Documentário: Michel Foucault Por Ele Mesmo

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Este documentário, se é que pode ser chamado assim, é uma apersentação sobre a vida e o trabalho de Michel Foucault, pensador francês de grande influência até hoje. A de finição que mais gostei de seu trabalho foi dada por ele mesmo: ele realiza uma “história das problematizações”, de como as coisas e acontecimentos produzem problemas”.
A partir disso, pode-se perceber que seu trabalho mostra as condições de “visibilidade” e de “dizibilidade” de cada época e local:  cada época tem a capacidade de poder ver de determinada maneira, e de dizer dentro de determinada “lógica” sobre as coisas que vê. Vou colocar abaixo algumas explicações e um resumo do video, para ajudá-los com as partes mais difíceis.

 

Ou seja, muitas vezes somos tentados a pensar que aquilo que vemos e que dizemos é a pura verdade, universal, vista, dita e até compreendida por qualquer pessoa, independente da época em que viveu. É aí que estamos errado: as condições de nossas vidas em cada momento determinam aquilo que pode ser visto e pensado.

No início do vídeo, Foucault inicia sua fala mostrando que nossa sociedade não é constituída por espaços iguais, ou seja, os “indivíduos” não transitam pelo mesmo espaço, cada espaço da sociedade possui uma forma específica de funcionamento: espaços reservados da intimidade (quarto, lar), espaços porosos de trânsito (calçadas, shoppings), entre outros.

Seu desejo é o estudo do que ele chama de “heterotopologia”, ou seja o estudo do não-lugar, das áreas entre os espaços socialmente determinados, locais onde situam-se os excluídos: o louco, o detento, o sem-teto, o homossexual (ao menos era antes de constituir seu espaço próprio – saunas, paradas gay, e mesmo a entrada no espaço legal com o casamento civil).

Depois de uma introdução de Foucault sobre o que estudo, o vídeo apresenta o prefácio de uma de suas primeiras obras, “História da loucura”, de 1961. Conta como na idade Média se confrontava com aquilo que chamavam de loucura, desrazão (onde falta a razão). A relação entre razão e desrazão marca nossa cultura ocidental, e aparece naquilo que ela tem de originalidade. Muitos autores originais e importantes apresentavam uma relação especial com a desrazão, e alguns enlouqueceram de verdade. ele mostra que a loucura, há alguns anos atrás quando ficava encerrada nos hospícios, era filtrada pelo saber instituído (o psiquiatra captava da loucura somente aquilo que conseguia compreender com seu saber e que poderia ser usado para se dar um diagnóstico, e deixava de lado o incompreensível). A loucura era (e ainda é) mantida à distância. Mesmo hoje, com o fim da internação asilar dos loucos, estes são mantidos longe de nossa compreensão e experiência, nós os reduzimos a termos psiquiátricos (esquizofrenia, paranóia, psicose) ou são traduzidos em uma dinâmica psicanalítica (forclusão do Nome-do-Pai, para Lacan), mas poucos entram em contato direto com o que é a loucura, poucos se deixam ficar loucos.

Depois o autor mostra como as formas da loucura vão aparecendo na época da Renascença, em relação com a arquitetura gótica. Mostra como a loucura passa se relacionar à festa, um período de tempo onde pode-se deixar de lado as normas racionais e se entregar ao insano. A festa torna-se um espaço onde as pessoas poderiam experimentar “sua própria loucura”. Cuidado com as metáforas que ele usa. Foucault usa o termo missa satânica para descrever a festa, mas sua conotação aqui não é moral, no sentido de que as pessoas fazem coisas ruins nas festas. Mas sim as festas em que se manifestam a loucura é onde as pessoas agem inversamente ao que costumam ser na vida, a lei não é a de Deus, mas é o oposto da moral. Como exemplo, podemos citar o carnaval, e até aqueles blocos onde homens e mulheres se vestem trocados. Durante um curto período de tempo as pessoas podem se vestir livremente, sem que isso signifique que elas sejam homossexuais, onde fazer algo “absurdo” (ou que o seria no dia a dia), é possível.

Para ele, o que intriga até hoje as pessoas na loucura é que ela parece guardar um saber. Há algo de diferente no louco, que não compreendemos, mas porque ainda não temos acesso. Esse mistério é instigante ao homem “racional” ocidental.

