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Continuar o caminho, sempre…

O que é uma teoria? É uma forma de conhecimento? É um passo para se alcançar a verdade? Muitas pessoas acham ao ver nas revistas, televisões e jornais a frase “cientistas descobriram que…”, o que vem a seguir é um passo a mais na verdade do mundo.

Mais que isso, as pessoas tem a idéia de que as descobertas científicas funcionam como uma luz, que cada vez fica mais forte, e aos poucos vai iluminando as áreas escuras da realidade, e nos revelando a Verdade. Ora, mas esse é um modelo religioso de verdade – Há um Deus perfeito, que contém em si toda a Verdade, e que podemos acessar ao menos uma pequena parte desse grandioso saber. O que quero dizer aqui não é que essa forma de saber está errada, mas que, no fundo, nossa visão de mundo depende de uma teoria, uma idéia do que é a realidade e o que é a verdade.

Por exemplo, se perguntarmos o que é um rio a um geógrafo, a um pescador e a um índio. Porvavelmente o geógrafo vai falar das propriedades físicas da água, do ciclo de nascimento do rio e sua formação através do relevo da paisagem, ou seja, aquilo que vemos dito nas ciências e provado em suas experiências. O pescador, por outro lado, estudou pouco mas tem uma experiência profunda de como o rio se comporta, se tem ou não muitos peixes, seus perigos e suas belezas. Seu saber só pode ser sentido por aquele que tem a mesma experiência. Já para o índio, este vai descrever o rio provavelmente através de uma mitologia, ou seja, vai tratá-lo como um deus, com suas vontades próprias.

Ora, quem está certo? Em parte, depende de que comunidade você pertence. se você for um morador urbano e escolarizado, um pescador de uma comunidade pequena ou um índio, você olhará para o mundo com um olhar diferente. Você vai partir de sua vida e de sua história, pessoal e social, para entender o mundo à sua volta.

Quando estudamos uma determinada teoria (Física quântica, psicanálise, Teologia cristã), aprendemos aos poucos a ver com outros olhos. Aprender a ver, isto é, colocar novas lentes, que vão aumentar determinadas coisas e desfoar outras de sua visão. Cada teoria tem um status social diferente, e assim passa a dominar e a se ampliar em nossa cultura, sendo considerada com mais valor do que outras. Assim, não é somente porque a ciência consegue explicar melhor o comportamento das coisas que ela é mais acreditada do que outras, mas sim porque fomos ensinados a ver com os olhos científicos (não os olhos de quem pratica a ciência, mas de quem a vende nas revistas, jornais e televisão, e que passam uma ideia errada do que a ciência é).

Poderão me questionar agora, dizendo que é ridículo eu comparar uma teoria científica à uma mitologia religiosa. Também acho essa comparação ruim. São duas coisas totalmente dierentes. Entretanto, as duas podem moldar nossa forma de ver as coisas, e nos fazer acreditar no que elas dizem.

Destruir dogmas, é o que diz o título desse site. Como se destrói dogmas? Dogma é, de certa forma, uma crença sem justificativa, sem olharmos de onde ela vem. Toda teoria vem de algum lugar, ela tem uma história. Assim, creio que destruir dogmas é parar de crer cegamente em algo, e assim ter noção de que nosso ponto de vista tem acesso pode ser falso.

É muito difícil acreditarmos em algo e ao mesmo tempo crer que podemos estar enganados. Mas não é assim que acontece a vida toda? Estamos mudando de opinião o tempo todo sobre vários assuntos. O que estou dizendo não significa que nada é verdadeiro, ou que não exista nada falso no mundo. Pensem no conhecimento como um horizonte: ele é amplo demais para vermos tudo de uma vez. Temos que continuar caminhando conhecendo tudo pela metade, vendo enganos, acertos… acho que não temos capacidade de dizer se algo é totalmente verdadeiro ou totalmente falso… só o tempo poderá dizer isso. Assim, é importante percebermos que não podemos conhecer nada, o conhecimento não é uma coisa pronta que pode ser posta em uma prateleira, mas um caminho interminável, e continuar caminhando é isso, é saber que a sua teoria é uma forma de ver, de caminhar, que pode te levar a meias-verdades, mas também à meias-falsidades.

Assim, só posso desejar uma coisa: continuem caminhando.

PS: Me lembrei agora do filme Forrest Gump. Há um trecho em que ele decide-se correr de um extremo a outro do país. Corria por correr, comia quando tinha fome, dormia quando tinha sono. Às pessoas, sem entender o fato (correr sem motivo) passou a dar um sentido a seu ato, como se fosse um novo estilo de vida, uma forma de protesto, etc. De repente ele parou, e disse que se cansou de correr e que iria para casa. As pessoas ficaram sem entender nada. Claro pois, em vez delas apreciarem o caminho, curtirem o vento batendo no rosto, ficaram preocupadas com o sentido final, com a verdade daquela corrida. Esperaram pelo fim, e se esqueceram do meio…