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Fronteiras do Século XX, Idade das Trevas.

Por Paulo Ferreira

 

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“Há poucas coisas mais bizarras do que ver as pessoas defenderem que outro país seja bombardeado, mesmo reconhecendo que não haverá outro resultado positivo exceto salvaguardar a “credibilidade” dos que fazem o bombardeio. É difícil imaginar um sinal mais claro de um império fraco e decadente do que sua “credibilidade” depender de bombardear periodicamente outros países.” ~Glenn Greenwald (traduzido do artigo Obama, Congress and Syria, publicado no The Guardian de 1o de Setembro de 2013)

A Idade das Trevas é uma periodização histórica utilizada para a Idade Média, que enfatiza a deterioração cultural e econômica que ocorreu na Europa Ocidental após a queda do Império Romano. O rótulo tradicional emprega imagens de luz versus escuridão por contraste da “escuridão” do período com períodos anteriores e posteriores de “luz”.  O termo “Idade das Trevas” em si deriva do latim saeculum obscurum. (traduzido da Wikipédia, sob o titulo Dark Ages)

 

A história é vista e consolidada em retrospectiva, e várias vezes nos escapa a percepção de que ela nada mais é do que o que vivemos hoje, a cada dia, quando visto de um ponto futuro. Este momento na história será visto desse ponto futuro de um modo que pode ser claramente identificado agora, porque de certo modo reencena uma peça que já ocorreu antes, com contornos extremamente semelhantes: o drama da Idade das Trevas. Naquele momento histórico (e aqui o importante não são as datas, mas os fatos), marcado pela queda do Império Romano, o mundo encontrava-se imerso em doença, fome e violência. O poder emanava da força de poucos, fosse esta força militar ou político-religiosa, ou a soma de ambas as coisas. O Império, enquanto se desmantelava, agarrava-se ao poder de modo cada vez mais violento, ameaçador e insano. É quase desnecessário assinalar que a queda do “Império Americano” e o cenário de doença, fome e violência repetem-se de modo apenas atualizado, e que a insanidade dos comandantes do “império da vez” deseja o poder permaneça emanando da força militar e político-econômica.

São estes que querem reencenar o drama da Idade das Trevas que agem ignorando o fato que hoje as pessoas podem manifestar-se, e que milhões de pessoas no mundo todo declaram-se contra as soluções violentas como recurso válido. Ignorando a opinião mundial; enquanto mantém em segredo imensas operações secretas que espionam e ameaçam a vida e as liberdades individuais em todos os países, incluindo seus próprios cidadãos. Toda a truculência e insanidade deste esquema foi claramente denunciada “de dentro” por ao menos dois presidentes americanos, Eisenhower e Kennedy. Eisenhower falou talvez num momento em que a organização dessas forças ainda não estava segura o suficiente para realizar uma ação fatal contra ele. Já Kennedy, meros dois anos depois, foi sumariamente executado dias apos proferir o discurso no qual disse “antes de deixar este cargo, pretendo expor essas forças e este esquema criado para escravizar cada homem, mulher e criança da América.” Vale lembrar que Robert Kennedy teve o mesmo destino, numa ação ainda mais planejada, a de eliminar a “ameaça” antes mesmo que ele fosse eleito presidente e pudesse ter os poderes necessários para incomodar o esquema.

Este momento na nossa história é o ponto onde declaramos, como cidadãos do mundo, que não reconhecemos mais a força e a agressão como sinal de poder. Este é o momento na história em que o mundo deixa claro que a AGRESSÃO é o instrumento dos fracos e desesperados. É o discurso dos despreparados, a ameaça é o recurso dos ignorantes e dos incapazes. A guerra é a expressão máxima da Idade das Trevas que se tornou o século XX, marcado por duas guerras mundiais e tantas outras guerras “de escolha”. Guerras feitas pelos motivos errados, contra as pessoas erradas, pelas pessoas erradas. Porque não existem mais motivos que justifiquem a guerra no mundo, exceto para aqueles que consideram, ainda, que dinheiro, recursos e petróleo podem ser mais valiosos que a vida dos seres e do planeta. Ao custo de descartar os seres e o próprio planeta, como algo poderia ter qualquer importância, para quem? Apenas para uma minoria ridícula de indivíduos doentes e insanamente egoístas.

Para estes é que devemos dizer, claramente, um milhão de vezes, um bilhão de vozes: NADA é mais valioso que servir os seres e o planeta que os abriga. Nada justifica bombardeios, ataques e violência. Todas as mudanças precisam nascer da transparência e do dialogo aberto. Todos os problemas precisam ser alvo de uma solução – e não a desculpa para criar um novo problema, que vai prejudicar e matar milhares de seres. Matar milhares não reparará, nem solucionará a morte de centenas. É preciso entender que nada trará de volta os que se foram – mas que tudo pode ser feito para evitar que o mesmo aconteça a milhares amanhã.

Este é o ponto na história em que nos encontramos. No ponto futuro, seremos aqueles que terão assinalado o fim da Idade das Trevas que foi o século XX, aqueles que finalmente entenderam e puderam fazer com que a agressão e a violência fosse definitivamente aposentada como instrumento de poder? Definitivamente banida de qualquer “véu” de legalidade, e reconhecida formal e definitivamente como recurso associado APENAS aos bandidos, aos psicopatas, aos incapazes, aos primitivos? Seremos nós que poderemos finalmente declarar, de uma vez por todas, que toda forma de violência é uma VERGONHA automática e completa? Seremos nós que faremos com que qualquer pessoa prefira, a cometer qualquer agressão, esconder-se num buraco escuro, para evitar tornar-se um pária, um ser ignóbil, digno de pena, considerado a mais vil e baixa escória a habitar este mundo?

Somente quando formos capazes de fazer isto, teremos finalmente posto um fim à Idade das Trevas e dado início ao que poderemos chamar de Novo Renascimento.