Ele apresenta um documentário que eu vi e que é muito interessante, ao mesmo tempo que é perturbador, chamado “a consumação do cachorro”, de Jean Rouch. ele mostra um ritual de possessão africano, no qual os possuídos encenam o que ele chama de paródia da sociedade que os colonizaram. Durante o ritual, o que pode ser mais perturbador às pessoas é o momento em que os possuídos matam e devoram um cão. Eu poderia gastar um tempo grande aqui explicando o que esse ritual significa, aos olhos da etnopsicologia, mas aí sairíamos do que pretendo mostrar. O que Foucault mostra é como que os africanos percebem e lidam com as novidades trazidas pelos colonizadores, integrando esses elementos em seu culto de possessão, e colocando-os sob uma forma que é, para nós ocidentais, louca (e sei que vendo as cenas do filme vocês sentirão um pouco disso, esse incômodo de ver loucos).

E aí que ele mostra como que a idade moderna passa a lidar com a loucura, tirando-lhe o caráter misterioso e assustador, através da perspectiva científica: a loucura passa a ser tema do hospital, da medicina, da ciência. O louco passou a ser chamado de doente mental (mas, como pode-se ver no video, não foi somente uma mudança de nome, mas de compreensão da desrazão e do tratamento do que é considerado louco). Atentem-se para a pesquisa histórica que Foucault levanta sobre a nova forma de consideração do que passou a ser a loucura. Aliás, essa história também é retratada no Brasil, pelo conto de Machado de Assis, “O Alienista”.

O vídeo chega a mostrar como a obra de Descartes influenciou nesse domínio da razão sobre a loucura, e como que essa ficou associada ao erro e a ilusão, ou seja, ao que não é verdadeiro (e a verdade, para ele, estava do lado da razão). Assim, ele mostra uma ligação especial entre saber e poder: determinada forma de saber é responsável por sujeitar ou libertar, como foi no caso da Igreja, no período da colonização européia das Américas: a Igreja debateu e, com seu saber, determinou que o índio tinha alma, devendo então se catequizado em vez de morto. Foi a Igreja que fez o colonizador compreender que o índio não era um animal, mas um homem e criação de Deus. Hoje é a ciência que faz isso como na reportagem da Veja sobre os animais terem consciência (ver aqui).

Posteriormente, o vídeo começa a mostrar as pesquisas de Foucault sobre os sistemas de vigilância e de aprisonamento, o que marca a ligação entre seus estudos sobre o asilo psiquiátrico e o sistema prisional. surge uma nova tecnologia de controle da população, instituições de vigilância e o surgimento do sistema prisional, tal como conhecemos hoje, na Europa do século XVIII. Aqui, aborda-se sua obra “Vigiar e Punir”, de 1975. Começa mostrando a mudança da forma de punir, que antes era através do suplício público (a tortura e a execução pública do criminoso), para uma forma mais “eficaz”, e mais condizente com a época, fim do século XVIII e início do XIX. Ser mais eficaz seria controlar o “corpo social”, o conjunto de indivíduos e suas relações sociais, de forma universal, controle que não se tinha anteriormente. Foucault mostra de forma brilhante a forma na qual o sistema criminal busca interiorizar a vigilância e a culpa, fazer com que o indivíduo sinta-se vigiado e controlado, o que diminui o esforço das instituições para controlar os cidadãos. Há algum tempo eu escrevi um texto dobre o panóptico (leia aqui), que entra nessa parte da discussão. Mostra também que esse sistema de vigilância é um sistema que nos coloca permanentemente em concurso,no qual somos o tempo todo classificados (boas classificações rendem prêmios, péssimas classificações levam a punições). é a produção do sujeito, os esquemas de vigilância, recompensas e punições criam pessoas que agem, pensam e se parecem com aquilo que o conjunto das instituições determinam.

