mesmo modo, nós, para grandes volumes de informação, dependemos da indexação realizada durante o sono profundo, que faz com que a informação seja ligada e organizada, setorizada e catalogada pela mente, de modo a ser acessível posteriormente. Os sonhos são, portanto, a parte perceptível dos processo mentais de organização e referencia para acesso posterior.

Porque os conteúdos dos sonhos nos parecem incompreensíveis ou aleatórios?

A velocidade com a qual esse processo acontece no cérebro é tão grande e tão intensa, que o que lembramos dos sonhos, no geral, assemelha-se a ver um filme em velocidade muito acelerada. O meu DVD player tem uma função que exibe o filme numa velocidade 64 vezes superior à normal. O efeito de tentar assistir algo nessa velocidade é muito semelhante ao que apreendemos de uma sonho: o protagonista aparece em cena, de repente está num outro lugar, em seguida desaparece subitamente, a seguir está num outro país… claro que entre todas essas cenas, aconteceram muitas outras que deram um sentido claro e contínuo à história. Mas a questão é que ao vislumbrarmos apenas pedaços da história, numa velocidade muito acima daquela que nossa consciência pode captar, temos a sensação de descontinuidade e aleatoriedade das ações. Na verdade, nossos sonhos provavelmente tem um enredo coerente e de seqüência perfeita. Só que a velocidade com a qual o cérebro processa essas indexações é inadequada para nossa mente consciente. Desse modo, ficamos apenas com os pedaços que conseguimos captar, num conjunto que, no geral, não parece fazer sentido. Estamos apenas vendo fragmentos de um filme exibido em velocidade muito maior que a nossa compreensão consciente é capaz de captar.

A linguagem é o limitador da velocidade com a qual pensamos?

Levando em conta essa possibilidade de velocidade ampliada durante o sono, esse processamento acelerado em modo REM, se não tivéssemos que conscientemente verter em linguagem o que pensamos, pensaríamos muito mais depressa? As idéias vem mais rápido do que podemos expressar – mas só são reconhecidas depois de comunicadas ou pelo menos guardadas e entendidas por nos mesmos, por meio de linguagem, interna ou extremamente. sem a barreira da linguagem seriamos muito mais rápidos, sem a interface, seria muito mais veloz, exatamente como linguagem de computação de alto nível.

Isso poderia indicar um caminho para o aprendizado acelerado, se interpretarmos as ondas cerebrais do modo REM e as utilizarmos para inserir conhecimento? Posteriormente, quando da utilização do conhecimento, aí sim ele seria vertido sob forma de linguagem – mas já teríamos o conteúdo interiorizado – muito mais rapidamente do que se fosse mediado por formas de linguagem de baixo nível necessárias para a transmissão tradicional do conhecimento, como usamos hoje.

De todo modo, atualmente, e ainda, agradecemos imensamente pelo uso da linguagem. Mas sejamos conscientes de que ela é a âncora que prende e limita tanto a nossa compreensão quanto a velocidade do nosso aprendizado e comunicação.

 Paulo Ferreira, 2012. (autorizada a reprodução total ou parcial, desde que citada a fonte)

 

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