Mesmo hoje, as pessoas são escravas, mas não há grandes colonizadores, ou ditadores, ou dominadores em geral. é a servidão a si próprio, a internalização da vigilância faz com que o indivídio vigie a si mesmo, construa um “si” à imagem do que é socialmente aceitável. Somos escravos de nós mesmos. Aí Foucault entra em outro tema importante de seu trabalho, tratado principalmente no terceiro volume de sua “História da sexualidade” (ANO), “O cuidado de si”, e que nos remete à cultura da antiga Grécia. Várias são as “doenças” que eu considero frutos dessa servidão a si mesmo, como por exemplo a anorexia e bulimia, os comportamentos obsessivos graves, as compulsões (o interesse exagerado e sem controle) por qualquer tipo de mudança corporal (seja por musculação e anabolizantes, por excesso de cirurgias plásticas, regimes alimentares radicais) visando seguir o modelo socialmente imposto.

A análise do quado de Velázquez, “As meninas”, mostra, através de um olhar que vê todas as perspectivas, a morte do sujeito. O que era a representação, na Idade Moderna: era a busca pela verdade, independente de quem estivesse olhando ou pensando. Para isso, era necessário que não houvesse perspectivas pessoais, todos devem poder, de qualquer lugar e em qualquer época, a mesma coisa. Assim, o sujeito desaparece do conhecimento, deixa de ser importante. Vemos isso na arte. Na Renascença, com as obras Michelângelo, Rafael, Donatelo, Leonardo Da Vinci (e de muitos outros que não se tornaram tartarugas-ninja), a perspectiva visava apresentar um efeito de realidade, como se a obra representasse a perfeição do real. No período Barroco, início do século XVII, a semelhança deixa de ser considerava forma de verdade, e passa a ser considerada ilusão, aquilo que nos induz ao erro. Essa época é marcada, nas artes, pela força da alegoria, da metáfora, do sonho.

Foucaulta fala também sobre seu procedimento arqueológico. Sua obra, importante para as ciências humanas, não faz uma “história” propriamente dita, mas uma arqueologia, destacando as formas de pensamento e os acontecimentos que são essenciais para compreender a emergência de diversas ciências, cada qual em sua história particular. Ele destaca que a mesma forma de pensamento é responsável pela emergência de ciências como a Filologia (que estida a origem das palavras), da biologia (que estuda a vida), das ciências políticas. Em vez de buscar a semelhança, essas ciências buscavam discernir, analisar, encontrar o que era específico e fundadro de cada fenômeno estudado. As ciências buscam as estruturas que determinam os fenômenos, e através dessas estruturas vão determinar o que é semelhante e o que é diferente. Pode-se ver isso no caso da teoria da Evolução de Darwin. Compreendendo que houve um processo de mudação e seleção que criou as diferentes espécies que temos hoje (essa é a estrutura), pode-se conceber, entre os diferentes animais, quais são os órgãos análogos (mesma função mas com origem embrionária diferente) e homólogos (mesma origem embrionária, mas nem sempre exercendo a mesma função) – esse é o processo de encontrar semelhanças e diferenças (sobre analogia e homologia, ler aqui).

Foucault considera que, no século XX, a estruturação das ciências humanas leva mais ao desaparecimento do homem do que a uma “apoteose” do homem. Isso porque ele estava em meio ao florescimento de uma nova corrente de pensamento, muito forte na França, o Estruturalismo, que influenciava a Psicanálise (Lacan), a Antropologia (Lèvi-Strauss), a Sociologia (Bourdieu), a Linguística (Sausurre) e mesmo a filosofia (Barthes). Nessas, a compreensão do homem se davam pelas estruturas nas quais se baseavam suas relações sociais e seu universo psíquico. No fundo, ão havia espaço para o homem, este estava apagado pelas estruturas. Por fim, Foucault diz que o pensamento do século XX mostra que não se deve considerar o homem como prévio, ou seja, mesmo nós somos construídos, formados, e também nos construímos. Não estamos aqui do mesmo modo que estiveram na Idade Antiga ou Média, mas aquilo que chamamos de homem, de pessoa, de indivíduo depende das condições de possibilidade de ver, dizer e pensar de nossa época. Cabe-nos perguntar, hoje, 28 anos após a morte de Foucault, quais são nossas condições de ver, dizer e pensar sobre o mundo a nossa volta, antes mesmo de abrir os olhos, a boca ou a mente.

Baixe o documentário aqui Download.

 

 

 

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